BIBLIOTECONOMIA HUMANA


O MITO DA NEUTRALIDADE BIBLIOTECÁRIA

Disseminar informação parece a ação primeira que vem como resposta quando bibliotecárias e bibliotecários são indagados sobre o cerne da Biblioteconomia. Para além da pertinência, a ideia representa um belo contraponto a velhos chistes sobre a função da profissão estar atrelada ao empréstimo ou à guarda de livros. O grande trunfo é determinar o objeto de trabalho da atividade profissional como algo que excede o suporte informacional, fazendo alusão ao ato de possibilitar que a informação chegue a quem dela necessite. Há algo de belo e onipotente nisto, é verdade. Não obstante as implicações, a disseminação da informação segue reconhecidamente pelos pares como o âmago da Biblioteconomia contemporânea.

Práticas como divulgar o boletim de novas aquisições, inserir novos registros via Dspace e compartilhar os próximos eventos literários da instituição no Facebook devem estar ocorrendo neste exato momento em um sem-número de bibliotecas do Brasil e do mundo. Pode-se dizer que todas essas ações fazem parte do processo maior chamado "disseminar informação". E como manda a cartilha, certamente tudo reverberando as clássicas 5 Leis de Ranganathan. Pois bem. Quando se debate o fazer bibliotecário, no entanto, em muitos discursos observa-se uma sexta velha regrinha: a neutralidade do profissional da informação.

Por décadas a fio, grandes veículos da imprensa brasileira tomaram para si a auréola da imparcialidade como se a prática do Jornalismo fosse possível de tal maneira. Os acontecimentos políticos recentes tiveram o mérito de desvelar a ideia de que jornais são imparciais. Se não o foram em 1964, o mesmo também se observou na narrativa que chegou ao ápice em 2016. Tal qual acontece com o Jornalismo, que não pode avocar para si o epíteto da neutralidade, assim também acontece com a Biblioteconomia. A disseminação da informação não implica neutralidade. E nem deveria.

Ao longo da graduação em Biblioteconomia talvez pouco tenha se legitimado a dimensão subjetiva do futuro bibliotecário, que vai muito além da linguagem natural abordada em disciplinas como "Indexação" ou "Linguagens Documentárias". É bem verdade que a maioria dos cursos de graduação na área no Brasil possuem cadeiras voltadas para o ensino da filosofia e mesmo ciências sociais, mas tais conhecimentos fariam mais sentido se abordados a partir do vislumbre da prática profissional, ou seja, o reconhecimento das dimensões política e social do profissional bibliotecário.

Nos últimos anos, sobretudo a partir de meados da primeira década do século XXI, o perfil socioeconômico dos estudantes de Biblioteconomia passou a mudar de forma perceptível graças às políticas de cotas sociais e raciais adotada pelos últimos governos progressistas. A ampliação de vagas do ensino superior público aliada à incidência de apoio financeiro a estudantes de baixa-renda e outras medidas inclusivas também contribuíram para que houvesse maior diversidade entre futuros bibliotecários e bibliotecárias. Diante de tal cenário, a discussão da subjetividade do profissional a partir, por exemplo, da luta de classes faz-se mais do que necessária, deixando evidente a fragilidade da ideia do profissional neutro, alijado do seu contexto particular.

Supõe-se que uma biblioteca qualquer é assinante dos três jornais de maior envergadura nacional: Folha de São Paulo, O Globo e O Estadão. Supondo que a biblioteca queira trazer pluralidade de ideias aos seus usuários a assinatura desses três jornais seria suficiente para tal intuito? Seriam esses jornais representativos do pensamento político de todo o espectro político? E se no tesauro dessa mesma biblioteca estiver registrada "Revolução de 1964" para se referir ao Golpe de Estado que levou à Ditadura Civil-Militar brasileira? Há neutralidade? Não há neutralidade. Em ambos os casos, a busca pelo equilíbrio é o caminho ideal, mas o próprio reconhecimento da necessidade desse equilíbrio significa assumir uma posição. Implica reconhecer que os jornais citados não são suficientes para expressar a pluralidade de pensamentos políticos e que a ideia de revolução não condiz com que parte considerável dos historiadores e demais estudiosos entendem dos anos compreendidos entre 1964 e 1985 no Brasil.

Da mesma forma, as postagens de uma biblioteca nas redes sociais, um meio de comunicação mais livre das amarras institucionais devido à própria informalidade atrelada, são bons exemplos dos valores de quem as elabora. Uma postagem festiva sobre o Dia 13 de Maio, data bastante criticada pelo movimento negro, revela o desconhecimento de certo viés da Abolição, a ignorância de um tema delicado que pode trazer críticas balizadas de seguidores.

Recentemente, uma dessas agremiações de profissionais bibliotecários fez uma postagem crítica em relação justamente ao Golpe de 64, por ocasião do aniversário da fatídica data. Apesar dos inúmeros apoios, um dos associados inflamou-se e disse que a agremiação não tinha o direito de falar politicamente no lugar dele. A atitude revela profundo desconhecimento a respeito de representatividade e do papel político legítimo das associações profissionais e só encontra eco a partir da percepção do bibliotecário como figura anódina.

Não existe neutralidade na prática bibliotecária. Da seleção de materiais bibliográficos às postagens no Instagram da biblioteca, tudo é tocado pela subjetividade de bibliotecários e bibliotecárias. E até aí não há demérito, embora a busca pelo equilíbrio deva agir como uma espécie de bússola. Além de tudo posto, seria, no mínimo, voluntarismo defender a ideia de neutralidade bibliotecária em um país marcado por concepções antagônicas acerca do arcabouço político-social, sendo a Biblioteconomia uma área tradicionalmente conservadora. O que há de se celebrar é a diversidade recente de profissionais bibliotecários e que isso se reflita em disciplinas do tronco principal da graduação mais concatenadas à realidade político-social brasileira. Uma espécie de retorno à série Primeiros Passos. Só que no âmago da Biblioteconomia.


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RAPHAEL CAVALCANTE

Bibliotecário da Câmara dos Deputados desde 2011, com passagem anterior pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). É graduado em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (2007) e Mestre em Ciência da Informação pela mesma instituição (2012). Atua com produtos e serviços de informação e é partidário da ideia de Biblioteconomia Social. Integra o grupo gestor da Liga Bibliotecária Bolivariana.