OBRAS RARAS


A ESCOLA DE LIVROS RAROS

Fundada em 1983 por Terry Belanger e ainda hoje sob sua direção, a Rare Book School (http://www.virginia.edu/oldbooks/) é uma instituição independente, sem fins lucrativos, dedicada ao ensino da história do livro, arte da impressão e matérias correlatas. Atualmente localizada em Charlottesville, Virginia, uma pequena e aprazível cidade universitária, a escola nasceu em Nova Iorque, no berço das grandes e médias livrarias (parece que nada lá é pequeno), e vizinha de belas bibliotecas de livros raros. Até abril de 2001 era a única no mundo, ao que parece, até que foi criado o Institut d'histoire du livre em Lyon, França, nos moldes da primeira e em estreita colaboração com a escola americana (http://ihl.enssib.fr/index.htm). Sendo Lyon um centro editorial importante desde o século 15, suas coleções de livros raros, principalmente a da Biblioteca Pública e a do Museum da Impressão, facilitaram a criação do instituto naquela cidade, uma vez que essas instituições também funcionam como ponto de contato da Bibliothèque National para questões do livro. Se compararmos os objetivos das duas escolas vamos observar que a européia, naturalmente, se volta mais para as Humanidades, o que reflete a tradição secular que se conhece. A escola francesa oferece cursos em francês e inglês.

Quem visitar o site (ainda não consigo escrever sítio) da escola americana vai notar que a Rare Book School (RBS) apóia outros cursos e eventos nos Estados Unidos também. Uma delas é a University of Illinois/Urbana-Champaign, com vários cursos na sua Escola de Biblioteconomia; outra é o The Out-of-print and Antiquarian Book Market Seminar, no Colorado, onde livreiros, bibliotecáros, colecionadores, etc. discutem problemas relacionados ao mercado e compartilham conhecimento através de palestras, seminários, etc.

Por muitos anos a escola americana funcionou apenas no verão, atraindo profissionais de várias áreas, estudantes de todas as cidades do país e alguns estrangeiros. Não me lembro direito quantos cursos ela oferecia nos primeiros anos, mas com certeza não eram os 40 de agora, embora todos sempre com uma semana de duração, o dia inteiro. Os cursos são limitados a uma média de 12 alunos por sala de aula. Por ano, recebe pouco mais de 300 alunos. Mais recentemente a RBS também tem oferecido cursos no inverno (janeiro), graças à crescente demanda.

As atividades da semana não se restringem apenas às aulas, que já seriam suficientes pela quantidade de informação e leitura a serem assimiladas. Na noite anterior ao início de cada curso há um jantar para conhecer os colegas da semana, e há o que chamam de Orientação, ou seja, uma visita geral às dependências da escola (ocasião em que a pessoa vê o que não terá tempo de ver melhor; afinal de contas, a parte social não pode ser esquecida, claro, já que as pessoas são bem interessantes e a oportunidade única para alguns). Uma semana típica terá, além das aulas, palestras, visitas a livrarias locais (que são muitas para o tamanho da cidade), jantar/coquetel, uma noite para estudo na oficina tipográfica, vídeo, etc. Todos recebem o Vade Mecum com o programa da semana, nomes dos alunos de todos os cursos, informações básicas sobre a escola e a cidade, localização das salas de aula, endereços de livrarias, restaurantes, etc.

BOOK ARTS PRESS

University Professor and Honorary Curator of Special Collections, University of Virginia: este é o título correto do Professor Belanger, que em 1972 criou a Book Arts Press (BAP) na Escola de Biblioteconomia da Columbia University em Nova Iorque, então um laboratório bibliográfico para treinamento de livreiros e bibliotecários de livros raros, e mais tarde suporte para a RBS. Em Virginia desde o início dos anos 90, a BAP mantém cursos de graduação e pós-graduação relacionados à história do livro e outras matérias a ela relacionadas, apóia publicações e exposições e organiza seminários e palestras, a mais famosa em Bibliografia, que leva o nome dos patrocinadores, como de praxe (no caso, Sol. M. Malkin Lecture in Bibliography). Muito do que se vê nas áreas de Cultura e Educação nos Estados Unidos se dá a partir de doações de pessoas físicas, mais até do que de pessoas jurídicas. Não existe um ministério para essas áreas.

Em Valentine's Day, o Dia dos Namorados americano, a BAP/RBS oferece a seus membros um poster com alguma frase espirituosa. Em Nova Iorque a BAP tinha um, localizado na parte de dentro da prensa manual, com os dizeres: "Pain is a privilege of the living", ou a dor é um privilégio dos viventes/seres vivos. Uma amiga tem em casa (adivinhem onde) o seguinte: "There is only so much value in thinking about things you can't control": só há valor em se pensar aquilo que não se pode controlar. A mesma amiga teve por uns dias no seu quarto a seguinte frase (o marido tirou assim que chegou de viagem): "The fact that yours is better than anyone else's is not a guarantee that it's any good", ou o fato de o seu ser melhor do que o dos outros não quer dizer que seja bom. (torço para que o senso de humor de vocês seja igual ao dela).

A BAP e a RBS estão, portanto, hoje localizadas na universidade fundada por Thomas Jefferson em Virginia, têm aproximadamente 800 membros em sua sociedade de amigos (pelo menos dois do Brasil), 15 mil livros dos séculos 15 a 21 e cinco mil gravuras. Mais de meio milhão de dólares já foi arrecadado até o ano 2000, para não citar doações em forma de livros defeituosos, danificados (ou partes de livros) que chegam de instituições americanas e européias e servem de material de estudo nas aulas. Nada se desperdiça; muito pouco é jogado fora.

A Rare Book School é um exemplo a ser seguido.

So long!


   208 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
MISSÕES JESUÍTICAS NO PARAGUAI - I
Setembro/2003

Ítem Anterior

author image
MATERIALIDADE DE LIVROS - IV
Julho/2003



author image
VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.