LITERATURA INFANTOJUVENIL


O TEMA MORTE NOS LIVROS INFANTIS: RUBEM ALVES FALANDO DA MORTE

O tema deste mês será dividido em dois momentos: 1) Rubem Alves falando da morte (coluna de fevereiro) e 2) Outros falando da morte (coluna de março).

 

Resolvi falar de Rubem Alves, pois outro dia, durante uma palestra, a escritora Eliana Luvison falou dos textos dele e eu me dei conta de que estava acabando minha disciplina – “Mediação da Literatura infantojuvenil em Bibliotecas” e não havia levado, para a sala de aula, nenhum livro de Rubem Alves.

 

Imperdoável isso! Seus textos, em geral, tratam de questões existenciais e de uma maneira tão delicada que até me senti culpada de não ter apresentado aos meus alunos alguns livros dele antes.

 

Para recuperar a falha cometida, passei a indicar seus livros, em especial, A montanha encantada dos gansos selvagens. E é dele que vou falar na coluna desse mês.

 

Quem leu a minha coluna de dezembro 2003 deve pensar que eu me sinto atraída pela temática morte. Sinto sim, pois assim como Heidegger penso que

 

“a morte pertence à própria estrutura essencial da existência. Ela não é um acidente, não vem de fora. A existência humana é um ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode). Assim que um homem começa a viver, tem idade suficiente para morrer. Não caímos de repente na morte, porém caminhamos para ela passo a passo: morremos a cada dia.” (apud MARANHÃO, 1987, p. 69).

 

Evidentemente que não recebo a morte com alegria, pois é sempre dolorido o distanciamento temporário de uma pessoa amada (temporário, pois acredito na vida após a vida). No entanto, esforço-me para “enxergar” a morte com naturalidade e é essa naturalidade que eu quero destacar no livro do Rubem Alves.

 

Essa obra narra a história de alguns gansos selvagens (gansos selvagens?). Sim gansos selvagens são diferentes de gansos domésticos, conta o autor bem no começo do livro: “gansos domésticos têm medo de voar, não gostam das alturas, preferem viver fechados em cercadinhos de tela, desde que seus donos lhes dêem milho e verdura picada.” (p.7). Os gansos selvagens dessa história voam livres, mas sempre preocupados com os caçadores e suas espingardas. Um dia nasceu de um ovo um ganso muito pequeno que recebeu do pai o nome de “cheiro-de-Jasmim.” Por quê? “É porque todo mundo que sente o cheiro de jasmim sorri feliz... Quero que meu filho seja feliz. Quero que ele faça os outros felizes.” (p.14). Nessa comunidade de gansos havia um costume muito interessante, “quando o sol ia se pondo” os velhos se reuniam para contar histórias (adorei isso!). O assunto principal era as misteriosas montanhas mágicas que eles só conseguiam ver de longe. Os velhos desejavam pegar nessas montanhas, durante a primavera, “um fruto encantado, vermelho como o sol e que, se comido, fazia com que os gansos fossem jovens para sempre. Até os velhos e aleijados voltavam a ter os corpos de outrora, perfeitos, fortes, belos... E, sobretudo, lá não havia caçadores.” (p.17). “Cheiro-de-Jasmim” observava tudo com muita atenção e na medida em que foi crescendo foi percebendo que seu pai estava ficado mais leve e isso significava que estava aproximando o dia de sua partida. “Mas, por que partir se a vida é tão boa?” “Quando se fica mais leve [...] fica difícil viver aqui. A comida, muito pesada, faz mal. O ar, muito pesado, faz o corpo cansar. O frio dói nos pulmões [...]” (p.19). E assim transcorreu o tempo, até que um dia o pai de “Cheiro-de-Jasmim” precisava partir e “o vento veio de mansinho, sem nenhum barulho. O velho ganso nem precisou bater as asas. Ele estava leve, leve... E ele partiu para a montanha encantada...” (p. 21).

 

A forma com que Rubem Alves trata a morte e a separação daqueles que se amam é de uma incrível leveza. Essa perspectiva da morte não permite ao pequeno leitor sublimar a dor e a tristeza da perda, mas o consola se ele estiver passando por uma situação semelhante.

 

Para terminar quero contar que o livro “A montanha encantada dos gansos selvagens”, trás na primeira página a seguinte frase: “estórias para pequenos e grandes”.

 

Ideia que concordo plenamente! Também penso que os adultos precisam desse livro e de muitos outros, pois são os mediadores das possíveis dores infantis. Quero dizer com isso que a postura dos adultos pode intensificar ou abrandar as angústias das crianças no momento de uma “perda”.

 

Não é incomum as crianças ficarem observando a reação dos adultos nos velórios (me desculpem, mas o que eu mais observo nos velórios são as crianças observando os adultos).

 

Os comentários delas, quando não são copiados dos adultos (foi para o céu, foi descansar...), são bem interessantes. Lembro-me da carinha da filha do meu primo, com 10 anos no velório dele. Uma carinha perceptivelmente aflita, quando eu a convidei para dar uma volta no quarteirão. Na maior parte do tempo mantive-me calada quando ela disse:

 

- Não estava gostando de ficar lá, as pessoas me abraçam e ficam olhando pra mim com cara de coitadinha!

- É que elas estão preocupadas com você! (na havia outro comentário)

 

Conclusão diária: infelizmente crescemos e perdemos a capacidade de ver a vida com os olhos das crianças!

 

Obrigada Rubem Alves!

 

Referências

 

 

ALVES, Rubem. A montanha encantada dos gansos selvagens. São Paulo: Edições Paulinas, 1987. (Coleção Estórias para pequenos e grandes).

 

MARANHÃO, José Luiz de Souza. O que é a morte. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Coleção primeiros passos).


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.