BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

COLETA DE DADOS E PESQUISA ESCOLAR

Estes dois termos são bastante usados e difundidos nas escolas atualmente. São tão falados que chegam a ser confundidos até mesmo em seus significados, que são claramente diferentes.

 

Etimologicamente falando há várias origens e significados para a palavra coleta, porém o que mais se assemelha com o conteúdo que pretendemos apresentar é: fazer coleta de, colher, recolher, arrecadar.

 

Alguns colegas pedagogos e também alguns bibliotecários que utilizam essa ferramenta, apregoam que a “coleta” de dados deve anteceder a “pesquisa” na escola, ou seja, que o aluno deve primeiramente saber “recolher” dados e apresentá-los para um determinado trabalho solicitado pelo professor, quer seja em grupo ou individual, para depois aprender, realmente, a realizar uma pesquisa escolar.

 

Por exemplo, o professor de sala, ou da biblioteca, pode contar uma história relacionada a bichos e pedir aos alunos que procurem em casa, ou mesmo na sala de aula ou ainda na biblioteca, em revistas velhas, embalagens ou outro local que estiver ao alcance, imagens que os lembre dos bichos da história ouvida.

 

Em nosso colégio, a professora de biblioteca que trabalha com as turmas desde a Educação Infantil até o 2° ano do Ensino Fundamental, já tem essa prática e dá muito certo. Recentemente ela contou aos alunos das classes de 3 anos, aqui denominado Jardim I, a história A joaninha, de Mary França, e depois foi com eles para o jardim “colher” ou “recolher” joaninhas para melhor ilustrar e entender a história. Após a coleta dos insetos, juntamente com os alunos, a professora recolheu outros dados como onde, de que forma vivem e se alimentam as joaninhas. Essa é uma atividade formidável para os pequenos, pois eles ficam atraídos por outros livros que possam explorar da mesma forma, e assim vão adquirindo o gosto pela leitura, ainda que somente de imagens.

 

Enfim, pode ser feito uma série de atividades derivadas da história e com os dados/informações/objetos recolhidos pelos alunos e professora, está feita a coleta de dados. Nessa faixa etária as crianças já possuem a habilidade de fazer associações e, portanto, já devem saber relacionar uma imagem ou objeto ao que viu e ouviu na história.

 

Dessa forma terá início a tarefa de busca da informação necessária e o primeiro contato com as diferentes fontes de informações, assim como com diversos recursos informacionais.

 

Acredita-se que, dependendo do desenvolvimento e maturidade de cada grupo, esse trabalho se estenda até o 1° ano do Ensino Fundamental I (antiga Pré-Escola).

 

Já os alunos do 2° ano do Ensino Fundamental (antiga 1ª.série) podem ser iniciados na chamada pesquisa escolar.

 

O significado da palavra pesquisar também é amplo e, de acordo com o dicionário Aurélio, corresponde ao ato de buscar; indagar; perguntar; investigar sobre um determinado assunto.

 

Marcos Bagno, em seu livro Pesquisa na escola: o que é, como se faz, vai mais além na definição: "...significa procurar, buscar com cuidado; procurar por toda parte; informar-se; inquirir; aprofundar na busca. Os significados desse verbo em latim insistem na idéia de uma busca feita com muito cuidado e profundidade. Nada a ver, portanto, com trabalhos superficiais, feitos só para dar nota”.

 

Outra citação muito interessante que nos remete ao significado da palavra pesquisa vem de José Antonio Tobias em seu livro Como fazer sua pesquisa: “pesquisar é procurar a verdade”.

 

Realmente a pesquisa pressupõe a busca de informações reais e concretas, densas e completas.

 

Toda pesquisa necessita de um ponto de partida, que deve ser o tema, o assunto a ser procurado. Após a definição do tema, é necessário que seja feito um planejamento, um plano ou ainda, um esquema para que a pesquisa seja realizada. Podemos traçar aqui alguns passos fáceis para se iniciar uma pesquisa escolar:

 

1 - Definição do tema/assunto;

2 - Objetivo da pesquisa (qual a finalidade da mesma);

3 - O que se deseja saber sobre o assunto a ser pesquisado;

4 - Será em grupo ou individual?

5 - Será uma observação direta ou uma observação indireta?

6 - Quais os recursos informacionais a serem utilizados. O professor pode pedir que os alunos não usem a internet e somente livros e obras de referência, etc.

7 - Prazo para que a pesquisa seja entregue;

8 - Onde anotar os dados e como entregar a pesquisa realizada;

9 - Análise, avaliação e seleção das informações. Após a compilação de dados, nas várias fontes bibliográficas, é chegada a hora de analisar, avaliar e finalizar o trabalho solicitado. Nessa etapa é preciso observar alguns itens: reler e organizar as anotações feitas; definir a estrutura do trabalho, que deve ter: a) introdução; b) desenvolvimento; c) conclusão; d) colocação das referências bibliográficas e finalmente e) a identificação de quem participou da tarefa.

 

A orientação sobre como fazer uma pesquisa escolar deve ser dada, inicialmente, aos professores e para muitos de nós bibliotecários, assim como aos auxiliares de biblioteca e todos os que atendem diretamente o público alvo em uma biblioteca escolar.

 

Como já algum tempo trabalho em biblioteca escolar e tive a oportunidade de conhecer vários e diferentes professores, sei que muitos não sabem o que querem ao pedir uma pesquisa para os alunos e nem sequer como avaliar o resultado da mesma. Antes de o professor solicitar pesquisas aos alunos, é preciso que ele saiba o que fará com o resultado e qual aprendizado os alunos terão conseguido com os dados obtidos.

 

Já vimos que fazer uma pesquisa é assumir um compromisso e uma responsabilidade. Todo trabalho tem que ter um produto final e os alunos precisam estar cientes disso, assim como saber que a pesquisa que eles fizeram contribuirá, e muito, para seu aperfeiçoamento intelectual.

 

“Como é fácil perceber, a pesquisa é, mesmo, uma coisa muito séria. Não podemos tratá-la com indiferença, menosprezo ou pouco caso na escola. Se quisermos que nossos alunos tenham algum sucesso na sua atividade futura – seja ela do tipo que for: científica, artística, comercial, industrial, técnica, religiosa, intelectual... - , é fundamental e indispensável que aprendam a pesquisar. E só aprenderão a pesquisar se os professores souberem ensinar.” (BAGNO, Marcos.   Pesquisa na escola: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2000)

 

Embora a maioria dos autores que versam sobre o assunto pesquisa escolar, colocam o professor como principal canal para a orientação aos alunos, julgo que a biblioteca escolar precisa e deve pegar para si essa tarefa. Cabe à biblioteca escolar, uma vez que detém os recursos informacionais próprios para a realização de qualquer pesquisa, que oriente seu público para tal. Mas para isso é necessário que esteja apta, tanto em atualização e disponibilidade de acervo como o de prover seus funcionários com o conhecimento necessário para tal projeto.

 

Pode começar elaborando um projeto, e, como diz Marcos Bagno: “fazer um projeto é lançar idéias para a frente, é prever as etapas do trabalho, é definir aonde se quer chegar com ele”. Levando-se em conta a estrutura física e humana que a biblioteca dispõe, efetuar um estudo de verificação com que séries irá trabalhar primeiramente. Depois conversar com os orientadores/coordenadores das séries envolvidas e apresentar o projeto, para lapidar o que for necessário e acertado entre as partes e, finalmente, colocá-lo em prática.

 

Devemos procurar descobrir temas que interessem aos nossos alunos; quais os projetos que cada série irá trabalhar ao longo do ano, pois estimulando a investigação sobre um tema que interesse aos alunos, estaremos, sem dúvida alguma, contribuindo para despertar neles o prazer pela pesquisa, deixando assim, de ser uma obrigação aborrecida e se tornar uma atividade mais prazerosa.

 

A biblioteca escolar tem como objetivos, entre outros, criar e manter nas crianças o prazer pela leitura, pela aprendizagem e pela utilização de bibliotecas ao longo de sua vida; colaborar no processo educativo oferecendo todas as modalidades e recursos disponíveis exigidos pela pedagogia moderna; apoiar os alunos na aprendizagem e na prática de competências de avaliação e utilização da informação, independentemente da natureza e do recurso, tendo em conta as formas de comunicação existentes; providenciar acesso aos recursos locais, regionais, nacionais e globais e às oportunidades que confrontem os alunos com idéias, experiências e opiniões diversificadas, etc.

 

Diante do exposto acima, fica mais do que evidente que é a biblioteca escolar que precisa levar adiante esse projeto, juntamente, é claro também, com o corpo docente da escola.

 

Por mais autonomia que o responsável pela biblioteca escolar desfrute, para projetos como esse, é necessário que submeta à apreciação de sua direção ou coordenação, isto é, à quem esteja subordinado, pois interferirá diretamente na aprendizagem dos alunos envolvidos.

 

Um projeto sobre pesquisa escolar deve contemplar também uma orientação sobre referênciação bibliográfica, outra “pedra no sapato” para muitos professores e bibliotecários, que infelizmente desconhecem a existência da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, que muito nos ajuda na questão bibliográfica, cuja NBR 6023 – Informação e documentação – Referências – Elaboração , de Ago 2002, serve de guia, atualmente, para referenciar todo e qualquer trabalho acadêmico, seja em qualquer suporte de informação.

 

Essa norma deve fazer parte do acervo de toda biblioteca, inclusive a escolar. Não vou discorrer muito sobre esse tema, pois além de ser muito amplo, é recheado de detalhes técnicos que não cabem nesse contexto. Além do que norma não se discute, se aplica e segue.

 

Acreditamos que a bibliografia deva ser uma exigência para apresentação de qualquer trabalho solicitado aos alunos, inclusive de informações eletrônicas, fato já consumado hoje em dia, visto que a Internet é uma das fontes mais consultadas por nossos alunos. Em algumas escolas essa obrigatoriedade já inclui Ensino Fundamental II e Ensino Médio, assim como já o é no Ensino Superior. Dessa forma, a apresentação da pesquisa escolar ficará totalmente realizada e correta, com a citação das fontes bibliográficas.

 

Conhecemos algumas bibliotecas da rede particular de ensino que desenvolvem, e muito bem, este trabalho de pesquisa escolar junto aos alunos, desde os níveis iniciais até o Ensino Médio.

 

...”Aurélio andava adoentado e raramente subia à roleta, passando os dias na Biblioteca, pesquisando, escavando assuntos para novelas e poemas.” (Coelho Neto, Turbilhão, p.226). 


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?