CAFÉ COM PÓS


UM PARECER PARA OS PARECERES

Há um vilão a solta dentro da pós: um monstrinho que concentra ego, defesa e vingança, amparado no disfarce perfeito – o parecer! E quem nunca foi vítima dele que atire a primeira pedra aos que com ele despencam no despenhadeiro da “depressão científica” – qual o peso de ter seu árduo trabalho “destruído” em poucos minutos e de forma pessoalmente tão impessoal?

Parece exagero, mas a verdade é que exagerado mesmo são os pareceres que parecem aproveitar a invisibilidade do parecerista para destilar ódio por determinada pessoa ou investigação.

É triste pensar que, ao menos normalmente, os pareceristas são experientes membros da comunidade científica, dos quais esperamos as mais enriquecedoras contribuições e críticas construtivas, mas o que vemos são posicionamentos até mesmo infantis, que deixam claro problemas pessoais ou ainda a falta de vontade (ou improvisação).

Claro que não são todos – e que delícia é receber aquele parecer “conversado”, onde parece que o pesquisador está ali do seu lado, questionando e dialogando com você, com ética, respeito e parceria – nem que seja para dizer que o trabalho realmente precisa ser grandemente revisto.

Isso se torna gritante quando no mesmo trabalho temos os dois tipos de pareceristas – aquele que realmente enriquece sua pesquisa, e aquele em que você olha para o lado para ver se tem alguma câmera porque nem parece verdade que alguém escreveu aquilo para você (momento “só pode tá filmando né?!”).

Há ainda os profissionais que não incorporam realmente o vilão, mas que esquecem o próprio formato para o qual o parecer será emitido, nos jogando na saia justa de receber um parecer que mais parece voltado a um trabalho de dissertação/tese do que a um artigo – como fazer caber toda a discussão e ampliação teórica solicitada dentro de um artigo de 15 páginas?! Esses podem até não te empurrar para uma “depressão”, mas com certeza te deixarão louco tentado transpor a linha impossível de solução do problema “ampliações solicitadas x adequação ao formato”.

O pior é que as revistas e órgãos de fomento não costumam estabelecer um filtro para esses pareceres – o que obviamente deveria ser feito.

Mas, essa realidade talvez mude, com um tema que tem tomado força – os pareceres abertos (ainda que respeitando o anonimato). Quem dará a cara a tapa para expor seu monstro interior? Essa que muitas vezes parece uma realização pessoal – o momento no qual o pesquisador deixa o seu gostar sobrepujar sua razão científica – começará a ser exposto publicamente e, mesmo que sem uma identificação clara, essa violência científica será mais facilmente contestada e denunciada.

Se isso será adotado amplamente ou não ainda não sabemos, até porque também há a problemática de ser uma exposição ainda em questionamento dos dois lados (parecerista e autor). Veremos.

Vale lembrar que muitos problemas que nascem dessa postura ao menos “estranha” dos pareceristas podem estar relacionados com a prática do “me manda que eu vejo tudo” – aquela ânsia desenfreada, principalmente vinda de novos pareceristas, de resolver tudo sozinho, principalmente no caso de acúmulo de artigos (o que acontece muito em grandes eventos, por exemplo). Será que realmente temos algum oráculo dentro de nós que qualitativamente tem essa capacidade incrível de ter a competência de avaliar qualquer assunto na área? Uau... “invejinha” se sim.

Oráculo ou não, o que acabamos vendo são pareceres claramente desconectados com o tema das investigações, o que incapacita até mesmo uma correção porque ao final o autor nem consegue entender do que o parecerista está falando (e se perguntando se será que ele mesmo entendeu).

Talvez esteja na hora (ou já passamos dela) de nossos instrumentos de divulgação científica começarem a abrir espaço para um feedback aos seus pareceristas – que interessante seria não? Poder se posicionar, independente de seu trabalho ser aceito ou não, em relação ao quanto o trabalho daquele parecerista foi claro e contribuiu com seu artigo. Aí cabe também um questionamento reverso – teríamos a maturidade e ética científicas para isso? Ou levaríamos para o lado da vingança? De qualquer lado acredito que cabe o apelo à empatia: Avalio esse artigo como gostaria que me avaliassem? Avalio esse parecerista como gostaria que me avaliassem?

O ato de avaliar é parte recorrente do trabalho científico. Vai tomando caminhos e abordagens mais amplas conforme amadurecemos cientificamente e, por isso, essa discussão é importante – mesmo que você não seja parecerista hoje, provavelmente um dia será, e espero que não repita os mesmos erros que por tanto tempo criticou quando estava do “outro lado”.

E é claro que há muitos autores que na verdade não estão se encontrando com esses monstrinhos acadêmicos a solta, mas simplesmente não conseguiram desenvolver a maturidade para receber um parecer, ou que não estão aceitando críticas duras, porém reais, relacionadas a problemas resultantes de autores que estão cegamente se deixando levar pela produção acadêmica em massa – essa que deixa a qualidade de lado e manda aquela colcha de retalhos mal feita que deixa qualquer parecerista com a sensação de ter perdido tempo, ou ainda os autores que mandam trabalhos fora do padrão exigido pela revista ou evento – de natureza diferente ou totalmente fora dos temas, ignorando as orientações básicas (embora nesse momento talvez o parecerista se irrite mais com o editor do que com o autor).

É sempre mais fácil culpar o outro do que reconhecer e assumir um problema ou erro. Mas então já começaríamos um outro texto que é melhor deixar para a próxima e, por isso, deixo aqui ao final apenas um exercício para todos (seja como parecerista ou autor): já fez seu autoparecer hoje?


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HELOÁ OLIVEIRA-DELMASSA

Doutoranda em Ciência da Informação na Unesp - Marília, Mestra em Ciência da Informação pela Unesp - Marília e Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual de Londrina.