BIBLIOTECAS ACADÊMICAS


VÍRUS EMA ATACA AS BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS

Em nossos estudos de disciplinas como a biologia, aprendemos que os vírus, formas no limiar entre o animado e o inanimado, são "seres" no extremo da cadeia da vida. Ora ativos, ora inativos ou cristalizados, os vírus são um desafio ao conhecimento humano. Mais recentemente, com o advento da rede mundial de computadores, a Internet, um outro vírus, este produzido pelo homem na forma de programas de computadores, tem tomado conta da pauta dos veículos de comunicação de massa pelos estragos que vem causando às empresas e pessoas físicas que, mais do que nunca, têm seus computadores ligados à rede.

O advento do vírus de computador tornou-se um dos maiores desafios para a indústria da informática. Falhas de segurança em sistemas informatizados podem causar expressivos danos financeiros e macular a imagem da empresa. O curioso, e de certa forma irônico, é o caráter anárquico da situação. Uma pessoa com certo conhecimento de informática senta-se em sua casa e projeta um vírus, usando, basicamente, sua capacidade intelectual e um computador qualquer. Insumos: horas-homem, máquina comprada em supermercado, energia elétrica, conexão com a Internet. O programa (vírus) lançado na Internet através de e-mail's, instalado através de uma invasão aos servidores ou outro método, espalha-se como praga, instalando-se nos computadores e reproduzindo-se através de mecanismos de disseminação. A arte imita a vida. Como o vírus da natureza, que ao invadir a célula apropria-se do mecanismo de sobrevivência e produção de proteínas passando a comandar o sistema celular para produzir o que lhe interessa, é um parasita, não tem autonomia, apropria-se de outro sistema de vida. Assim como o vírus da natureza, vírus de computador tem graus de periculosidade, às vezes apresenta-se, analogamente, como uma gripe, resfriado e outras como uma epidemia de Ebola, extremamente letal, perigoso.

Em agosto de 2003, o vírus sobig infectou milhares de computadores no mundo, causando prejuízos incalculáveis para as empresas. Novamente, como em outras ocasiões, os especialistas levantam a questão da vulnerabilidade dos sistemas informatizados. Por mais que os "informáticos" afirmem que seus sistemas são confiáveis, invulneráveis, inespugnáveis, a realidade é cruel. Assim como as Torres Gêmeas do World Trade Center de Nova York caíram através da ação orquestrada de alguns homens treinados e sincronizados, utilizando-se de parcos recursos e muita audácia, todo edifício da informática está, também, vulnerável, sempre à espera de um novo ataque. O exército de Osama Bin Laden, da organização Al Qaeda, é limitado se comparado ao exército de hackers pelo mundo. Assim como os pichadores de parede em cidades como São Paulo, há um grande campeonato mundial entre os hackers para disputar a invasão de computadores de empresas e governos ou para elaborar um vírus tão letal e invasivo quanto os anteriormente criados.

Um novo vírus está se propagando pelas organizações e atingindo seus membros. O EMA foi identificado como um vírus comportamental humano; atinge, principalmente, pessoas que ocupam cargos de chefia mas propaga-se, também, por escalões inferiores por contaminação direta, por tendências pré-existentes em seus membros e por baixa resistência imunológica. Na maioria das vezes o vírus causa estragos enormes às organizações e pessoas que nelas trabalham. Causando isolamento entre os membros da equipe, desagregando as ações que deveriam ocorrer em sintonia e sincronismo entre os mesmos. O processo de queda de qualidade dos serviços prestados torna-se evidente ao seu público usuário. A visibilidade do problema, a sua evidência, acelera o processo de descrédito do setor junto à organização como um todo, em seu meio e na comunidade.

A biblioteca não deixa de ser alvo deste vírus. O primeiro sintoma causado pelo vírus é a total ausência de participação da equipe da Biblioteca nas decisões administrativas e técnicas desse equipamento. A alienação da equipe frente às decisões tomadas na Biblioteca causa, também, um outro efeito colateral: a desmotivação da equipe. Desmotivada, a equipe perde mobilização, desliga-se dos objetivos e metas da Biblioteca. O vírus chamado EMA tende a obter maiores resultados em seu ataque quando infecta a chefia da Biblioteca. Peça chave em toda a Biblioteca, a chefia, responsável pela condução desse equipamento e de sua equipe é o comando de sua operação. Dominando a cabeça, obtém-se o corpo. Tomando a chefia, o vírus bloqueia o diálogo com a equipe, a comunicação torna-se unidirecional, a chefia fala, o subordinado obedece ou faz que obedece. A equipe não é ouvida, portanto, a chefia não consegue obter, porque não quer, informações confiáveis e espontâneas de seus membros. Sem comunicação, sem direção. O isolamento das partes acirra-se. Cada um faz aquilo que, a princípio, está estabelecido em seu "script", sem conexão com os demais, sem compromisso com o todo. Uma evidência do grau de comprometimento e infestação do vírus é a famosa frase:
- Não posso informar, isso não é comigo.
Ou
- Eu só faço "isto", "aquilo" é com outra pessoa.

Todos sabem que o animal ema é parente do avestruz, ave gigante que entre outras coisas esconde sua cabeça em buracos na terra. Com os infectados pelo vírus EMA acontece a mesma coisa, quando tudo está indo de mal a pior o infectado parece não perceber nada.

Essa postura me faz lembrar de uma bibliotecária que sendo chefia de uma biblioteca acadêmica com 15 subordinados, entrava na Biblioteca, ligava seu toca-cd's portátil, punha o fone de ouvido e diante do computador passava horas. Era chefia, ou melhor, tinha o cargo de chefia mas não liderava nada. Já estava em estágio avançado de contaminação, foi sacrificada.

O vírus EMA, cujo nome advém da abreviatura da frase clássica "Eu Mando Aqui", é um caso recorrente de despreparo do bibliotecário para tarefas de gestão de recursos humanos, a mais complexa e importante tarefa que executa para dar consecução aos objetivos da Biblioteca. Podemos ter espaço, acervo, equipamentos mas para termos serviços precisamos de gente, gente chefiando, gente executando, gente oferecendo retorno, propondo correções de rumos, ritmos, intensidade, exposição. Gente, gente, gente... Pessoas. O bibliotecário, em sua função mais nobre que é administrar e desenvolver a Biblioteca, acaba negando a condição fundamental para a realização desse trabalho. Em verdade não somos preparados formalmente para essa tarefa, desenvolvemos o "know how" durante nosso aprendizado profissional em embates diários com os problemas que vão aparecendo. Cada profissional com seu ritmo, predisposto ou não a aprender com as experiências da vida e com o patrimônio cultural que vai herdando de seu meio. Evidente que quem tem uma personalidade mais autoritária oferece um meio ideal para o desenvolvimento do vírus EMA. Mas nem tudo está perdido, mesmo para os casos mais graves, sempre há uma chance de recuperação. Mesmo eu, em meu início de carreira, um jovem supervisor de setor de documentação, fui literalmente tomado pelo vírus, sofrendo e fazendo minha equipe sofrer. Este triste espetáculo deve ser extirpado para o bem do contaminado, das organizações e das equipes de trabalho. Negar que haja recuperação seria negar o potencial de regeneração do ser humano, mas o processo de descontaminação é duro, dolorido, e por vezes, demasiadamente longo. O início do processo, na maioria das vezes, ocorre através de um desligamento da empresa, pois a situação tornou-se insustentável. Em alguns casos o próprio contaminado acaba solicitando seu desligamento, pois as pressões por resultados ou pela falta deles apresentam-se insuportáveis. Após esse episódio, a reflexão.

A ausência do poder que o contaminado exercia anteriormente começa a minar as resistências do vírus e os anticorpos da humildade começam a combater o bom combate da vida. A recuperação avança e com ela a clarividência de que nunca podemos prescindir da participação de todos para a realização de qualquer que seja o objetivo. Trabalhar com uma equipe e em equipe é fundamental, é o princípio básico da qualidade.

Como bibliotecários, em muitas ocasiões, temos a pressunção de saber de tudo sobre as atividades da Biblioteca. Errado, não podemos nunca passar perto dessa pretensão e nem mesmo ter medo de mostrar ignorância quanto a um assunto qualquer só porque estamos investidos de um cargo de chefia seja de que nível for. Reconhecer as próprias limitações, ter a humildade de reconhecer seus próprios erros e reconhecer nos demais membros da equipe elementos de igual importância é desenvolver uma vacina eficaz e eficiente contra o vírus EMA e garantir a realização do principal meio para executar os objetivos da Biblioteca: os recursos


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ARTUR DA SILVA MOREIRA

Bibliotecário, fundou e presidiu o Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior – GBIPES (1997 – 2004) e a Comissão Brasileira de Bibliotecas das Instituições Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica – CBBI (2011 – 2014). Formado pela FESP-SP, turma de 1987. Coordena o Grupo de Trabalho de Cadastro de Bibliotecas e Profissionais da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e atua como moderador e administrador da Lista de Discussão da CBBI, atualmente com 672 membros.