LITERATURA INFANTOJUVENIL


A MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E O PAVÃO

Em 2012 (se não me falha a memória) eu, Clarissa Benassi Gonçalves, Elizandra Martins, Emanuele de Oliveira, Juliana Maria Marques e Wilson de Souza (ordem alfabética) fazíamos parte do grupo de pesquisa coordenado por Oswaldo Francisco de Almeida Júnior na Universidade Estadual de Londrina. Certo dia, lemos o livro A Casa da Madrinha de Lygia Bojunga Nunes e nos identificamos tanto com a obra que 

[...] resolvemos construir um texto em que divertisse a quem escrevesse e quem lesse. Fizemos isso por e-mail, tijolo a tijolo, durante o período de férias da Universidade, ao longo de um mês.

O livro A Casa da Madrinha narra a história de Alexandre, um menino que tem, como escape para fugir da pobreza cotidiana em que vive, o imaginário incentivado pelo seu irmão mais velho. 

Entre as criações de seu irmão, está a casa da sua madrinha, também imaginária, que podia lhe oferecer todas as necessidades de seu mundo infantil, ou seja, doces, brinquedos, roupas bonitas...

Um dia seu irmão se apaixona, se casa e vai morar em outra cidade. Dessa forma, perdendo a companhia de um grande amigo, decide viajar em busca da casa da madrinha. 

Durante a viagem, casualmente, conhece um pavão que se torna o seu companheiro de trabalho e de aventura. Porém, este pavão tem um problema que o menino vai descobrindo durante a convivência diária.

No passado, o pavão era um animal inteligente, mas por interesse de lucro de seus cinco donos, acaba passando por várias experiências na Escola OSARTA, nome que ao ser lido de trás para frente quer dizer – ATRASO.

A primeira delas é o “Curso de Papo”, que no princípio o pavão gostou, mas no decorrer do tempo, ele percebeu que era tudo ao contrário. Eles queriam achar um jeito de “podá-lo”, fazendo com que ele ficasse quieto, pois era muito inteligente para ficar com o bico aberto. Fizeram várias torturas, aplicando-lhe castigos por qualquer motivo. Buscaram uma maneira para atrasar seu pensamento, para que ele fosse dependente, ficando sempre ao lado dos seus donos. Por exemplo, a nota da Escola era de acordo com o tamanho do medo que o pavão sentisse. Quanto mais medo ele tivesse, mais alta a nota era. O pavão, com sua inteligência tapou os ouvidos com cera e não escutou nada. Assim, ele parou na nota sete, pois seu medo não aumentava.

Quando perceberam que esse curso não mudava o comportamento do pavão, resolveram trocar de curso, levando-o para o “Curso Linha”. Ali costuravam o pensamento do aluno, fazendo com que ele pensasse somente o que os donos queriam. O pavão, durante a operação, enquanto eles costuravam de um lado, ele fazia “exercício de pensamento” do outro, e assim por diante. Tanto fez, que desistiram da operação.

Daí para frente o pavão ficou com o pensamento meio emaranhado e pior que isso: sua luta não acabou... Seus donos resolveram que era tempo de levá-lo para o “Curso Filtro”.

O espaço em que se realizava o “Curso Filtro”, no início, agradou o pavão que se encantava com as cores da sala, com o cheiro e com as várias tonalidades, modelos e tamanhos dos filtros. Mas essa foi a pior experiência que o pavão passou, pois abriram a cabeça dele e “enfiaram” um filtro por onde passavam os seus pensamentos, essa era a nova forma que seus donos encontraram para controlá-lo. 

Depois da operação, seu pensamento “pingava” e ele só fazia o que lhe fosse mandado. Porém, o filtro tinha um defeito e de vez em quando ele abria totalmente a torneirinha e o pavão pensava livremente e não havia ninguém que conseguia manipular sua esperteza. Naquele momento, os seus olhos tinham um brilho natural daqueles que são ativos e espertos, mas isso durava pouco, e logo o pavão voltava ao seu estado apático e alienado.

Vocês devem estar pensando: afinal onde está a analogia da história do pavão com a mediação da informação? E que o bibliotecário tem com tudo isso?

Temos dois caminhos para essas perguntas. No primeiro vamos imaginar que o bibliotecário seja um dos donos do pavão e o pavão um usuário de uma unidade de informação. O bibliotecário, que não é perfeito e, por diversas razões, esquece a relevância do seu papel de mediador da informação começa a “fazer a cabeça”, “costurar” ou “filtrar” as ideias do “pavão-usuário”, e este acaba deixando de pensar conforme a sua vontade. Contribuindo dessa forma para que o usuário tenha o seu pensamento atrasado, sem ter chance de escolher, por exemplo, se lê “Sabrina”, “Bianca” ou um clássico da literatura.

O outro caminho possível de ser trilhado: é imaginar que o bibliotecário seja o pavão e o sistema de controle social seja o “dono”. Nesse contexto, o bibliotecário-pavão seria visto como um profissional passivo que se submete ao sistema educacional e informacional vigente.

Assim, o bibliotecário comparado ao personagem da história, acaba se tornando um pavão com um filtro na cabeça e tendo suas ideias controladas, mesmo que inconscientemente. Cabendo a ele decidir se quer ter seus pensamentos “pingados”, ou se tornar um pavão com um defeito constante em sua torneirinha (que nesse caso seria mais interessante), pois os pensamentos correriam abundantemente.

E agora chega de histórias, chega de penas e chega de “viagem”, antes de acabarmos temos um recado ao bibliotecário: não se “pavoneie” e não torne o seu usuário um pavão, privando-o da liberdade de construir o seu conhecimento, tijolo a tijolo.

(ATENÇÃO: a bicharada que escreveu este texto faz parte de um grupo quase em extinção, ou seja, aquele que se preocupa em democratizar a leitura). 

Passados mais de 06 anos da leitura coletiva dessa obra, meus ex-alunos hoje estão atuando em diferentes espaços de informação. O que eles pensam do Brasil hoje? Que espécie de pavão eles são?

Não sei responder, no entanto, tenho duas certezas:

Primeira certeza: a Lygia Bojunga Nunes ainda está entre os melhores escritores infantojuvenis brasileiros, quiçá do mundo. A segunda certeza é que o livro A Casa da Madrinha é uma obra rara que deve ser lida por todos, principalmente hoje (2019) quando nossos governantes se acham entendedores da educação. No entanto, o que estou vislumbrando é que, nessa toada, eles irão transformar cada escola do país em um Escola OSARTA onde serão oferecidos cursos semelhantes aos do nosso amigo pavão, isto é, papo, linha e filtro.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.