LITERATURA INFANTOJUVENIL


A MORTE NA PERSPECTIVA DE CONTOS DE ANDERSEN

Vanezilda Pereira Alves

Desde os primórdios da civilização humana a morte representa um evento que fascina e aterroriza, servindo historicamente de fonte de inspiração para diferentes áreas do conhecimento. A morte faz parte do processo de desenvolvimento humano e está presente em nosso cotidiano. 

A literatura infantil é um elemento imprescindível para o desenvolvimento global dos nossos alunos, mesmo para crianças ainda não alfabetizadas, pois é uma forma de levar a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa.

Em família, dada às dificuldades de comunicar para as crianças perdas significativas como de um parente, um amigo, um animal não é uma tarefa fácil. No mesmo sentido os profissionais da educação, por razões diversas, resistem em utilizar obras de literatura que abordam à morte. No entanto, isso é preocupante, pois o aval da escola é imprescindível para que o aluno vivencie sentimentos muitas vezes não expostos no ambiente familiar.

A palavra morte tem origem no grego thanatos. No Dicionário OnLine de Português há os seguintes significados: “Óbito ou falecimento; cessação completa da vida, da existência” (DICIO, 2017).

O conceito de morte sofre algumas variáveis permeadas por questões de foro íntimo. No entanto, grosso modo a morte pode ser definida como o fim das atividades vitais de um ser vivo. De um ponto de vista médico científico e legal a definição vigente refere-se ao fim de toda a atividade cerebral, sem possibilidade de reversibilidade. 

A cultura dos povos orientais em muito se distancia da cultura de povos ocidentais, portanto, as questões relativas à morte são entendidas de formas diferenciadas. Citando Figueiredo e Figueiredo (2009), Lima (2013, p.25) destaca que os povos orientais retratam a morte como um evento de transformação, onde o sujeito passa por um crescimento e amadurecimento interior buscando a sua espiritualidade. Sob a perspectiva ocidental Kübler-Ross (1996) afirma: “a morte é interpretada, frequentemente, como um insulto, uma intrusa, como desnecessária e sobreposta à vida” (LIMA, 2013, p.25).

As diferentes considerações sobre a morte desafiaram e desafiam as mais distintas culturas que buscaram e buscam respostas nos mitos, na filosofia, na arte e nas religiões, estabelecendo, deste modo, pontes que tornassem compreensível o desconhecido a fim de remediar a angústia gerada (CAPUTO; FORNAZARI, 2007). 

É perceptível, pelo menos em terras brasileiras, certa dificuldade em abordar o tema morte, para ela, por exemplo, usam-se, entre outras, as palavras: “a maldita”, “a indesejada”, “a coisa”. Talvez para aliviar as angústias, os adultos em suas conversas cotidianamente utilizam expressões metafóricas ao se referir à morte: “fulano bateu as botas”, ou “foi para terra dos pés juntos” ou ainda “esticou as canelas”.

Cientificamente ao se referir à morte enfatiza-se o papel do cérebro como o principal responsável pelas funções do corpo. Mas “[...] o evento da morte por si só fomenta emoções nos indivíduos por representar finitude, acabamento da vida, terminal (idade, encerramento do ciclo).” (LIMA; NIETSCHE; TEIXEIRA, 2012, p.186).

Aprendemos ainda em nossos primeiros anos de escola que todo ser vivo cumpre obrigatoriamente um ciclo vital que consiste em nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Assim, pode-se dizer que a morte é um fenômeno que faz parte do processo de viver. (MARANHÃO, 1985). 

De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (2018), a morte é declarada, legalmente, quando há completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro como resultado de severa agressão ou ferimento grave, bloqueando a passagem sanguínea e acarretando em sua destruição, a esse processo denomina-se morte encefálica. 

Em vista dos argumentos levantados, o significado do fenômeno morte não se esgota apenas em explicações de cunho natural ou biológico, devemos também considerar aspectos emocionais, sociais e até mesmo de natureza religiosa.

Buscando a literatura infantil que foca o tema morte, nos apoiamos no livro Contos de Hans Christian Andersen (2011) e optamos especificamente pelos contos: Pequeno Claus e Grande Claus, O firme Soldadinho de Chumbo, A menininha dos fósforos e A sereiazinha. Após a leitura dos mesmos concluímos que há dois enfoques marcantes na obra dele: a) a morte apresentada como um meio para alcançar determinado objetivo e, b) a morte exaltando a inocência do personagem. Além disso, é perceptível que o autor trabalha com uma ideia de protagonista/herói diferente do esperado, rompendo com o que era comum na literatura de sua época, pois seus personagens nem sempre se mostram politicamente correto, justos, honestos, puros ou inocentes.

Título

Comentários da pesquisadora

Pequeno Claus e Grande Claus (1) (1835)

 

Pequeno Claus tinha apenas um cavalo e lavrava a terras do Grande Claus durante toda a semana, em troca, este cedia seus quatro cavalos para que o Pequeno Claus lavrasse suas terras no domingo, em um desentendimento, Grande Claus mata o único cavalo do Pequeno Claus.

Muitas vezes o herói é o responsável pelas mortes, como por exemplo, em Grande Claus e Pequeno Claus que depois de presenciar mortes como a de seus cavalos e avó, por meio de esperteza cria meios para que aconteça a morte do inimigo, não com objetivo de apenas beneficiar-se com dinheiro, mas pela satisfação e vingança por Grande Claus ter matado o único cavalo que Pequeno Claus possuía.

Observamos também que Andersen apresenta uma ideia diferente para época de protagonista/herói.

Esse aspecto é destacado por Claude Bremond (2008), onde a referência a herói trata do protagonista usando de astúcia e esperteza diante de acontecimentos, pois convence seu rival a entrar num saco e ser lançado de uma ponte diante da promessa de conseguir riquezas. (ANDERSEN, 2011, p. 37)

O firme Soldadinho de Chumbo (1838)

Um soldadinho de chumbo, com apenas uma perna, apaixona-se por uma bailarina também de brinquedo, acreditando que ela tinha também apenas uma perna. As desventuras vividas por ele e um triste final garantem emoção desse conto.

O Soldadinho de Chumbo é lançado ao fogo, juntamente com bailarina, objeto de sua paixão. Entretanto, no desenlace, o chumbo derretido é transformado em um coração, permitindo ao leitor deduzir que o amor não morreu.

 

A menininha dos fósforos (1845-1848)

Em noite de ano novo, uma menina muito pobre tenta em vão vender fósforos, no entanto ela os usa para tentar aquecer-se, a cada chama pode visualizar momentos de festejos e até mesmo de reencontro com sua avó já morta.

Com frio e fome, uma menina morre, em meio a indiferença das pessoas que festejavam a chegada de um novo ano. Nesse conto a morte é vista como um alento.

 

 

A sereiazinha

Sereiazinha vive feliz em um mundo no fundo do mar, mas foi seduzida pelo mundo dos homens. Ao contrário do esperado, ela mesma morre de amor para dar vida a seu amado.

Representa o bom e o puro. Disposta a se doar e, por se manter fiel a sua pureza, optando pela morte, perdendo para sempre o amor de sua vida.

Fonte: Andersen (2011, p.101). 

Com estes exemplos, podemos ter uma impressão de que o bom é derrotado pela morte, e esta se sobrepõe a toda e qualquer força. Apesar disso, para Andersen, não se trata de uma derrota verídica, embora o mal ou intempéries da vida pareçam sobrepor-se ao bem, o protagonista não perde suas características de pureza, “então seu espírito não é vencido”. Queremos dizer que nos contos, a morte não é o fim... mesmo que haja a morte, a ideia do vencer as adversidades fica nas entrelinhas... A vitória, de fato, para o autor, é ser digno dela, não necessariamente alcançá-la. 

Andersen propõe em muitos de seus contos a morte como consequência natural de estar vivo, mas também, para alguns personagens, como uma redenção. Em outros momentos o autor apresenta a morte não como o fim de todas as coisas ou o fracasso, pois entende que a essência do ser é o elemento mais valoroso, e não ser derrotada nem destruída, nem mesmo pela morte. 

Em outras reflexões, relativas aos episódios de morte, o autor sugere algumas considerações sobre a vida real, os valores cultivados individualmente ou no coletivo. Diante do exposto, ao ler os contos de Andersen, temos a possibilidade de ampliar entendimentos sobre o tema morte e ainda interagir com outros textos e outras linguagens que abordem esse tema.

Sugestões de leitura: 

ANDERSEN, H.C. Contos de Hans Christian Andersen. São Paulo: Paulinas, 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TRANSPLANTES DE ÓRGÃOS. Entendendo a morte encefálica. Disponível em: <http://www.abto.org.br/abtov03/default.aspx?mn=472&c=915&s=0&friendly=entendendo-a-morte-encefalica>. Acesso em: 11 jan.2018. 

CAPUTO, R. F.; FORNAZARI, S. A. Educação para a morte: desafios da família e dos profissionais da educação. In: ENCONTRO CIENTÍFICO, 1.; SIMPÓSIO DE EDUCAÇÃO DO UNISALESIANO, 1., 2007, Lins, SP. Anais... Lins (SP): UNISALESIANO, 2007. Disponível em: <http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2007/trabalho/aceitos/CC15807090870.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2018.

DICIO Dicionário Online de português. Disponível em: . Acesso em: 10 dez.2017.

LIMA, M. G. R. de. Representações sociais sobre a morte para docentes enfermeiros e suas influências no ensino. 104f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Universidade Federal Santa Maria, Santa Maria, 2013.

LIMA, M. G. R.; NIETSCHE, E. A.; TEIXEIRA, J. A. Reflexos da formação acadêmica na percepção do morrer e da morte por enfermeiros. Rev. Eletr. Enf., Goiânia, v. 14, n. 1, p. 181-188, jan./mar. 2012. Disponível em: . Acesso em: 05 nov. 2012.

MARANHÃO, J. L. de S. O que é morte. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.

 

Nota

1 - Título original "Lille Claus og store Claus”

 

Vanezilda Pereira Alves - Professora da Rede Municipal de Londrina. Este texto é um extrato do artigo apresentado no Curso de Pós-graduação em Contação de Histórias e Literatura Infantil Juvenil do Centro Universitário Filadélfia em Londrina.


   147 Leituras


author image
SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.