INFORMAÇÃO E SAÚDE


O PRONTUÁRIO ELETRÔNICO DO PACIENTE: AVANÇOS E RETROCESSOS

Introdução

O prontuário do paciente é um documento essencial para a assistência ao paciente, pois reúne informações registradas pela equipe multiprofissional de saúde sobre os aspectos físicos, mentais e sociais de cada paciente. Esses registros permitem que os profissionais de saúde conheçam a especificidade humana do paciente, pois diferentes pessoas podem tem respostas distintas em relação a procedimentos, medicamentos e terapias. Em outras palavras, quanto mais a equipe de saúde conhecer o paciente, melhor poderá tomar decisões que preservem ou melhorem sua saúde. Uma questão importante, então, é como acessar o prontuário do paciente quando este é atendido em diferentes cidades, por diferentes profissionais de saúde de diferentes especialidades? Aqui as tecnologias de informação e comunicação vêm oferecer ao prontuário do paciente novas configurações a fim de que a informação registrada seja mais facilmente armazenada e transmitida em segurança, acessível a qualquer usuário autorizado em diferentes localidades. É nesse contexto que surgiu o prontuário eletrônico do paciente (PEP), uma potencial solução para facilitar o acesso às informações registradas, mas segundo princípios de segurança e ética.

Este texto tem por objetivo discutir algumas problemáticas que dificultam a evolução do PEP, abarcando alguns avanços e retrocessos.

Por que o PEP ainda não é uma realidade no Brasil?

Não se pode falar que o PEP não é uma realidade no Brasil e também não se pode afirmar que diferentes países estão em situações melhores que o nosso país. Analisando a situação do PEP em diferentes países da América, Europa e Oceania se observa que as barreiras enfrentadas pelos diferentes países são muito semelhantes e o que tem pesado mais é a falta de continuidade dos diferentes governos, nos diferentes países, para seguirem estratégias nacionais e continuadas de informatização do setor saúde. As tecnologias têm avançado muito, a sociedade tem avançado muito, mas a esfera política ainda tem a mentalidade de descontinuar tudo que estava sendo realizado no governo anterior. Foi assim no Reino Unido, sobretudo na Inglaterra, foi assim na Austrália, está sendo assim nos Estados Unidos e tem sido assim no Brasil há algumas décadas. Toda essa precariedade da dimensão política tem feito os países gastarem zilhões de dólares com investimentos em tecnologias, sem, no entanto, avançarem muito. Dessa forma, a sociedade, as empresas e o setor de saúde precisam, na verdade, ser menos vulneráveis às decisões políticas. Precisam ganhar anticorpos e seguirem em frente de forma mais independente. Idealmente, os projetos políticos dos diferentes governos deveriam contemplar o bem social, mas na prática não é bem isso que ocorre. Quando um determinado grupo político assume o poder leva consigo também o interesse de apenas algumas empresas que querem uma fatia expressiva de mercado e dos recursos financeiros associados a ele. Essa realidade não é exclusiva do Brasil, de A a Z os países e suas populações têm sofrido com a descontinuidade de implantação de novas tecnologias no setor da saúde.

Como as universidades poderiam ajudar a reverter este quadro?

As universidades são instituições tradicionais e conservadoras, em sua maioria. E o desenvolvimento de tecnologias avança em ciclos velozes. Assim, há um grande descompasso entre o mundo da tecnologia e o mundo das universidades. Um ponto que ainda não foi atacado efetivamente, nas universidades, é o ensino de tecnologias em saúde para médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde. Muitos falarão: o curso de graduação x possui a disciplina informática em saúde, o curso de graduação Y possui uma disciplina chamada tecnologias de informação em saúde... Criar disciplinas é um passo importante, mas não suficiente. Quais professores têm ministrado essas disciplinas? Que formação possuem? Como os alunos são ensinados? Observa-se que muitos docentes que ministram disciplinas relacionadas às tecnologias de informação em comunicação (TICS) não conhecem o assunto de forma aprofundada. Muitos conhecem as TICS, mas entendem pouco de saúde. Outros conhecem bem o campo da saúde, mas conhecem muito pouco de TICS. Essa situação reflete nossa formação acadêmica muito disciplinar ainda. Observa-se também que muitas vezes em tais disciplinas, dezenas de alunos são confinados em aulas teóricas sem nenhuma conexão com a prática. Muitas vezes as aulas não possuem um laboratório de informática para a realização de exercícios no PEP. Então, a conclusão é que tudo que nossos alunos precisariam aprender em termos de tecnologia em saúde, efetivamente, não têm aprendido nas universidades. Muitos profissionais formados no campo da saúde ainda acreditam que base de dados é uma planilha do Excel. Contudo, a defasagem no ensino de tecnologias em saúde na graduação é internacional, não é apenas uma situação isolada do Brasil ou dos países em desenvolvimento. Como encaminhamento para o problema, as empresas de informática poderiam criar laboratórios de informática dentro das Universidades para que os alunos pudessem conhecer melhor os produtos existentes no mercado e inclusive participar da criação de novos produtos mais adequados para a assistência. Essa parceria seria fundamental para atualizar professores e alunos, bem como para aproximar os discursos da universidade com os discursos das empresas de tecnologia. Obviamente que há muita resistência nas universidades sobre qualquer mudança nos processos de trabalho. Estamos falando de um ambiente com cultura hierárquica e autoritária, no qual os líderes também estão interessados em continuar no poder e não querem ser desbancados por ideias que afetem a estrutura vigente.

Por que o corpo clínico ainda tem dificuldades em aderir ao PEP?

Muitas vezes as empresas de tecnologia e os próprios gestores de saúde são ingênuos em considerar que a implantação do PEP realizar-se-á facilmente. Assim como as universidades, as instituições de saúde, e as demais instituições humanas, possuem processos que já foram consolidados historicamente e mudá-los requer toda uma revisão de como a instituição tem trabalhado ao longo de sua história. Na Áustria, por exemplo, os médicos fizeram muita resistência para a introdução do PEP porque isso afetaria a forma de pagamento de honorários. Em outro estudo, observou-se que enfermeiros não se sentiam confortáveis em mudar seu processo de trabalho porque consideravam seu salário muito baixo. Em um estudo canadense, foi observado que os médicos tinham dificuldade para usar o PEP pois ao olhar para a tela do computador perdiam contato visual com o paciente. Então, basicamente, na implantação do PEP é preciso se pensar no processo de trabalho institucional, ou seja, o PEP tem que trazer alguma vantagem real para o profissional de saúde. Se o PEP implicar em mais trabalho, mais horas de estudo, ou em ter que se mudar drasticamente algo que já se faz por décadas, sem nenhum tipo de impacto positivo, o profissional de saúde tende a ficar acomodado e apresentar resistência. Então, a implantação do PEP tem que evidenciar um ganha-ganha para todos: a instituição de saúde precisa ganhar algo; os pacientes precisam ganhar algo; as empresas de tecnologia precisam ganhar algo; e os profissionais de saúde também precisam ganhar algo. Geralmente, o foco é mais no ganho institucional e no ganho do paciente, mas poucas empresas de tecnologia apresentam ou explicitam os ganhos efetivos para o profissional de saúde. Lembrando que esse ganho pode ser de diferentes naturezas, incluindo recursos financeiros, diminuição do tempo gasto em processos, facilidade para realização dos processos etc. Para concluir esse ponto é preciso ressaltar que o corpo clínico é formado por seres humanos. Mudar o comportamento humano é um dos desafios da ciência e educação contemporâneos. Na maioria das situações, a tecnologia ainda não tem o “poder” de alterar hábitos adquiridos ao longo de décadas.

O PEP é uma tecnologia segura?

Esse é um ponto muito delicado. Embora existam muitas regras e metodologias para a segurança da informação em saúde que são seguidas por muitas empresas de tecnologia, muitas empresas mal-intencionadas tem se especializado na invasão dos sistemas de informação em saúde para o roubo de informação. Hipoteticamente, uma empresa farmacêutica poderia ter interesse em saber quais são os pacientes que possuem dermatite atópica para encaminhar a eles propagandas de produtos dermatológicos. Ou, por exemplo, uma empresa de seguros de vida poderia ter interesse em saber se a pessoa morreu por causa natural, tirou a sua própria vida ou teve a sua vida tirada por terceiros motivados pela dimensão econômica do seguro. Considerando todos esses interesses econômicos pelas informações de pacientes, não se pode afirmar que as tecnologias de segurança da informação empregadas no PEP sejam infalíveis. No ano passado, por exemplo, hospitais do Brasil e do mundo tiveram dados sequestrados por alguns dias até que um resgate fosse pago para a liberação dos sistemas. Posto isso, é importante destacar que no campo da saúde pondera-se sempre sobre a dimensão ética de beneficência e maleficência. Muitos países têm considerado que o PEP traz benefícios para a assistência em saúde que superam os malefícios, como, por exemplo, um eventual risco de o paciente ter seu dado acessado por pessoa não autorizada. Há muita discussão, mas os benefícios têm sido mais considerados. Saber rapidamente que o paciente possui uma alergia a um medicamento pode ser uma questão de vida ou morte. Assim, o PEP pode facilitar decisões melhores pela equipe de saúde, embora riscos de segurança informacional estejam sempre presentes.

Conclusão

O público brasileiro costuma dizer que o Brasil está bem atrás de outros países e que em nosso país há problemas que não existem em outros lugares. No entanto, no que se refere ao PEP estamos todos no mesmo barco. Essa tecnologia encontra-se fortemente à mercê das decisões políticas dos diferentes governos.

Como citar este texto

GALVAO, M.C.B. O prontuário eletrônico do paciente: avanços e retrocessos. 12 de abril de 2018. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2018. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1124


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.