LITERATURA INFANTOJUVENIL


ORA BOLAS, ORA BULAS!!!

ORA BULAS!!!, já perdi a conta da quantidade de textos que li, em que o autor, ao defender a pluralidade da leitura, professa que:

- O leitor deve ler tudo!! Desde bula de remédio até ...

Concordo com a afirmativa, mas ler bula de remédio, penso que é mais amargo do que o próprio remédio.

Coincidência ou não, no dia em que eu estava pensando nisso, me deparei com a bula de um remédio. Preparem-se pois poderá parecer um exagero, mas a "dita cuja" media 22 x 45 cm, seu texto era composto de 3 colunas numa largura de 7 cm cada, com impressão na frente e no verso, portanto 6 colunas. Cada coluna tinha 249 linhas, que multiplicada por 6, totalizava 1486 linhas. Assombro maior, o remédio era para depressão!! Sem querer fazer chacota, com essa bula, é perigoso provocar a doença.

ORA BOLAS!!!, vamos defender a leitura sim e sempre, mas esse argumento das bulas, espero que passe bem longe das crianças, pois não me lembro de ter encontrado alguém que goste de ler bula de remédio. Por curiosidade e pesquisa, muitas pessoas fazem esse tipo de leitura, mas que sintam prazer em ler bula, não conheço ninguém!! Mas, se um dia conhecer, apesar de não conseguir compartilhar desse prazer, vou respeitar, pois essa deve ser a principal "qualidade" de um mediador de leitura.

ORA BULAS!!! Estou sendo contraditória?? Não, pois concordo com Daniel Pennac*, quando estabelece os Direitos Imprescritíveis do Leitor:

1 - O direito de não ler.
2 - O direito de pular páginas.
3 - O direito de não terminar um livro.
4 - O direito de reler.
5 - O direito de ler qualquer coisa.
6 - O direito do bovarismo (doença textualmente transmissível).
7 - O direito de ler em qualquer lugar.
8 - O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9 - O direito de ler em voz alta.
10 - O direito de calar.

Estes e outros direitos devem ser defendidos pelos mediadores de leitura, sejam eles: pais, avôs, tios, amigos, professores, bibliotecários, livreiros etc., pois o DESEJO DE TER PRAZER EM LER, deve prevalecer sobre qualquer estímulo que venha exteriormente, como, por exemplo, pais que oferecem ou prometem dinheiro ou outra espécie de recompensa para que a criança leia.

Não que o estimulo exterior, como o modelo, não deva acontecer. Deve, mas não se pode esquecer que o respeito ao que o leitor deseja ler é, sem dúvida, prioritário.

Certa vez, uma mãe me falou preocupada:

- Não vou comprar mais gibis para o meu filho. Ele só quer ler isso!!

Compra sim, propus. E leia também... Divida com ele as aventuras dos personagens e ele vai dividir com você o prazer de ler um gibi.

* PENNAC, Daniel. Como um romance. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.