BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA ESCOLAR E AS “NOVAS TECNOLOGIAS”

Iniciando uma nova década do século 21 gostaria de deixar alguns pontos para reflexão e futura mudança, pois me deparo novamente com as mesmas questões de outrora, ou seja, questões do século passado. Quando indagada sobre o que faço e onde trabalho, vêm as exclamações de sempre: “ainda tem gente que vai à biblioteca para emprestar livros?”, “penso que os alunos só utilizam a biblioteca para acessar a Internet”; “como vocês, bibliotecários, fazem para atrair os alunos para a biblioteca e concorrer com a internet?”; “você não acha que uma biblioteca está com os dias contados?” e por aí afora...

 

Não digo que as perguntas são sem fundamento, absolutamente! Elas têm sim uma razão de ser e é aí que entra o xis da questão: como responder convincentemente, ou melhor, como garantir aos indagadores, aos incrédulos, aos que ainda duvidam que os livros, na sua forma tradicional, e a chamada tecnologia de primeiro mundo, possam ter uma coexistência perfeita e pacífica, uma complementando a outra, para obtermos informação, conhecimento e lazer?

 

Como mostrar que uma boa (e põe boa nisso) parte de nosso Brasil varonil nem sequer conhece uma biblioteca na sua essência, nunca entrou numa e nem sequer levou algum livro para casa?

 

Como explicar que, ao voltarmos uns 6 anos antes, tínhamos as mesmas perguntas; as mesmas dificuldades; o mesmo receio de como aliar e trabalhar com os diferentes suportes de informação? Passamos cerca de 3 a 4 anos lendo, falando e ouvindo sobre novas tecnologias. Pois bem, essas novas tecnologias foram substituídas por outras novas tecnologias e estas quase que se alteram a cada minuto, com um certo exagero, mas não estamos muito longe disso, tamanha a voracidade com que se cria e se inventa uma máquina nova mais veloz, mais potente, com mais capacidade, enfim, a cada momento nos é vendido um equipamento novo, para o qual precisamos ser apresentados e com o qual precisamos nos adaptar sem, contudo, nos deixar escravizar e nos tornarmos dependentes culturais dessa tecnologia.

 

Acho tudo maravilhoso, principalmente porque está sendo criado e inventado pelo homem, mas é necessário haver um equilíbrio no uso dessa tecnologia.

 

É mister que façamos dela uma preciosa aliada, nosso apoio, nossa carta na manga.

 

Outro dia, uma professora de matemática, muito amiga, que foi para outro colégio me confidenciou: “que saudade do giz e do quadro negro...” Infelizmente, como hoje em dia, muitos professores já fazem uso do computador em suas aulas, quando não os têm, por falta de energia, quebra ou outro fator, eles já não sabem como prosseguir com a aula, perderam a capacidade de criar. Entram em parafuso. Muitos perderam o jogo de cintura, tão importante e necessário para tal função.

 

Há cerca de 3 anos, recebi, na Biblioteca onde trabalho, alunos de um curso de graduação que, além de conhecer o espaço, me fizeram algumas perguntas e dentre elas, uma aluna me falou: “Nossa!!!! Vocês ainda não estão com o empréstimo informatizado? Quando me formar quero ir para uma biblioteca que esteja totalmente informatizada, pois não consigo imaginar uma biblioteca que não seja de outra forma, seria um retrocesso”.

 

Na época a minha paciência era menor ainda, então respirei bem fundo, pensei um pouco e lhe respondi: “faço votos que você consiga o que tanto deseja, pois atualmente são poucas as bibliotecas escolares que estão nessas condições e temos um longo e tenebroso caminho a percorrer até chegarmos ao patamar de termos mais bibliotecas totalmente informatizadas. Isso sem mencionar que a carência de mão de obra especializada também ainda é muito grande nos casos de bibliotecas menos estruturadas, onde temos mais necessidade de atuar junto aos usuários, proporcionando-lhes facilidades e abrindo-lhes o caminho ao acesso à informação, à leitura, ao conhecimento. E essa parte vem com ou sem a informatização. Mas de qualquer forma, boa sorte.” Ela ficou me olhando pensativa e acabou por concordar que eu tinha um pouco de razão.

 

E aí nossa conversa girou em torno justamente disso, das amplas possibilidades existentes nos dois lados da moeda, ou seja, a riqueza de trabalho nas bibliotecas tradicionais e as que detêm alta tecnologia.

 

Nos EUA e na Europa já existem bibliotecas totalmente tecnológicas, isto é, com acervo somente eletrônico, composto de CDS, DVDs, computadores de última geração etc. Desconheço que aqui no Brasil já tenhamos algo similar, mas não demorará muito para que isso ocorra. É o processo natural para um desenvolvimento planejado, principalmente porque biblioteca trata da informação e a necessidade que essa informação seja rápida, atual e atenda à demanda, obriga-a que seja, cada vez mais, adepta de tecnologias.

 

Creio que durante muito tempo ainda coexistirão os dois tipos de biblioteca. Sempre haverá espaço para o tradicional, assim como sempre haverá necessidade de elementos mais avançados.

 

Vale a pena citar um detalhe sobre a questão da informatização. Muita gente ainda faz confusão a respeito disso. Atualmente, uma grande parcela das bibliotecas escolares existentes já possui seu acervo informatizado. Isto quer dizer que o usuário pode recuperar a informação existente naquele acervo, em livros ou em qualquer outro recurso, via computador, na própria biblioteca. Assim como muitas também já estão com seu acervo disponibilizado via internet, podendo ser acessado de qualquer local.

 

Outro tipo de biblioteca é a virtual que, assim como o nome, não existe fisicamente. Somente via computador, onde os livros já estão digitalizados e disponíveis para consultas e impressão.

 

Na Bienal de 2010, a Imprensa Oficial preparou um stand com vários iPads para que o público pudesse ter conhecimento dessa nova ferramenta, que para muitos substituirá o livro impresso. No dia que lá estava, também para conhecer e manusear, percebi a festa que estava sendo, principalmente pelas crianças, que adoram um computador. Pude notar um certo receio ainda entre os adultos; alguns invocados, outros curiosos, outros ainda não entendendo para que aquilo servia mesmo e tinham também os que já dominavam a ferramenta, lendo, relendo, virando as páginas como se exibissem, orgulhosos, seu conhecimento e familiaridade com um objeto tão novo e já muito cobiçado. Foi, sem dúvida alguma, uma grande sensação.

 

Tenho conhecimento de um caso que a pessoa renasceu, metafóricamente falando, com o surgimento do iPad, pois tinha um distúrbio ocular grave que a impedia, há tempos, de ler as letras miúdas dos livros. Já em posse de um iPad, conseguiu retomar esse prazer, pois ele permite ser adequado às necessidades da leitora. Pode ter a letra aumentada ou escurecida, pode separar mais as sílabas, enfim, é totalmente adaptável. Para essa pessoa, essa invenção lhe proporcionou uma imensa facilidade, permitindo que voltasse a ler bem novamente, quantos livros tiver condições de recuperar pelo equipamento.

 

É preciso termos em mente que o caminho a percorrer é longo e árduo, pois, ao mesmo tempo que falamos em alta tecnologia, não podemos nos esquecer da carência de bibliotecas escolares em nosso país, até mesmo nas grandes capitais.

 

No ano passado, foi sancionada pelo governo federal, a lei n. 12.244 que obriga a toda escola pública e privada ter biblioteca com o profissional bibliotecário, num espaço de 10 anos. Essa foi uma grande conquista, um importante passo na longa caminhada, e para 2011 devemos continuar a lutar mais ainda para que, com a mudança de governos, essa lei não seja posta de escanteio.

 

Não podemos esmorecer e, juntamente com as entidades de classe, devemos cobrar continuidade dos trabalhos das autoridades que se comprometeram com a referida lei, além de mostrar-lhes a necessidade de aliar anseios e expectativas, criando condições para que ambos os momentos – tecnificar as bibliotecas já estruturadas e criar mais bibliotecas tradicionais – possam caminhar paralelamente.

 

Há quem acredite que serão as tecnologias que mudarão o mundo; que serão as grandes invenções tecnológicas que unirão os povos, deixando-os mais iguais. Não tenho dúvidas quanto ao poder das máquinas. Realmente estão revolucionando o modus vivendis da humanidade, contudo, estão incitando muita preguiça, muita mentira e violência também.

 

Ainda prefiro acreditar numa célebre frase de um político romano do século II a.C., Caio Graco, que preconizava:

 

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas.”

 

É preciso que todos os envolvidos: profissionais da área da educação, de biblioteconomia, entidades de classe, políticos, usuários e população em geral estejam engajados e cônscios dessas necessidades, trabalhando cada um com seus elementos para um único propósito – democratizar o conhecimento, possibilitando o acesso de todos à informação e, principalmente, à informação de qualidade.


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?