LITERATURA INFANTOJUVENIL


NARIZ, O PATINHO FEIO DO SER HUMANO

Outro dia re-encontrei um texto de Monteiro Lobato que me provocou uma avalanche de ideias e recordações. O texto é um capítulo do livro – História das Invenções - onde Dona Benta diz o seguinte:

 

- Pobre nariz! Dos órgãos dos sentidos é o mais atrasado, o mais feio, o menos útil. Presta bem poucos serviços ao homem, comparando com os órgãos dos outros sentidos. E se por acaso fica inútil quando um resfriado nos “deixa sem nariz”, nem sempre nos damos conta disso. O nariz coitado, é um pobre diabo que temos na cara e cuja função é cheirar.

- E também cabide de óculos – observou a menina.

- Sim. O coitado serve de cavalo para os óculos, uma invençãozinha de benefício não para ele, mas para os olhos.

[...]

Infeliz em tudo, o nariz. Os poetas abrem-se em grandes elogios aos olhos, à boca, às mãos. Ao nariz nada. Nenhum canta o nariz. Nenhum põe o nariz em sonetos.

[...]

 

 

Fiquei pensando na Coleção Corpim do Ziraldo:

1) Pelegrino & Petrônio (pés)

2) Os dez amigos (dedos das mãos)

3) O Joelho Juvenal (joelhos)

4) Rolim (umbigo)

5) Dodó (bunda)

6) Um sorriso chamado Luiz (boca)

 

Concordei, mas depois fiquei invocada, pois o nariz é o meu órgão mais sentido, fica sentido à toa. Magoa por qualquer coisa, nas festas, por exemplo, o coitado sofre com a variedade de perfumes. Cheiro de cigarro então, me faz “ficar sem nariz”.

 

Isso porque meu faro é bom! Em geral, sinto os cheiros antes das outras pessoas. E como tudo na vida, um nariz “que se coloca onde não é chamado” traz vantagens e desvantagens.

 

Desvantagens você já sabe: cheiros de perfumes, cigarros e folhas de árvores queimadas. O lado bom é que quase não queimo o arroz na hora de cozinhar. Outro lado bom é que costumo sentir se o carro está com problema pelo cheiro. Vantagem, né? Não entendo de mecânica, mas entendo de cheiro estranho!

 

Teria um monte de exemplo para dar, mas o que quero com essa coluna é contar que andei colecionando textos que falam desse órgão tão importante: o nariz. E concluo que talvez a produção a respeito dele esteja aumentando.

 

Por exemplo, pense na música “Ratinho Tomando Banho” de Hélio Ziskind

 

Tchau preguiça
Tchau sujeira
Adeus cheirinho de suor
Oh...
Lava lava lava
Lava lava lava
Uma orelha uma orelha
Outra orelha outra orelha
Lava lava lava lava
Lava a testa, a bochecha,
Lava o queixo
Lava a coxa
E lava até...
Meu pé
Meu querido pé
Que me agüenta o dia inteiro
Oh Oh
E o meu nariz
Meu pescoço
Meu tórax
O meu bumbum
E também o fazedor de xixi
Oh...
La
la
Laia
laia
la
Laia
la la
la
Laia
la
La la la la
la
Hum... Ainda
não acabou não
Vem cá vem... vem
Uma enxugadinha aqui
Uma coçadinha ali
Faz a volta e põe a roupa de paxá
Ahh!
Banho é bom
Banho é bom
Banho é muito bom
Agora acabou!

 

Outro exemplo é a crônica do Luis Fernando Veríssimo, que ele intitulou: “O Nariz”

 

Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sombrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
- Isso o quê?
- Esse nariz.
- Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
- Logo você, papai...
Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.
- Tire esse negócio.
- Por quê?
- Brincadeira tem hora.
- Mas isto não é brincadeira.
Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou.
- Aonde é que você vai?
- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
- Mas com esse nariz?
- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz...
- Pense nos vizinhos. Pense nos cliente.
Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor...”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
- Ele enlouqueceu?
- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim. Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
- Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.
- Mas, por quê?
- Por quê não?
Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.

- Papai...
- Sim, minha filha.
- Podemos conversar?
- Claro que podemos.
- É sobre esse nariz...
- O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
- O nariz é meu e vou continuar a usar.
- Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
- Não tem porque não quer...
- Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?
- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.
- Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
- Se não faz diferença, porque não usar?
- Mas, mas...
- Minha filha...
- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!

A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
- Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho...
- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes.
- Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
- É... – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão...
O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.

 

Tem também “O nariz” de Nikolai Gogol, mas esse texto é longo e a coluna ficaria imensa. Lá embaixo inclui a referência.

 

E para fechar a minha coleção, retorno a Monteiro Lobato e ao seu livro “Fábula” onde tem o texto “A malícia da raposa”:

 

O leão convidou a bicharada inteira para uma festa em seu palácio. O primeiro a aparecer foi o urso. Vendo a caverna cheia de ossos de caça, tresandante a carniça, tapou o nariz.

O leão furioso atirou-se a ele.

- Patife! Entrar em meu palácio de mão no nariz!...

E matou-o.

Logo em seguida aparece o macaco. Sente o mau cheiro, vê o urso por terra, compreende tudo e diz:

- Que formoso palácio! Quanto asseio reina aqui! E como é perfumado o ar! Parece-me que estou num jardim maravilhoso, florido de lindas rosas!...

O leão enfureceu-se de novo.

- Estás caçoando, maroto? Estás brincando com o teu rei?Pois toma lá... e matou-o com um tabefe.

O terceiro convidado a vir foi a raposa. Como é espertíssima, ao ver o urso e o macaco mortos percebeu que na casa dos reis não é de bom aviso ser sincero demais, nem lisonjeiro fora da conta. E preparou uma escapatória.

- Então – exclamou o rei – que achas do meu palácio?

- Para falar a verdade – disse a raposa – não posso dar opinião. Venho da luz do sol  pouco estou enxergando aqui dentro...

- E o cheiro?

- Também não posso ajuizar porque estou sem nariz – endefluxadíssima... (1)

E nada aconteceu.

 

Como um texto puxa outro, essa fábula me lembrou uma história que eu gosto muito e que eu li no meu livro didático do Ginasial (os mais jovens não sabem o que é isso!). Isso se passou no começo da década de 70, quando eu cursava a 6a série. Infelizmente não sei o título do livro, não sei o título da história e nem o nome do autor, só que o texto habita em mim e eu sei resumir nitidamente:

 

Era uma vez um rei rico e poderoso que um dia por vaidade mandou chamar vários pintores, pois queria que eles o pintassem. Esse rei tinha um nariz muito pontiagudo e feio, algo que os voluntários não sabiam. Assim, o primeiro pintor foi honesto e o pintou como ele realmente era. O rei mandou matá-lo. Como o próximo pintor soube da morte do anterior, resolveu pintar um rei com um nariz pequeno e delicado. O rei não gostou da falsidade do pintor e mandou matá-lo. A notícia se espalhou pela cidade e poucos queriam fazer esse trabalho, até que um dia um pintor foi ao palácio e pintou o rei com uma arma de caça que tampava o nariz no rei e dava ele um ar de coragem e virilidade. Esse foi salvo pela esperteza.

 

Confesso que acrescentei esse texto não apenas porque gosto dele, mas na esperança de que alguém da minha faixa etária (51 anos) tenha esse livro e possa completar as informações que me faltam: título e autor. Quem sabe?!

 

 

Sugestões de Leitura

 

GOGOL, Nikolai. O Nariz. In: BLOOM, Harold. Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. v.4.

 

______. O Nariz. In: CALVINO, Ítalo. Contos fantásticos do século XIX: o fantástico visionário e o fantástico cotidiano. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

LOBATO, Monteiro. História das invenções. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Edição comemorativa) p.1901.

 

______. Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Edição comemorativa) p.449.

 

VERISSIMO, Luis Fernando. O Nariz. São Paulo: Ática, 2003.

 

__________________

(1) Endefluxar - constipar, contrair defluxo (coriza)

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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.