COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO


A AVALIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO ESPAÇO DO CAOS

Ana foi “bombardeada” por uma quantidade exorbitante de informações enquanto realizava uma pesquisa na internet. O que achava que seria um prato cheio para sanar sua “fome de informação”, tornou-se numa busca implacável no “mar agitado” de textos, imagens, vídeos e conteúdos diversos a serem explorados. “Qual a melhor informação? Quais critérios utilizo para selecionar a informação que necessito? Sinto-me mais desinformada do que informada!”, pensou.

 

Quem nunca se sentiu assim ao realizar uma pesquisa? Vocês já pararam para refletir sobre a quantidade (excesso) de informação em que estamos “imersos”? A um clique navegamos pelo mundo, conhecemos diversas culturas, costumes, pessoas e fatos, atualizamo-nos sobre acontecimentos, aprendemos e reaprendemos, construímos e descontruímos nossas opiniões e visões, informamo-nos e desinformamo-nos.

 

Os espaços sociais informacionais são e estão caóticos: há informações distorcidas, manipuladas, descontextualizadas, direcionadas a pensamentos e posicionamentos diversos, com variados vieses ideológicos, com objetivos, princípios e valores traçados e definidos. O excesso de informação (hoje irei me ater somente a ele) informa (bem e mal) e desinforma. Desinforma porque não são todas as pessoas que possuem a criticidade para reconhecer sua necessidade informacional, para selecionar a informação de qualidade, para avaliar e distinguir fontes confiáveis das não confiáveis e para identificar a relevância, a tendenciosidade e a manipulação dos conteúdos. É necessário ter a Competência em Informação (CoInfo) para saber lidar com o contingente exorbitante e desordenado de informações, pois é ela quem cria as condições e possibilidades de ordenar crítica e reflexivamente o saber.

 

O ambiente de hiperinformação cria uma barreira sobre nossa compreensão de mundo, uma vez que gera obstáculos para o uso consciente, crítico, responsável e ético de informações e conteúdos passíveis de respaldar e responder uma questão, uma decisão e/ou um problema, já que cada vez mais, “[...] a informação chega ao sujeito em diferentes formatos sem filtrar, gerando a necessidade de interrogar sobre sua autenticidade, validade e confiabilidade” (1).

 

O excesso de informação se torna ainda mais agravante quando associado ao fato das pessoas não terem o hábito de ler os materiais (advindos de uma fonte confiável) na íntegra: se informam, constroem opinião, comunicam e usam a informação a partir de uma leitura superficial. Consomem ½ da informação ou ¼ dela. Quando consomem algumas partes da informação caem no superficialismo das ideias, fazem interpretações incorretas e infundadas, perdem a credibilidade no discurso e confundem sua atuação e papel na sociedade.

 

Por isso, é elementar que as pessoas avaliem as informações para filtrar o que é coerente, confiável e de qualidade e que, conjuntamente a esta ação, leiam o material recuperado em sua totalidade para que possam se apropriar das informações e transformá-las em conhecimento. Na avaliação é preciso ordenar complexidades, decompor e penetrar camadas, associar informações para a compreensão dos fatos, mobilizar argumentos, realizar questionamentos e confrontar informações e fontes para detectar falhas e lacunas.

 

O sujeito deve assumir uma postura investigativa e sistemática para que faça o uso consciente, analítico, responsável e ético em relação à informação recuperada:

 

1) Seja um curioso nato: nunca se satisfaça com a primeira informação que ofereça evidências sobre o tema pesquisado. É importante investigar, examinar e comparar a informação de fontes variadas para se familiarizar com o tema, sanar dúvidas e reconhecer os diferentes pontos de vista e tendências. A busca por informações não é um processo linear, deve se configurar em uma ação de “cruzamento” e revisão de fontes e informações;

2) Analise a estrutura e a lógica dos argumentos, pois assim você identifica distorções, desvios, tendenciosidade e manipulações.

3) Verifique a data (dia, mês e ano) e horário que a informação foi disponibilizada: muitas pessoas disseminam informações ultrapassadas para distorcer fatos atuais. Em pesquisas científicas, por exemplo, dependendo do tema estudado, a informação não tem mais validade, pois já se tornou obsoleta;

4) Verifique se a fonte é confiável: consulte em sites institucionais (governo, universidades, associações e organizações de classe sobre o assunto, etc.), bases de dados científicas e páginas de especialistas/experts no assunto (credibilidade).

5) Desconfie de textos com erros excessivos de ortografia, concordância e coerência verbal: instituições e pesquisadores sérios, responsáveis e comprometidos têm uma trajetória construída e uma imagem a preservar, por isso, publicam textos com embasamentos científicos e que estão acordados com as normas cultas da língua.

6) Tenha a consciência de que os contextos cultural, político, econômico, social e físico impactam na interpretação e apropriação da informação: você é capaz de identificar os “dois lados da moeda” e, a partir de uma reflexão crítica, se apropria ou não daquela informação.

7) Faça a leitura completa do conteúdo para não realizar interpretações errôneas, incompletas e precipitadas das informações.

 

Na área de Ciência da Informação, mais especificamente nos estudos sobre Competência em Informação (CoInfo), existem os parâmetros que fornecem uma estrutura de trabalho que auxilia e guia bibliotecários no preparo de atividades de busca, recuperação, avaliação, uso, comunicação e compartilhamento das informações para os usuários. Os que mais se destacam na literatura são os da American Association of School Librarians (ACRL) intitulado Information Literacy Competency Standards for Higher Education (1) e o da Australian and New Zealand Institute for Information Literacy (ANZIIL) (2).

 

A falta de criticidade para avaliar as informações mostra o quanto estamos propensos a cometer falhas na pesquisa. O bibliotecário, neste cenário, deve desenvolver a Competência em Informação (CoInfo) para estimular o pensamento e postura reflexivos em seus usuários ao ponto de torná-los capazes de lidar com o caos dos espaços sociais informacionais de forma consciente, crítica, responsável e ética. É ele quem deve alertar sobre os “dois lados da moeda” e sobre o que está implícito nos “bastidores” das informações e dos conteúdos. É ele quem deve ensinar a buscar, recuperar e avaliar informações em fontes confiáveis para a criação de significados. É o bibliotecário quem mostra o poder que a informação tem (destrutivo ou não) na geração e construção de conhecimento para intervenção prática na realidade.

 

Referências

 

(1) ASSOCIATION OF COLLEGE AND RESEARCH LIBRARIES. Information literacy competency for higher education. Chicago: ALA, 2000. Disponível em: <http://www.ala.org/ala/mgrps/divs/acrl/standards/
informationliteracycompetencystandards.cfm>. Acesso em: 25 out. 2016. 

 

(2) BUNDY, Alan. El marco para la alfabetizacion informacional en Australia y Nueva Zelanda: principios, normas y práctica. 2. ed. Austrália: ANZIIL, 2004.


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CAMILA ARAÚJO DOS SANTOS

Doutora e Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista(UNESP) - Campus de Marília. Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) - Campus de Marília.