PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


COMO ATUAR COM EDUCAÇÃO DE USUÁRIOS APLICADA EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO?

As seguidas reproduções afirmativas sobre a ideia de que o usuário/sujeito é o elemento central para formação acadêmica (ensino, pesquisa e extensão) e práticas profissionais nos campos da Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e Ciência da Informação, refletem as possibilidades de pensar uma concepção científico-profissional mais alinhada com o modus operandi social. 

Por um lado, a ideia do usuário/sujeito como fenômeno de formação acadêmica busca conceber um redimensionamento estratégico dos papeis dos ambientes de informação (bibliotecas, arquivos, museus, centros de cultura e documentação etc.). Por outro lado, a assimilação das questões, teorias, conceitos imanentes ao usuário que são desenvolvidas na formação acadêmica não é assimilada de maneira tão célere e sólida nas práticas profissionais em virtude de aspectos como resistência do mercado em aceitar uma atuação mais plena em ambientes de informação, parcos investimentos em recursos de pessoal e infraestrutura para ambientes de informação e, principalmente, o ponto de vista mais tacanho do mercado sobre os múltiplos significados dos ambientes de informação, focalizando centralmente a noção de acervo (ambiente de informação como coleção) em detrimento de uma visão mais adensada de cunho cultural, educacional e informacional (ambiente de informação como equipamento pautado nas relações entre sujeitos).

Uma das possibilidades de sustentar de modo mais sólido práticas em ambientes de informação centradas nos usuários/sujeitos é a educação de usuários. É pertinente elucidar de início que há algumas diferenças entre educação de usuários e estudo de usuários. A principal diferença é que a educação de usuários é visualizada como atividade de recursos/serviços/produtos de informação, enquanto estudo de usuários é uma atividade sistemática de pesquisa para auxiliar na promoção de recursos/serviços/produtos de informação. Logo, educação de usuários e estudo de usuários, embora diferentes, são complementares no sentido da formação acadêmica e atuação profissional. Por isso, é pertinente que os cursos de graduação promovam de modo mais intensivo disciplinas obrigatórias ou optativas, além de cursos de extensão sobre educação de usuários.

A educação de usuários pode ser definida em meio a três grandes concepções, a saber:

a) conjunto de atividades promovidas pelos ambientes de informação como cursos, treinamentos, oficinas, eventos e formações em geral sobre questões relacionadas a gestão, processos, fluxos, serviços/produtos desses ambientes, assim como de temas diversos da realidade desenvolvidos junto à comunidade de usuários;

b) conjunto de processos pelos quais os usuários utilizam e se apropriam das interações com os ambientes de informação, visando a constituição de competências e habilidades que promovam aprendizagem sobre as questões relacionadas aos ambientes de informação e temas diversos da realidade;

c) a finalidade de interferência que os ambientes de informação engendram na comunidade de usuários, fomentando novas formas de aprendizagem, construção de conhecimentos, geração de processos comunicacionais, aprimoramento da inteligência, satisfação de desejos/necessidades/demandas, tomadas de decisão, resolução de problemas de informação sobre temas diversos da realidade.

Desse modo, a educação de usuários possui dimensões plurais de atuação, visto que envolvem os aspectos mais íntimos do cotidiano dos sujeitos, bem como se estabelece como forma de aproximação entre os ambientes de informação e a realidade social dos usuários/sujeitos da informação. A educação de usuários não deve ser apenas uma intervenção dos ambientes de informação na vida dos sujeitos/usuários, mas uma construção interacional e mútua onde ambientes de informação e sujeitos/usuários produzem mutuamente meios para produção de aprendizagem a fim de prover novos mecanismos de construção de conhecimentos/tomadas de decisão/resolução de problemas. 

É pertinente ponderar que se a educação de usuários presume uma aproximação entre os ambientes de informação e o cotidiano social dos sujeitos/usuários é fundamentalmente relevante primar pela produção de categorias temáticas que representem concretamente essa contiguidade.

O quadro que segue indica os múltiplos aspectos em que os ambientes de informação devem atuar com educação de usuários:

Quadro 1 – Atuação dos ambientes de informação via educação de usuários

AÇÕES

TEMÁTICAS

 

 

 

Cursos

Oficinas

Treinamentos

Eventos

(seminários, encontros, congressos, simpósios, colóquios etc.)

Prestação de serviços

Fóruns/Grupos de discussão

 

Uso dos ambientes de informação – incentivo ao acesso/uso de acervos/fontes, serviços, produtos, recursos virtuais e das condições gerais oferecidas pelos ambientes de informação. 

Educação – incentivo as práticas de leitura, pesquisa, ensino e aprendizagem de questões ligadas as disciplinas da educação formal de cunho básico, superior, técnico e profissionalizante, assim como incentivo à educação de temas variados do cotidiano do mundo.

Saúde – formação sobre aspectos variados, tais como saúde pública, saúde coletiva, saúde preventiva, exercícios físicos, higiene, prevenção de doenças em geral (aproveitar as campanhas mensais que tratam do incentivo à prevenção de doenças como o setembro amarelo, outubro rosa, novembro azul e dezembro vermelho), além de formação (e informação sobre) o acesso/uso de hospitais públicos, particulares, postos de saúde, ambulâncias, farmácia popular, farmácias particulares, laboratórios, SUS, clínicas, unidades sanitárias, academias populares, academias particulares, etc.

Cultura – formação de estímulo a atividades artísticas como música, dança, teatro, desenho, pintura etc., além de fomento a questões de patrimônio, memória, diversidade cultural. Valorização das políticas culturais, elaboração de projetos culturais e ações culturais. 

Lazer/Entretenimento – formação (e informação) sobre eventos em geral como agenda cultural, cinemas, teatros, museus, bibliotecas, centros e espaços culturais em geral, exposições, galerias de arte, programações esportivas, programações em família, shows de artistas etc.

Trabalho e emprego – formação (e informação) sobre atuação profissional em variadas áreas, agências de emprego e estágios, oportunidades de empregos, qualificação profissional, elaboração de currículos etc.

Utilidade pública – formação (e informação) sobre assistência social ao menor, à mulher, ao idoso etc., associações, assistência legal, juizados, tribunais, prisões, serviço de assistência gratuita, projetos públicos, serviços públicos de pagamento como gás, luz, água, telefone, etc. (envolve também o uso consciente e equilibrado de recursos naturais, energéticos, hídricos), como tirar documentos de identidade, CPF, título de eleitor e outros, segurança, telefones úteis como bombeiros, emergências, polícia, imprensa local.

Formação (e informação) sobre outros temas do cotidiano social como meio ambiente, ciência e tecnologia, desenvolvimento industrial, agrário, noções básicas de Direito etc.

 

A educação de usuários pode ser assim visualizada como força motriz dos ambientes de informação no sentido de promover um olhar mais estratégico, humano e aproximativo do cotidiano dos sujeitos/usuários da informação. Os ambientes de informação devem pensar duas perspectivas macro a partir da proposição de ações concretas de formação (e informação): a primeira é o uso do ambiente de informação em si pela comunidade de usuários de tudo que for possível em termos de fontes, recursos, serviços, produtos e infraestrutura em geral; a segunda é a interferência dos ambientes de informação na comunidade de usuários por meio do oferecimento de ações de educação, saúde, cultura, lazer, trabalho/emprego, utilidade pública e outros temas diversos do cotidiano social dos sujeitos/usuários.

Portanto, a educação de usuários é um mote de atuação que traz à baila uma interferência mais ampla e adensada dos ambientes de informação em construção conjunta com a comunidade de usuários, visto que parte considerável das formações a serem oferecidas podem ser ministradas pelos próprios sujeitos/usuários que frequentam o ambiente de informação. Por isso, a educação de usuários é um modo de construção mútua entre ambiente de informação e sujeitos/usuários ou, em outras palavras, é uma construção COM a comunidade de usuários e não apenas PARA a comunidade de usuários.


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JONATHAS LUIZ CARVALHO SILVA

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA).