CAFÉ COM PÓS


A VIDA APÓS A “PÓS”

Quando se decide cursar uma pós-graduação acadêmica no Brasil o que se tem em mente normalmente é a carreira docente. Isso é não só óbvio, pela abordagem que se espera dos cursos aqui, como também natural, visto que o mercado brasileiro não vê na pós-graduação acadêmica retorno que lhe incentive a investir em altos salários para mestres e doutores em suas empresas.

A carreira docente, por sua vez, traz a possibilidade de contribuição na formação de novos profissionais capacitados e conscientes de seus objetivos de profissão e, quando feito com comprometimento e paixão, pode resultar em uma vida de desafios, mas com grande satisfação.

O processo de seleção é extenso e exigente. São muitas as etapas que, dependendo do programa escolhido, envolvem leituras, escritas, provas, entrevistas... Após se dedicar, mesmo que não seja na primeira vez, você poderá entrar em um programa e então vir para o longo caminho que envolverá disciplinas, grupos de pesquisa, projetos, desenvolvimento de trabalhos, etc.

O que ninguém te conta é que a vida de pós-graduação acadêmica não tem nada a ver com a graduação. Novos formatos de aula, novos relacionamentos com os professores, novas posturas frente a festas e trabalhos... Tudo novo, tudo intenso.

As festas perdem o significado que tinham na graduação e, embora seja legal sair com amigos, eles também já não são os mesmos, e muitas vezes ficar horas discutindo seu problema de pesquisa nos horários de café passam a ser momentos de extremo deleite que você sempre lembrará.

Se você está em uma instituição diferente da sua graduação (que é meu caso), ainda tem o “reconhecer” desse novo espaço. Campus, cidade, costumes, burocracias... Tudo influencia nessa nova vida que você escolheu. Raiva, confusão, felicidade, euforia, frustração... Tudo vira um looping que muitas vezes a família não entende.

Os trabalhos passam a ser prioridade pois renderão bons frutos – publicações ou contribuições para sua Dissertação ou Tese. Alguns te desafiam mais que tudo. Livros e artigos lidos e relidos, noites em que você acorda e corre escrever para não perder a inspiração que teve “do nada”, e conversas com colegas e professores para “colocar pra fora” aquela finalização as vezes é essencial. E sim, suas publicações deverão ser prioridade sempre, são sua “resposta” à sociedade – são a expressão do seu trabalho.

O estar trabalhando de forma exaustiva sem estar fisicamente em um escritório fará todo o sentido para você, mas seus familiares talvez pensem que você simplesmente “não está indo pra faculdade”, e isso parece ser sinônimo de pouco trabalho. Algumas pessoas entenderão com o tempo, outras nem tanto, principalmente se você for bolsista... aí vai ficar ouvindo que “não está trabalhando, só estudando”.

Mas, na minha opinião, as aulas da pós são o mais incrível. No primeiro dia de aula você se sente extremamente perdido, principalmente se na sua aula houver alunos veteranos (o que com certeza haverá). Os alunos são mais participativos e os professores mais envolventes.

Começa a surgir uma loucura de sentimentos: a felicidade incontida quando o professor cita aquele livro ou trabalho que você conhece, e aquela vergonha expressiva quando ele fala de autores e assuntos que parecem grego pra você – e pode ter certeza que o fato de outras pessoas estarem com aquela cara de “é claro!” só te fará se sentir pior.

Muitas vezes a sensação é de que você nem deveria estar ali. Mas deveria. Não se preocupe, vai melhorar, ou não... A verdade é que vai melhorar, mas não do jeito que você espera.

O que acontece com o passar das disciplinas é que seu “mundo” ficará cada vez maior, e quanto mais você “não saber”, mais serão oportunidades de aprender e ampliar suas dúvidas. Talvez você não perceba no início, mas a graça está justamente em não saber. São nos seus momentos perdidos que você se encontrará mais e mais.

E essa é a magia da pós, você encontra o ambiente que te ensina cada vez mais, e assim mostra o quanto você sabe cada vez “menos” – e isso é o mágico! É o instigar!


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HELOÁ OLIVEIRA-DELMASSA

Doutoranda em Ciência da Informação na Unesp - Marília, Mestra em Ciência da Informação pela Unesp - Marília e Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual de Londrina.