BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA: UM LUGAR DE DESCOBERTAS

Entre os vários projetos existentes no colégio onde atuo, tem um no 7° ano cujo principal objetivo é possibilitar ao aluno conhecer e vivenciar o trabalho que cada funcionário executa na escola. Numa manhã, no período de 6 aulas, o aluno acompanha todos os passos do funcionário em sua jornada, ganhando por isso o carinhoso apelido de “sombra”.

 

O conteúdo é passado em sala de aula e durante 7 dias os alunos “trabalham” nos diferentes departamentos, e essa experiência se torna muito rica à medida que permite o conhecimento, a prática, a teoria do trabalho e acontece sempre dias antes do 1° de Maio.

 

Dependendo das necessidades de cada departamento, podem abrigar até 4 alunos, inclusive limpeza, cozinha e segurança. Isso já ocorre há 7 anos e na Biblioteca, a cada ano que passa, notamos que a surpresa fica mais evidente, pois eles conseguem conhecer a biblioteca do lado de dentro, como prestadores de serviço e não como clientes e isso faz toda a diferença.

 

De uns dois anos pra cá, eles já podem escolher o local que querem conhecer melhor e para os que preferiram a biblioteca, nós perguntamos o porquê e a resposta é, quase sempre, por acharem legal, tranquilo e gostoso. Por um lado é ótimo que se sintam à vontade de estar na biblioteca, por outro, porém, é necessário desmistificar esse tal de sossego e tranquilidade que muitos alunos, professores e até mesmo colegas funcionários pensam da biblioteca, ou seja, se estamos em período de férias escolares, a equipe da biblioteca não tem o que fazer; se por outros vários motivos não tem alunos na biblioteca, que nós ficamos fazendo? E por aí vai. Acredito que muitos funcionários de bibliotecas já viram esse filme!!!!

 

Estamos tendo uma grande oportunidade de alterar essa imagem, pois antes de começarem o trabalho, fazemos uma pequena preleção com a apresentação geral da biblioteca e as bocas vão se abrindo de espanto: ”nossa, não fazia ideia que tinha tudo isso pra fazer”; “caramba! não imaginava que até o livro chegar pra gente, passava por tudo isso...”; “tem que fazer faculdade para trabalhar em bibliotecas?” e aí no final do período, dá até para perceber se algum deles terá jeito para esses serviços.

 

Agora o gratificante é o resultado da avaliação apresentada para os professores. A maioria que por aqui passou, gostou muito, aprendeu um pouco mais sobre o funcionamento de uma biblioteca, sobre a responsabilidade de cada um, por menor que seja sua função e quem sabe dessa vivência possa sair, futuramente, usuários mais conscientes da importância de uma biblioteca, e até mesmo profissionais bibliotecários.

 

A exemplo da proposta do 7°, o 5° ano do Ensino Fundamental I também tem seu projeto, diferenciado apenas no modo de aplicação. Para eles, consiste em escolher uma profissão dentro dos vários setores do colégio e fazer uma entrevista, a fim de colher maiores e melhores informações a respeito da profissão exercida.    

 

Nesse ano vários alunos escolheram a profissão de bibliotecário e com dias e horários marcados, nos encontramos para a entrevista. Alguns vieram em duplas, outros só e outros em grupos maiores. Foi uma verdadeira maratona.

 

Cada grupo preparou uma série de perguntas super interessantes. À medida que eu ia respondendo, curiosamente, a atenção de alguns deles ficava mais aguçada e notei um certo interesse pela profissão de bibliotecário, tal a minha emoção e entusiasmo ao responder as questões sobre porque escolhi ser bibliotecária; o que me levou a fazer isso; o que mais gostei e gosto na profissão; se o salário é bom ou não; se é necessário gostar e ter que ler muito para ser bibliotecário e por aí vai... Porém quase todos tinham uma questão em comum: o que eu recomendaria a eles, alunos do 5° ano, para seguirem essa profissão também.

 

A princípio senti uma responsabilidade enorme, depois a tensão foi diminuindo e a conversa aconteceu mais leve e solta e fui desfiando um novelo de motivos que eles poderiam se ater para cursarem biblioteconomia (palavra que não conseguiram pronunciar de primeira). Esse projeto também não é a primeira vez que acontece na escola, porém neste ano foi mais profundo, senti que as crianças levaram mais a sério e tiveram muito mais interesse em conhecer, de fato, as profissões existentes na escola. As perguntas, claro que com supervisão da professora, foram bem mais elaboradas e lhes deram uma ideia bastante interessante do que seja ser bibliotecário e no desenrolar do bate papo uma aluna veio com essa: “ eu acho que a biblioteca é onde a gente pode descobrir um montão de coisas, por isso eu acho também que é muito bom e gostoso ser bibliotecária.” Não é o máximo?

 

Essas entrevistas duraram cerca de 4 dias, pela manhã ou no período da tarde e sempre nos recreios deles. Era corrido e eu precisava ser bastante objetiva e sucinta nas respostas, mas bem cuidadosa. Após a sessão de fotos e recreio acabado, os alunos foram embora e eu fiquei a pensar na importância do nosso papel na escola, como precisamos cuidar de nossa imagem, nossa postura, nosso linguajar, nossa conduta.

 

E nesses pensamentos todos, pegando o gancho na fala da aluna que achava ser a biblioteca um lugar de descobertas, viajei no tempo, remexendo no baú de minhas memórias para resgatar lembranças maravilhosas de minhas primeiras idas á uma biblioteca, essa denominada de Gabinete de Leitura, lá em Jundiaí, minha cidade natal.

 

A alegria que tinha em entrar naquele centro de cultura, sabedoria, memória, onde o silêncio era primordial e só conseguia ouvir um pequeno ranger ao andar, sendo o piso todo de tábua corrida, era indescritível, ímpar. O prédio, de 2 andares, tinha uma escada linda, meio que em espiral, que sempre me dava uma estranha e gostosa sensação de estar em um castelo.

 

Era e ainda soa engraçado, ao recordar, pois o Gabinete de Leitura Ruy Barbosa ficava em frente ao Quartel de Infantaria de Jundiaí e eu preferia me entreter com todos aqueles livros maravilhosos a olhar para os pracinhas, tal qual muitas meninas que se debruçavam nas janelas, estrategicamente abertas de frente para o quartel, faziam. E ainda ficava muito orgulhosa quando os soldados me viam entrar no Gabinete, pois acreditava que me achariam culta e inteligente. Na época, essa oportunidade era para bem poucos.

 

Não foram poucas as vezes em que minha mãe me deixou de castigo, pois tinha hora marcada para retornar, e como eu me deixava levar vendo a riqueza lá existente,  saia atrasada e perdia o ônibus. Durante o trajeto de volta ia me preparando para as broncas que, com certeza, e com razão eu levaria, pois combinado é combinado. Mas valia a pena, pois além de ter feito as lições, minha cabeça estava cheia de imagens e informações.

 

O acervo era composto de livros muito antigos, ricamente encadernados, os famosos capa dura, que nos chamava muito a atenção. Continham mais textos e as ilustrações, embora mais modestas e em banco e preto, nos atraia também. O cuidado que tínhamos em relação a esse objeto de desejo e o carinho com que os funcionários o tratavam, assim como a nós leitores, não esqueci jamais e sempre que podia retornava àquele ambiente mágico.

 

Me lembrei, claramente, de como tinha admiração por aqueles funcionários que sabiam tudo sobre os livros; davam dicas para todos os interessados; viviam arrumando as estantes para que todos pudessem localizar o que buscavam; quanta preocupação em manter a ordem do espaço e com o atendimento; enfim, naqueles momentos eu queria trabalhar em biblioteca, mesmo sem saber, assim como nossos alunos atuais, que precisaria fazer tanta coisa para ser bibliotecário e poder usufruir desse lugar de descobertas.

 

Uma das coisas que mais me marcou e recordei com alegria, era a paciência e atenção que os funcionários tinham para conosco, os mais jovens. Claro que eu, assim como os colegas de minha idade, não éramos tão traquinas (para não dizer mal educados) como muitas crianças de hoje. Nós obedecíamos mais rapidamente. Mas mesmo assim isso me fez pensar em como agimos, hoje, com os alunos mais rebeldes, pois aí está o grande desafio da educação. Trabalhar com os bonzinhos e educados é tarefa menos trabalhosa. E com os “diferentes”, como tratá-los e atraí-los?

 

Já tive a oportunidade de citar que a biblioteca escolar, como parte integrante do processo educativo, também tem que descobrir como trabalhar e criar em nossos alunos mais difíceis o prazer de frequentar a biblioteca.

 

No livro Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva, de Michèle Petit, tem um capítulo intitulado A hospitalidade do bibliotecário que mostra várias entrevistas que a autora realizou com jovens frequentadores de biblioteca e um deles, que conhece bibliotecas desde pequeno, narra: “o importante é que o bibliotecário tenha tempo para se dedicar ao que é da ordem da vida, a tudo que se refere à vida e, no que toca aos jovens, também à moral; e fazê-lo de maneira simples, impregnando-os de emoções, de coisas positivas. Mais que ser um conservador ou um guardião de livros, ser uma espécie de mágico que nos leva aos livros, que nos conduz a outros mundos.”

 

Pois foi algo bastante semelhante que os funcionários do saudoso Gabinete de Leitura me proporcionaram. Não sei dizer se eram ou não bibliotecários formados, mas tinham essa preocupação, essa postura, permitindo que eu sonhasse e tivesse devaneios naquele mundo de descobertas.

 

A título de informação, o Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, em Jundiaí data de 1908 e até hoje está no mesmo local, apenas mais ampliado, com mais salas, acervo maior e até um anfiteatro.


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?