BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA ESCOLAR: A SAGA CONTINUA...

Cada dia mais, conforme percebo os fatos ocorrendo ao meu redor, me pergunto qual será o futuro de nossas, já parcas, bibliotecas escolares?

Me indago: Biblioteca Escolar, até quando? São tantas as agruras, tantas as incertezas, tantos os desafios, tantos os descalabros, tanto abandono, que intimamente questiono a sobrevivência desse refúgio lúdico, porém tão necessário, que é a biblioteca escolar. 

Curioso é que esse sentimento, essa sensação, já me ocorreu em outros momentos, em outras oportunidades, anos atrás. 

Com o advento do computador, se não me engano, foi a primeira vez que se perguntou muito sobre a necessidade de um setor como biblioteca escolar. Depois veio a Internet, e só foram intensificando as questões, entre muitas, para que serviria uma biblioteca escolar, uma vez que se poderia encontrar tudo via online?

E lá estavam, mais uma vez, os aficionados, os abnegados, se explicando e justificando a existência e real necessidade de uma biblioteca escolar.

Há cerca de quatro a cinco anos, a biblioteca escolar viveu, na minha modesta opinião, seu grande apogeu, ou seja, estava na boca do povo, na mídia, na política, nos órgãos de classe; o assunto girava em torno da biblioteca escolar. 

Na oportunidade escrevi que seria aquele, realmente, o momento que a biblioteca escolar entraria, de vez, nas instituições escolares, notadamente na esfera pública. Estaria se consolidando na mente de nossos políticos de plantão, nos diretores de escola, a importância e necessidade, de fato, de termos escolas com bibliotecas em pleno funcionamento e, por conseguinte, um profissional qualificado. 

Com a Lei 12.244, de 24 de maio de 2010, sancionada pelo então Presidente da República, criou-se uma expectativa enorme em todos os profissionais, os amantes e preocupantes com as questões Biblioteca e Educação como um todo, porque uma não existe sem a outra.

Como a Lei determina que o país teria dez anos para se adaptar, para se organizar, para que as escolas pudessem se estruturar com a existência de uma biblioteca, tendo um mínimo de acervo por aluno e ainda poder contar com a presença de um profissional, devidamente, habilitado, sentimos um pequeno movimento entre 2011 e 2014, aproximadamente. Movimento tímido, porém claro, de que algumas escolas teriam se sensibilizado pela questão e começaram a sua organização, visando ao atendimento da lei até 2020.

Entretanto, infelizmente, após conversas com profissionais da área, que ainda estão em atividade, assim como alguns da área de educação e também de acordo com algumas estatísticas verificadas em jornais, o movimento não só parou, como regrediu. 

Segundo fiscais do Conselho Regional, algumas escolas particulares visitadas, que mantinham biblioteca atuante e com profissional, precisaram rever seus quadros funcionais, devido a queda na matrícula de novos alunos. Numa dessas instituições, por exemplo, a solução encontrada pela diretoria, foi a dispensa do profissional, a redução do horário de funcionamento da biblioteca, e a responsabilidade pela mesma, delegada a outros funcionários da instituição.

Nas escolas públicas, segundo consta, nunca houve movimento algum que garantisse ter uma biblioteca escolar, quiçá com profissional bibliotecário. Pelo contrário, o que se viu e ainda podemos constatar foi a manutenção das Salas de Leitura.

No Estado de São Paulo, mais precisamente na região onde resido, e onde conheço um pouco mais, houve escolas que até mesmo as atividades da sala de leitura, que ocorriam no espaço da biblioteca, deixaram de existir, num período de 2014 e 2015, retornando somente no final de 2016. 

Claro que parte desse contexto é reflexo de uma crise generalizada no país, crise não só política, mas econômica, social e até mesmo moral, tornada pública com a deflagração, em março de 2014, da Operação Lava Jato, que mexeu, sem dúvida alguma com a cadeia institucional, pública e privada e, com isso, pudemos sentir o efeito dominó, que direta ou indiretamente afeta as instituições de ensino. 

Diante do quadro exposto, constatamos uma profunda alteração no cenário educacional, propriamente dito, relegando assim, o quesito biblioteca escolar para um segundo plano, tornando-o quase irrelevante. 

Para ilustrar ainda mais essa situação lamentável, li, recentemente, mais precisamente em julho passado, um artigo bastante interessante sobre uma pesquisa elaborada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, entre alunos de 08 a 18 anos. O levantamento faz parte do processo de reformulação do Ensino Fundamental da Rede, a entrar em vigor em 2018. De acordo com o artigo, foram ouvidos 44 mil estudantes. Considero esse número bastante expressivo. 

A ideia era ouvir os estudantes sobre o que eles gostariam de ter, ver, aprender nas aulas. Excelente iniciativa, mas... somente agora esse questionamento?????? A matéria, no jornal, traz clara: pesquisa inédita!!!! Tudo bem, nunca é tarde...

Um ponto chamou muito a atenção: uma aluna entrevistada diz que o dia que ela mais gosta de ir à escola é o dia que vai para a Sala de Informática e ainda verbaliza “os professores poderiam tentar outras formas de ensinar, como usar a internet.” E o artigo continua com outros espantos: para seis em cada dez alunos do Ensino Fundamental Municipal, a escola deve usar internet e tecnologia, propor atividades culturais, desportivas e em grupo e ainda abrir espaços para discussões.

Já projetos de leitura e reforço escolar não tiveram o mesmo apelo. Apenas 20% dos estudantes gostam de participar de projetos que envolvem leitura e 20%, das aulas de reforço.

Triste realidade!!!

Após a leitura veio a pergunta aliada a indignação: onde estão as bibliotecas escolares e todo o conjunto de atividades e serviços que podem oferecer para que esse quadro apresentado não fosse tão ruim assim????? 

Não entrarei em nenhum mérito. Deixo para leitura, análise e reflexão, pois exige, e muito, de todos os envolvidos e preocupados com a educação. O texto integral pode ser visto na Folha de SPaulo do dia 21/07/17, na página B-1 do Caderno Cotidiano. 

Contudo, se por um lado temos um cenário difícil em relação as bibliotecas, por outro ainda podemos encontrar pessoas preocupadas, interessadas e com muita boa vontade em fazer algo em prol de um país melhor, mesmo que seja um grão de areia da praia...

Gostaria de destacar iniciativas, nem tanto inusitadas, já conhecidas, porém fantásticas e que geram excelentes resultados. São atitudes que demandam muita vontade, determinação, desprendimento, atitude, pouco espaço e um pouco de tempo para a dedicação ao projeto de criação de bibliotecas e disseminação da leitura.

O primeiro trabalho é de um historiador, de 62 anos, que atravessa Mato Grosso, de Kombi, para distribuir livros. Li na Folha de SPaulo, no dia 06/06/17, na pág. B-4 do Caderno Cotidiano.

E o outro, curiosamente e coincidentemente, também em Mato Grosso, mais precisamente no distrito rural de Bonsucesso, município de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá.

Após necessitar de uma pesquisa para um trabalho, da escola pública onde estudava, e não conseguir encontrar nada pois não havia computador, nem livros e nem biblioteca no distrito em que mora, um rapaz de apenas 14 anos, resolveu criar uma biblioteca, no quintal de sua modesta casa, com doações que chegaram a seis mil livros. Texto na íntegra na Folha de SPaulo, do dia 03/08/17, na pág. B-5 do Caderno Cotidiano.

São apenas dois pequenos e pontuais exemplos de outros milhares (quero crer) que existam pelo Brasil afora, pois somente essas atitudes de iniciativa particular é que poderão render frutos e colaborar muito para o despertar do prazer pela leitura e, acima de tudo, pelos conhecimentos conquistados a partir daí. 

Em uma das reportagens o “doador de livros” quando entregava presentes de Natal, se deparou com uma senhora que disse “o que sei hoje é graças aos livros, que agora tenho oportunidade de ler, porque alguém viu a gente de outra forma e trouxe conhecimento.”

Assim desejo, que ao abaixar da poeira das próximas eleições, nossos futuros governantes possam enxergam, além do próprio nariz e ver o país de outra forma, fazendo valer a lei que universaliza as bibliotecas, de fato e de direito, de modo a garantir a todos o acesso a leitura e ao conhecimento.Bibliotea


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?