LITERATURA INFANTOJUVENIL


O TEXTO

No mês passado você conheceu duas garotas apaixonantes e apaixonadas por leitura. E creio que tenha percebido que ambas são passionais. (Coitadinhas! Não fale assim! Psiu!) Tá bom, eu vou sussurrar: elas são passionais, elas são passionárias! Elas são passioneiras! Falo baixo, pois ser passional, no mundo atual, para algumas pessoas é um grande defeito, quase uma doença a ser tratada.

 

(Ainda sussurrando!) Há muito tempo venho defendendo o texto literário como algo imprescindível em nossas vidas. Não desisto, acho que esta ainda é uma tarefa gigantesca.

 

Esta conversa está te parecendo estranha? Está difícil de saber o que eu quero dizer? Então vou voltar a falar alto: A CONVERSA NÃO É ESTRANHA NÃO!  É REAL! Pois ainda percebo no discurso de muitas pessoas a idéia equivocada sobre a leitura literária transformar o leitor (em qualquer idade) em uma pessoa ensimesmada, com dificuldade de relacionamento. Ainda é comum ouvir quando alguém está com um livro nas mãos: “nossa um sol tão lindo lá fora e você aqui lendo um livro?” ou “ler estraga os olhos, ler no sol então!”. Matilda a minha nova amiga (personagem do livro – Matilda - Roald Dahl mesmo autor da Fantástica Fábrica de Chocolate) escuta, com um livro nas mãos, em uma de suas brigas com o pai, ele gritar: “vai procurar coisa mais útil para fazer”.

 

Considero ser estes, e outros conceitos semelhantes, sem fundamento, pois acreditar que a leitura possa causar danos na formação da personalidade, à saúde ou qualquer outra justificativa, é ter uma “visão estrábica” da vida. Encontrar um texto é algo precioso, encontrar um bom texto então é uma dádiva (presente, oferta).

 

Obviamente que “um bom texto” para mim, pode não o ser para outra pessoa, ou vice-versa. Porém ele existe e assim que é lançado no “ar” (seja qual for o formato) cria autonomia, cria vida e se desprende do autor, passando a ser re-escrito pelo leitor no momento da leitura.

 

Um texto pode provocar no leitor “tantas emoções” (estou aproveitando essa expressão pois o Roberto Carlos está em evidência na mídia e dessa vez não é por causa de sua música, mas sim por causa de um texto. Roberto larga disso, deixe o leitor ler! Autoriza Roberto!).

 

Polêmicas à parte, é notório na fala de muitos autores que se interessam pelo ato de ler, a percepção apaixonada na relação leitor-texto.

 

Preciso contar que em geral durmo cedo, mas para conseguir matar a minha sede de leitura, ando dormindo muito tarde. E foi na noite de ontem que conheci o Daniel (11anos), personagem do livro – A sombra do vento. Outro personagem encantador. Esse menino seguindo a recomendação do pai de que quando chegasse pela primeira vez no “Cemitério dos Livros Esquecidos” (local secreto em Barcelona) precisaria adotar um dos livros que ali se encontrasse. Isso para garantir que o livro “nunca desapareça, que se mantenha vivo para sempre”. Mas Daniel no momento da escolha tem a nítida sensação de que não adotaria o livro, mas “o livro me adotaria”, e foi isso que realmente aconteceu. A Sombra do Vento o adotou, esse “livro maldito que mudará o rumo de sua vida e o arrastará para um labirinto de aventuras repleto de segredos e intrigas enterrados na alma obscura da cidade”.

 

CONFIRA! É UM TEXTO ENVOLVENTE!

 

Esse envolvimento, essa reação do leitor ao encontrar um texto foi destacado por Roland Barthes no livro O Prazer do Texto (ainda preciso me debruçar sobre esta obra): “eu sei que são apenas palavras, mas mesmo assim... (emociono-me como se essas palavras enunciassem uma realidade)”.

 

Desculpe-me, mas é impossível deixar de trazer para cá a voz de Alberto Manguel:

 

[...] - e então vagamos a esmo naquelas paisagens ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo, mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o texto e o ato de ler. Lemos para descobrir o final, pelo prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração, negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer. [...] E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um único fôlego, como se alguém ou algo tivesse “caminhando sobre nosso túmulo”, como se uma memória tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós mesmos – o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá, ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra, cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios (MANGUEL, 1997, p.340).

 

E por falar em velho, li outro dia num texto de Borralho e Viegas o pensamento de Vicente Ferreira da Silva (que deve ser velho, pois a referência era de 1964. Estou procurando o texto, pois é saudável gostar também de idéias velhas) “Vicente Ferreira da Silva tinha razão quando nos alertava para o perigo de sociedades eficazes e rentáveis feitas de gente triste e desajustada.”

 

AVE ALEGRIA! VIVA O TEXTO!

 

Sugestões de Leitura:

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1973.

 

BORRALHO, Maria Luisa Malato; VIEGAS, Ângela Maria Fonseca. Para uma escola com masmorras e dragões – as estratégias do jogo de R.P.G. na sala de aula.

 

DAHL, Roald. Matilda. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

 

ORTHOF, Sylvia. Ave alegria. São Paulo: FTD, 1989.

 

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas: Papirus,  1986.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.