LITERATURA INFANTOJUVENIL


COMENTÁRIOS SOBRE O PRÉ-LEITOR E A EDUCAÇÃO DO ATO DE LER

                                                                                 Autor: Adriano Messias

 

Introdução

 

Tem-se, desde algum tempo, o costume de dividir em fases o desenvolvimento do leitor e existe uma interpenetração destas fases com as do desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, de acordo com estudiosos da psicologia infantil. Costumamos encontrar as seguintes divisões: “pré-leitor” para o período que abrange a primeira infância (dos 15/18 meses aos 3 anos de idade) e a segunda infância (dos 2/3 anos até 6 anos); depois, surgem as fases do “leitor iniciante”, aos 6/7 anos, do “leitor em processo”, a partir dos 8/9 anos, do “leitor fluente”, a partir dos 10/11 anos, e, por fim, do “leitor crítico”, a partir dos 12/13 anos. Os estudiosos também costumam tornar estas fases interdependentes, as quais não podem ser “saltadas”, ou seja, uma se torna base para a outra. Estas divisões, obviamente, não são rígidas e dependem de vários fatores, dentre eles a maturidade cognitiva e emocional da criança e o ambiente no qual ela se insere.

 

Apesar de entendermos que estas fases têm uma finalidade didática e estruturalista, decidimos abordá-las neste artigo visando a oferecer um panorama que pode ser útil a educadores, professores diversos, bibliotecários e profissionais das ciências da informação.

 

Diversos estudos sociológicos já discutiram que o leitor infantil passa a ser considerado a partir dos séculos XVII e XVIII, grosso modo. Até então, acreditava-se, na Europa, que a criança era um ser à semelhança de um adulto em miniatura. Suas especificidades de desenvolvimento e maturidade não eram entendidas como hoje. Naqueles tempos, a partir do novo projeto social e econômico, os filhos da classe social que se fortalecera desde o fim de Idade Média – a chamada burguesia – se tornam alvo das preocupações educacionais e, só então, surge a perspectiva de um leitor ainda não adulto, para o qual deveriam desenvolver um mundo de literatura e referências bastante específico.

 

Foi naquele momento, juntamente com as escolas e com os métodos de ensino, que surgiram os chamados livros para crianças. Inicialmente, tratavam-se de obras adaptadas de livros para adultos ou de “contos populares” (contos de fadas, contos maravilhosos, fábulas, mitos e lendas). Havia os que também eram “encomendados” por instituições a determinados escritores, com o objetivo de ensinar “virtudes” e “comportamentos adequados” às crianças da nova classe dominante. Nascia a chamada literatura infantil que, nos séculos seguintes, cresceria e tomaria um espaço só para si – apesar de, historicamente, ter sido menos valorizada do que a considerada “literatura para adultos”.

 

Além do progresso social e econômico, as pesquisas na área das ciências humanas também colaboraram para que a leitura, os livros e a infância passassem a receber atenção mais ampla. O desenvolvimento da psicologia infantil contribuiu bastante para a reformulação do entendimento sobre a literatura na infância. Hoje, sabe-se que a leitura não começa e não deve começar somente na fase de alfabetização. Pelo contrário, o contato com os livros é bem-vindo sempre, desde o útero, quando a mãe pode ler em voz alta para o filho.

 

Os códigos que envolvem o ato de ler e o objeto livro podem ser descobertos muito cedo pela criança, tal a profusão de publicações para todas as faixas etárias e a precocidade com que os filhos de pais de classe média e alta são colocados em escolas maternais. Infelizmente, sabemos que boa parte da população ainda fica à mercê desta realidade.

 

Para estudiosos como Sigmund FREUD e Jean PIAGET, a base do desenvolvimento afetivo e da interpretação do mundo residiam na primeira e na segunda infância. Portanto, se os três primeiros anos de vida são fundamentais para o futuro do indivíduo, não podemos ignorar, justamente neste período, a extrema importância que os livros terão. O mau leitor pode nascer de experiências desagradáveis ou nulas nesta faixa etária.

 

A criança pequena e o livro - A criança sente uma curiosidade inata por tudo e, consequentemente, pelos livros. Porém, isso só se efetivará em sua vida se eles estiverem presentes em seu universo: na casa, na escola, nos passeios. O livro deve ser mostrado à criança como um brinquedo especial, como uma forma de descobrir o mundo. Esta abordagem tem se tornado cada vez mais necessária, de modo que vários programas de governo e de ONGs se preocupam em criar espaços em comunidades para que o livro seja acessível. Não apenas presentes, os livros infantis devem estar ao alcance das crianças, a uma altura manuseável por elas, e não no alto das prateleiras.

 

Leitura para bebês - Desde bebê, a criança pode ter contato com os livros e com a leitura. O ato de decodificar o livro tem relação direta com o desenvolvimento da linguagem oral e escrita, da criatividade imaginativa e artística, do desenvolvimento da sensibilidade para o escutar e o olhar, e com a educação do ato de ler. É evidente que os bebês não entenderão a história, mas uma leitura em voz alta, com o adulto folheando o livro, é essencial para seu desenvolvimento global. Crianças de colo já são capazes de perceber que os adultos falam diferente ao contarem uma história. Elas começam a desconfiar que existe uma maneira de se falar quando se vai contar, pedir, oferecer, zangar. Elas notam que o ritmo e a emoção se alteram quando um personagem passa por uma dificuldade ou chega ao final feliz.

 

Os bebês também começam a perceber que existem “coisas” dentro dos livros além das imagens. Eles veem uma árvore, um ursinho de pelúcia, mas também percebem coisas que, mais tarde, saberão serem as letras que formam as palavras. Por conseguinte, em uma creche com berçário, as educadoras devem, sim!, ler para os bebês. Devem contar histórias com emoção, devem mostrar as imagens, devem deixar os bebês tocarem, cheirarem, sentirem o livro.

 

Além dos livros “indestrutíveis” para a hora do banho, para as idas ao parquinho, os educadores devem orientar a manipulação dos livros feita por crianças bem pequenas, deixando-as perceber que existem formas de se chegar ao livro, de estarem com ele, de se despedirem dele.

 

Como neste artigo, porém, nos interessa mais a criança a partir dos seus 18 meses, vamos abordar, nos parágrafos a seguir, como é a criança entre o 1º e o 6º ano de vida.

 

Entre 1 e 2 anos de vida – Nesta fase, a criança geralmente já anda sozinha, descobre seu ambiente e expressa seus desejos por gestos e por balbucios, ou mesmo por palavras completas. Ela começa a conquistar uma autonomia que exigirá estímulos, mas também limites. Não poderá subir em todos os lugares, nem comer o que quiser e quando quiser, tampouco derrubar, quebrar ou destruir objetos. As primeiras tentativas de se estabelecer o limite podem desencadear uma reação contrária da criança. É a birra ou pirraça, em que ela comumente costuma se jogar no chão, espernear e começar um choro monótono e, muitas vezes, sem lágrimas.

 

Como o mundo se abre repentinamente ao alcance de suas mãos – literalmente –,  ela não tem paciência para ficar assentada na hora do almoço ou não quer dormir na hora devida. Isso mostra que o contato com os livros, neste momento, sofrerá também reflexos deste comportamento sem concentração. A criança pode manipular rapidamente o livro, para abandoná-lo em seguida e trocá-lo por outra coisa. Contudo, os pais e educadores podem estimular a sua relação com os livros, mostrando que eles têm sempre mais a revelar do que se supõe.

 

Nesta idade, as brincadeiras ainda são bastante egocêntricas. Quando em grupo, uma criança poderá brincar nas proximidades de outras crianças, mas a sociabilidade ainda é bastante inicial. Meninos e meninas podem até brincar do mesmo jogo ou atividade, mas cada um em seu mundo.

 

É aqui que surge também o período de imitação: imita-se o adulto, seu comportamento; surge o desejo de brincar de usar roupas e calçados de “gente grande”. Este é um dos termômetros para que se saiba que as maravilhosas portas do faz-de-conta estão abertas. A criança faz de conta que é o pai ou a mãe ao brincar de casinha e bonecas, faz de conta que está falando no celular, faz de conta que está passeando no bosque, faz de conta que está no castelo encantado.

 

Na primeira infância, o pré-leitor desenvolve sua relação com a leitura e os livros por meio da afetividade e dos sentidos. A responsabilidade do adulto “mediador da leitura” nesta fase é essencial para a forma como a criança se relacionará com os livros no futuro. Esse mediador geralmente é a mãe ou a professora da escola maternal, mas também pode ser o pai, os avós, um arte-educador, um amigo da família ou até mesmo um personagem apresentador de um programa educativo da TV. É este sujeito que mostra o livro à criança e faz com que ela se sinta atraída por este objeto. Desta forma, toda vez que a criança vir um livro, ela vai saber que de dentro sairão histórias. Ela saberá que existem imagens e também a possibilidade de tocá-las e descobri-las. Por isso, defendemos a ideia de que o livro tem de ser apresentado como um brinquedo especial, que tem a característica de desenrolar enredos, de encantar a imaginação e de embalar os sonhos.

 

Não podemos nos esquecer também que a criança é mais observadora do que pensamos. Com alguns meses de vida, ela já terá visto os adultos manipulando livros de papel e já saberá que tais objetos existem. A maneira como os adultos próximos lidam com os livros fará toda a diferença para a criança – que aprende muito pela imitação. Uma casa sem livros com certeza não será um bom exemplo em um lar em que se deseje filhos criativos e leitores felizes.

 

A manipulação do livro pela criança de até 3 anos - Até os três anos, a criança pega o livro de uma maneira mais bruta, sem muita coordenação motora e, quanto mais nova, mais levará aquele objeto à boca, como faz com qualquer outro. A influência da fase oral em seu desenvolvimento ainda determina parte desta atitude. Por isso, os livros que são deixados à manipulação da criança costumam ser de material não-rasgável, como livros emborrachados e de material plástico ou pano. Além de levá-los à boca e correr o risco de ingerir pedaços de papel com tinta, a criança costuma rasgar os livros feitos de papel.

 

Entre 3 e 5/6 anos de vida – Este é, em geral, um período de mais calmaria para os pais e educadores. A sociabilidade está em progresso e a criança depende menos dos seus responsáveis. A agitação do “pega tudo e derruba tudo” passou. O entendimento do uso de símbolos e de conceitos como idade, espaço, tempo, certo e errado, já se aprimora. Este é um período de compreensão muito maniqueísta do mundo, em que as situações, pessoas e bichos são vistos como totalmente bons ou totalmente ruins – não há meio termo. Nos contos de fadas, a fada é sempre boa, enquanto a bruxa é sempre malvada. O sapo é sempre feio, a não ser quando se transforma em príncipe. O lobo e a cobra são sempre perigosos. A criança não entende, neste período, que os personagens – assim como as pessoas e ela mesma – às vezes são legais, às vezes não, às vezes querem ajudar, às vezes não, e que atributos como a beleza e a feiura podem ser relativos e ter fundamentos culturais...

 

Nesta idade, a criança está completamente dentro de seu mundo mágico. É a doce fase da infância em que acreditamos em Papai Noel, em duendes, em fadinhas e em bicho-papão de uma forma mais imaginativa. Aqui também costumam aparecer amigos imaginários, pois a realidade e a fantasia frequentemente se confundem.

 

A manipulação do livro pela criança de 3 a 5/6 anos - Na segunda infância, a musculatura fina começa a amadurecer. A criança tem mais entendimento do que é o livro, de que não deve rasgá-lo e de que ele continuará à disposição sempre que desejá-lo. A linguagem e a sociabilidade estão mais aprimoradas e as rodas de leitura costumam ser uma excelente atividade.

 

Como são os livros voltados à primeira infância – Até os três anos de idade, a criança não deveria manusear livros de papel sozinha para não se ferir ou mesmo intoxicar. Quanto à temática, livros para esta faixa etária praticamente não têm texto escrito. Eles são imagéticos e versam em torno de situações comuns ao universo da criança: a hora do banho, a papinha, o brinquedo, o gatinho, a família... Junto aos enredos simples, o adulto deve levar à criança o sentimento que envolve cada imagem ou situação. As gravuras costumam ser grandes, com poucos elementos.

 

Como são os livros voltados à segunda infância – Nesta idade, a compreensão da criança está mais aprimorada e os enredos podem ser mais ricos e longos. A famosa “reiteração” ou “repetição” faz parte deste momento, quando a criança pede ao contador para repetir (quantas vezes ela sentir necessário) uma mesma história ou a exibição de um mesmo filme. O adulto não deve se preocupar com isso. Esta demanda por repetições faz parte da construção interna do mundo da criança. Ela se sente segura ao ouvir uma história cujos momentos principais já conhece de cor e salteado (o conhecido “conte outra vez”...). É aqui que a criança também entende melhor a estrutura narrativa: as histórias têm um início, um meio e um fim. O fim, nesta idade, quase sempre é positivo e estimulante. É o “e viveram felizes para sempre” e similares.

 

Os livros manuseados pelas crianças, porém, ainda devem ter o predomínio da imagem sobre a grafia, mas as gravuras já costumam ter mais elementos do que as da fase anterior.

 

Como esta é a idade dos porquês, a criança vai fazer muitas perguntas em torno de uma história e o adulto deve estar preparado para dar as respostas conforme for conveniente.

 

Nesta fase, a criança assimila muitos valores simbólicos que existem nas histórias. O adulto não deve se preocupar de forma alguma com aquilo que ele considera “violento” ou “agressivo” em um conto de fadas, por exemplo. A criança não será violentada ou agredida ao ouvir a história de um lobo que engole uma vovozinha. Isso é perfeitamente assimilável em seu mundo de faz-de-conta. Pelo contrário, a criança precisa da compreensão dessa “violência simbólica” para se fortalecer emocionalmente. Ela entende, à sua maneira, todos os elementos que existem em uma narrativa, vivenciando a morte, a dor, a separação, mas também a conquista, o amor e a amizade nas mais diferentes histórias.

 

Crianças de 3 a 6 anos respondem muito bem à “hora do conto”, que deve ser criada na escola ou em casa. Uma criança que ouve uma história antes de dormir tem o carinho e a socialização dos pais junto a um sono melhor e mais produtivo.

 

Conclusão – O ato de ler é algo que se educa. Assim como se educa o ato de se apreciar um quadro ou uma escultura dentro de um museu, ou mesmo as árvores de um jardim, educa-se a maneira de ler, a forma de se lidar com o livro. Educa-se, sobretudo, pela interferência do adulto e por seus exemplos na fase que é, para a criança, como já enfatizei, uma fase muitíssimo importante. Diríamos mesmo decisiva, pois a maneira como a criança entenderá o livro e as histórias, neste período, irá acompanhá-la pelo resto de sua vida.

 

Notas

1 - No século XIX, a teoria da evolução de Charles DARWIN teve reflexos em várias áreas, dentre elas a do desenvolvimento infantil. Inicialmente, o foco estava nas formas de a criança se adaptar ao ambiente e na influência das heranças dos pais em seu comportamento. Só em 1916 é que Lewis TERMAN criou o teste que passou a ser chamado “teste de Stanford–Binet”, voltado ao desenvolvimento intelectual infantil. Nos anos 20, Arnold GESELL estudou o comportamento infantil filmando o comportamento de crianças de diversas faixas etárias. Foi quando surgiram as primeiras abordagens do desenvolvimento intelectual, dividindo-o em etapas, como já tinham feito em relação ao desenvolvimento do corpo físico. Muitas contribuições ao entendimento da infância surgiram depois com renomados psicanalistas e filósofos, como Melanie KLEIN, Donald Woods WINNICOTT, Jacques LACAN, Gilles DELEUZE e Jacques DERRIDA, por exemplo. Alguns contribuíram de forma mais direta, outros, de forma mais indireta.

 

Adriano Messias - Escritor, tradutor e adaptador. Fez graduação em letras, jornalismo e concluiu mestrado em comunicação. Dentre seus livros voltados para crianças e jovens, estão: A Vaca Fotógrafa (Positivo), Que bicho está no verso? (Positivo), Telefante sem fio (Positivo); Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha; Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão, Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta, Histórias mal-assombradas do Caminho Velho de São Paulo (Biruta), O Elefante Infante (da obra de Rudyard Kipling) (Musa), Antes de Colombo chegar/ Antes de la llegada de Colón (Alis), Minha tia faz doce no tacho (Cuca Fresca), 20 Histórias de Bichos do Brasil (Cuca Fresca), O mestre cuca fresca: receitas divertidas para gente feliz (Cuca Fresca). Contatos com o autor podem ser feitos pelo email: adrianoescritor@yahoo.com.br

 


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.