BIBLIOTECAS ACADÊMICAS


PROFISSIONAIS DE APOIO E A VISÃO 'BIBLIOTECÁRIO-CENTRADA'

Temos uma tendência a visualizar a atuação dos recursos humanos em bibliotecas centrando-os na figura do bibliotecário. Esta visualização parece natural, automática. O que "a priori" advém de uma constatação simples, pois não imaginamos uma "biblioteca" sem bibliotecários, portanto, sem serviços, pode, e na maioria das vezes acontece, ofuscar a importância da atuação dos demais profissionais da informação que atuam nas bibliotecas, em todos os tempos.

A história destes profissionais ainda não foi contada mas, com certeza, a história das bibliotecas, no passado e no presente, foi e será feita com a participação destes em todos os aspectos da atividade "biblioteconômica" mundial.

A história da biblioteconomia e das bibliotecas é tão "bibliotecário-centrada" que podemos imaginar, como analogia, a questão tão propalada da história oficial (dos dominadores) e da história dos dominados ou dos oprimidos.

Esta visão "bibliotecário-centrada" é tão dominante e disseminada que sequer ouvimos vozes, grunidos, barulhos ou ruídos que a contestem. Será? Talvez os "bibliotecários-centrados" não tenham os ouvidos devidamente treinados para captar o som dos "oprimidos".

Dizem que nós só podemos sentir o que o "outro" sente se nos colocamos em seu lugar, mesmo assim, esta é uma condição provisória e simulada, não podemos pretender a integralidade do sentimento do outro, é uma experiência interessante mas não resolve a situação, pode sim produzir alguns incômodos em quem se aventura na situação e, no máximo, ser a semente de uma mudança não do "outro" mas de quem a experimenta.

Refletindo sobre o assunto podemos pensar em uma "revolução", um levante dos "oprimidos" já que tantos são os profissionais "sem voz" nas bibliotecas.

Não consigo esquecer de uma cena passada em uma reunião de bibliotecários em que, por unanimidade dos que se manifestaram e por omissão dos que se "esconderam", um grupo de auxiliares de biblioteca foi impedido de participar da reunião a fim de manifestar-se sobre determinada questão que envolvia, também, o trabalho dos bibliotecários. Foi considerado anti-ético o envolvimento de funcionários subalternos na exposição das dificuldades da tarefa. "Bibliotecários-centrados"?

O que salta aos olhos é a existência de uma cultura de silêncio sobre a situação, temos tantos problemas a enfrentar externamente que não olhamos para nossas "entranhas" ou para dentro de "nossa casa".

Dar voz a esses profissionais é, também, dar espaço para seus talentos e condição para o seu trabalho. Evidentemente, a visão da biblioteca e de seus serviços poderá ampliar-se, adequar-se à realidade, ganhar em subsídios a um planejamento mais completo, mais detalhado além, é claro, de ganhar enormemente em termos de ambiente de trabalho.

Há muito tempo já havia a necessidade de outros talentos que não o do bibliotecário para a boa operação de uma biblioteca, atualmente esta condição é inconteste. As transformações que a tecnologia trouxe às bibliotecas, o próprio perfil mutante de seu público e a variedade crescente de seus serviços exigem outras habilidades que incorporam-se ao "roll" de recursos disponíveis. Fazer frente a estas mudanças requer dar "espaço" a estes novos profissionais da informação no ambiente da biblioteca. Não somos os únicos e corremos o risco de perdermos espaço se não reconhecermos e respeitarmos estes novos profissionais.

Os paradigamas existem para serem ultrapassados.

Estamos passando por um período delicado, segundo fontes do movimento associativo bibliotecário existem hoje menos de 1.000 profissionais associados a entidades de classe no Brasil. Somos mais de 20.000 profissionais no país. Algo de errado no reino da Dinamarca. Como podemos alcançar os objetivos de visibilidade e atuação política da classe e do meio sem atuação coletiva, associativa? Será na base do cada um por si? Improvável.

Se não conseguimos nos impor como classe como vamos atuar com os demais profissionais da biblioteca? Esta visão "bibliotecário-centrada" não responde, pelo visto, às condições necessárias ao enfrentamento dos obstáculos que temos pela frente, precisamos agregar mais, somar e ganhar forças para uma atuação mais positiva e propositiva na sociedade. Ganhar mais visibilidade, colocar em pauta as necessidades da área, sem sermos transformados em ferramentas de atuação política deste ou daquele grupo, não atuando de forma a conseguir algum benefício à classe mas atuando para oferecer à sociedade o benefício inconteste do nosso trabalho à construção de uma sociedade mais igualitária, eqüânime, democrática, cidadã. Para ganharmos esta condição, somente trabalhando com todos envolvidos na área, começando a fazer o "serviço" "em casa". Precisamos de todos, a começar pelos que compartilham e têm o privilégio de trabalhar nas bibliotecas. Vamos começar?


O Brasil pode ser um país de leitores?

Em livro lançado em 2004 pela Summus Editorial com o título "O Brasil pode ser um país de leitores?" de Felipe Lindoso, antropólogo, jornalista e militante na área editorial brasileira, traça um perfil das principais questões e políticas relacionadas à produção, distribuição e consumo de livros no Brasil e adiciona algumas informações de países estrangeiros. É uma importante leitura para os militantes da área, inclusive para os profissionais de bibliotecas. Curioso é que entre os inúmeros temas tratados pelo autor as bibliotecas também estão presentes, como não poderia deixar de ser, em um livro com esta temática. Ocorre que não há um aprofundamento no tema, talvez pela ambrangência pretendida pela obra, mas entre as citações o autor faz a seguinte afirmação quando trata das bibliotecas escolares e do Programa Nacional de Bibliotecas nas Escolas - PNBE:

"As bibliotecas são, desde muito tempo, negligenciadas pelas autoridades educacionais. Uma das razões para isso foi a resistência corporativa dos bibliotecários, os quais, por meio de suas associações, defendem fervorosamente a imposição de que cada biblioteca escolar - por ser biblioteca - deva ser dirigida e administrada por um bibiotecário formado, apoiando-se em legislação vigente que reserva esse "couto de caça"para a categoria." (páginas 153 e154)

Continua:

"Ora, com mais de 200 mil escolas públicas, não existe nem mesmo a possibilidade, em curto e médio prazos, de haver bibliotecários suficientes para tal. Em vez de apostar no crescimento do número de bibliotecas, que geraria demanda de profissionais, os bibliotecários partiram para a posição corporativista de bloquear esse desenvolvimento, exigindo a contratação prévia de profissionais." (página 154)

Para comentar os trechos acima seria necessário um outro artigo mas deve-se levar em conta que o autor partipou da última diretoria da Câmara Brasileira do Livro - CBL e ainda exerce cargos na área. As bibliotecas representariam um grande mercado para as editoras mesmo que a qualidade ou até mesmo a ausência de serviços resultasse na sua caracterização como um mero depósito de livros, mesmo que novos, atulizados, comprados em abundância pelo poder público. Exemplos não faltam e ainda estão em operação Brasil a fora. Uma visão um tanto parcial, sem comprometimento com a realidade do trabalho da biblioteca e de suas necessidades para realmente atender as necessidades da população e não de setores interessados apenas na ampliação de seu mercado. Recomendo a leitura.

Precisamos agir coletivamente, outros setores já caminharam muito por esta estrada e chegaram a locais importantes. Precisamos por o "pé na estrada".


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ARTUR DA SILVA MOREIRA

Bibliotecário, fundou e presidiu o Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior – GBIPES (1997 – 2004) e a Comissão Brasileira de Bibliotecas das Instituições Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica – CBBI (2011 – 2014). Formado pela FESP-SP, turma de 1987. Coordena o Grupo de Trabalho de Cadastro de Bibliotecas e Profissionais da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e atua como moderador e administrador da Lista de Discussão da CBBI, atualmente com 672 membros.