BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

LITERATURA PARA COZINHAR

Lembram-se do velho guerreiro Abelardo Barbosa, o Chacrinha? Ele tornou famosa uma frase que até hoje é muito utilizada: “Nessa vida nada se cria, tudo se copia”. Pois bem, acredito que tudo que é bom e valha a pena deve ser copiado e repassado. Por isso me apropriei do texto de Nina Horta, cozinheira e escritora, publicado no dia 10 de julho p.p., no caderno COMIDA, do jornal Folha de S.Paulo, o qual achei, simplesmente, fantástico.

 

Ele é maravilhoso em todos os aspectos: de conteúdo; de forma; mexe com todos os nossos sentidos; trata a literatura como um verdadeiro deleite; nos mostra como a criatividade é capaz de alterar o sentido de qualquer coisa e ainda nos desperta para a serendipidade, etc.

 

E o que vem a ser serendipidade?????? Deparei-me com essa palavra há muito tempo, no caderno de informática da Folha de S.Paulo e nunca mais a deixei de lado, pois ela é muito importante para nós que lidamos, diariamente, com a informação e o ensino. Resumidamente, se trata de um neologismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso. Atualmente pode ser considerado como uma forma especial de criatividade. Ótimas invenções surgiram dessa maneira. É o encontro casual ou fortuito de algo que não se encontrava. Se encaixa também quando você está pesquisando sobre algo, e, de repente encontra outra coisa que não esperava no momento e aí seu cérebro começa a funcionar de outro jeito, com outras ideias.

 

No texto, Nina Horta dá sinais de serendipidade e são esses sinais que o deixam mais palatável ainda. Adorei o texto porque ela fala e com muita propriedade, da importância da literatura na profissão de cozinheira que ela também exerce. E, como para nós, bibliotecários e professores, que temos como uma das principais ferramentas de trabalho a literatura, achei mais apropriado ainda. Pode ser um belo exercício para encontrarmos novas formas de cativar e conquistar os alunos para a leitura de literaturas.

 

Nina Horta começa assim: “Vivo dizendo aqui que para sermos cozinheiros precisamos ler não só livros de comida, mas romances, principalmente. Arranjei uma base científica para minha conversa mole. Adivinhem de onde vem? Do lugar mais inesperado, a neurociência!

 

Os estudos do cérebro mostram o que acontece nas nossas cabeças quando lemos uma descrição detalhada, uma metáfora evocativa, uma história. Nossos cérebros são estimulados e podem até mudar o nosso modo de agir.

 

Imaginem que palavras como “lavanda”, “canela” acionam respostas não só das partes processadoras de ideias, mas das partes que lidam com cheiros. “Perfume” e “café” fazem brilhar uma parte. Já ”chave” e “cadeira” deixam aquela mesma parte escura.

 

Adivinhem se não é por isso que nós, cozinheiros, que sabemos das coisas por intuição, nomeamos um canapé simples de ”trouxinha de papoula recheada de queijo de cabra da serra com cerefólio colhido no orvalho da madrugada na horta de ervas finas”. Achei mais ético escrever ”trouxinha com queijo”, para não manipular o cérebro dos clientes, mas não deu ibope.

 

“Papoula”, com esses dois “pes” estalando, a ilusão de um vício, a profundidade do “u”, a subida do “la”, ah, “papoula” é imbatível. É claro que minha explicação é tosca, não entendo nada de neurociência, estou só passando adiante o que dizem os cientistas.

 

Até entendi por que esses livros ”pornô soft” fazem sucesso. As mulheres sempre entram em carros com cheiro de couro novo, deslizam por sofás aveludados e roupa de cama acetinada. “Cinquenta tons de cinza”, cada um bombardeando o nosso cérebro a 200 por hora.

 

Tudo leva a crer que o cérebro não distingue entre a leitura de uma experiência e da experiência em si, na vida real – em ambas, as mesmas regiões neurológicas são estimuladas.

 

A leitura provoca uma simulação vivida da realidade. O que leva a crer que a leitura de ficção, com seus detalhes, descrição de pessoas e suas ações, nos oferece uma réplica rica da experiência verdadeira.

 

Olhem só, já é uma pequena explicação, talvez (não quero me meter em assuntos que não conheço), para a nossa mania atual de assistir a programas de comida na TV.

 

O cérebro nos engana, e pensamos que estamos cozinhando. “Não foi você que fez esse nhoque, seu ignorante, foi o Jamie Oliver!” Mas o marido sai de frente da TV feliz da vida com a mão que deu no jantar.

 

A literatura reconstrói nosso lugar no mundo, nos desenha, é um espelho para que nos vejamos melhor. E não são só as coisas que acontecem, os fatos, a informação exagerada a que estamos submetidos que nos formam.

 

A leitura de um bom romance é uma viagem visceral, é uma experiência, é um jeito de ter novos olhos e ouvidos. Somos capazes de captar por meio da literatura forças e energias que nos sacodem, de verdade.

 

Ler boa literatura, conviver com a arte nos faz crescer como seres humanos. A ciência do cérebro mostra que isso é mais verdade do que se imaginava”.

 

Pois é, ao ler esse texto pensei muito em nossos colegas bibliotecários e professores, educadores enfim, o quão necessário e importante seria se todos tivéssemos esse olhar e essa dedicação para com a literatura. Imaginem como as aulas, de todas as disciplinas, poderiam ser melhores e mais atrativas...

 

Ela coloca um fato muito interessante também, para o qual muitos especialistas em educação já se mostram preocupados e até já escreveram a respeito – Como a neurociência pode contribuir para a educação? Neurociência e educação; Neurociência na educação; Neurociência em benefício da educação; etc. E nós bibliotecários, já procuramos saber algo a respeito desse assunto? Já procuramos saber como a neurociência pode nos auxiliar no dia-a-dia da biblioteca?

 

Infelizmente é um fato corriqueiro e conhecido que são poucos os profissionais da educação que possuem alto ou bom índice de leitura, de boas leituras. Fico assustada quando pergunto a professores se já leram determinados livros e me respondem que nunca ouviram falar, ou então sugiro algum livro para determinado projeto e me perguntam: do que se trata????

 

Gostaria de citar também o que diz Silvia Castrillón em seu livro: O direito de ler e de escrever, mais precisamente o capítulo mudar é difícil, mas possível.  Nesse capítulo ela coloca as mudanças necessárias para ser um bom bibliotecário e eu citaria duas delas, fazendo um link com o texto de Nina Horta:

 

-  Um bibliotecário leitor: crítico e reflexivo. Leitor da realidade e leitor de livros que o ajudem a ler essa realidade. Não podemos continuar a aceitar que o bibliotecário não seja leitor. Todas as ações que conduzem a biblioteca a se tornar uma instituição que contribua para a mudança passam pela leitura. Sem ela é inconcebível um projeto que pretenda fazer da biblioteca um instrumento a serviço da democracia. Nenhuma pessoa, menos ainda um bibliotecário que trabalha com livros e leitura, deve sucumbir às pressões da vida cotidiana e renunciar a melhorar sua condição como ser humano, algo para o qual a leitura contribui como forma de transcender e de superar uma sobrevivência imediatista.

 

-  Um bibliotecário curioso, com desejos de explorar, de pesquisar, ainda que não seja obrigatoriamente um pesquisador, de buscar novas mudanças e soluções.

 

Como escreve Nina Horta, oxalá todo educador, principalmente os da rede pública, professores e/ou bibliotecários, sejam capazes de retomar a leitura de boas literaturas e por meio delas, ganhar forças e energia, que os sacudam, de verdade, conseguindo assim, serem melhores formadores e mestres.

 

“A verdadeira liberdade não se define por uma relação entre o desejo e a satisfação, mas por uma relação entre o pensamento e a ação.” (Weil, 1995)

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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?