BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA ESCOLAR - UMA PONTE PARA A TRANSFORMAÇÃO

Talvez o título ideal devesse ser: Livro - ponte para a transformação. Porém, como estamos tratando de bibliotecas, vamos considerar então que o primeiro contato da criança com o livro deva ser feito nas bibliotecas escolares.

 

É fato, infelizmente, que para milhares de crianças esse horizonte de leitura, que é o livro, é feito somente na escola e quando há, na biblioteca. Certo número de famílias, com um grau de educação mais avançado, ou melhor, com um conhecimento maior da importância da leitura, oferece livros logo nos primeiros anos de vida de seus filhos. Atualmente diria que já os presenteiam com tablet, Ipod e outras tecnologias, mas de qualquer modo proporciona possibilidades de leitura para seus filhos e estes vão se adequando a um formato de leitura que mais lhes der prazer.

 

Ultimamente tenho lido e ouvido muita coisa a respeito de literatura, de leitura e porque não dizer de bibliotecas. De como a leitura influencia ou influenciou a vida de alguns; qual o significado do ler e escrever para outros; o legado deixado pelos primeiros livros lidos, enfim, experiências alheias muitíssimo interessantes que valem a pena serem compartilhadas. Assim como também falar de meu primeiro contato com esse objeto de prazer chamado LIVRO.

 

Muitos podem ser os chamados mediadores de leitura, nessa ordem, mais ou menos: familiares, professores, bibliotecários, amigos, escritores, editores; porém, com certeza, são os três primeiros que maior influência exercerão na criança. Daí pularmos para a biblioteca escolar, onde quisera que esta sim fosse a ponte para as mudanças, tivesse o grande poder de transformação na criança e no jovem. Que maravilha se as bibliotecas escolares exercessem um verdadeiro fascínio nos alunos de hoje, principalmente diante de tantos outros atrativos “pirotécnicos”.... Isso é realmente um sonho, diria até, uma utopia. Mas....

 

Quem, como eu, gosta de ler e devora livros, sabe da importância e lembra com carinho do primeiro ou primeiros livros que teve em mãos. Lembro-me muito bem que fomos eu e mais dois alunos convidados para a leitura do primeiro livro. Contava com sete anos e minha professora, D. Armênia, me considerava aplicada, com voz boa e firme para realizar essa tarefa. Foi num dia especial, com a presença dos pais, direção da escola e ainda com direito a foto em jornal, lá no Grupo Escolar Marcos Gasparian, em Jundiaí, interior de São Paulo.

 

A emoção ficou gravada até hoje! Era o mesmo título e cada um de nós leu um trecho. Isso era para mostrar aos pais que já havíamos aprendido a ler, que estávamos aptos a passar para o 2° ano primário. Infelizmente não gravei o título do livro, mas era sobre uma semente que brotara e dera belos frutos, bem próprio para a ocasião. Aliás, essa professora deixou marcas indeléveis em quem teve a oportunidade de ter sido seu aluno. Era fantástica, era a verdadeira mestra. Acredito que essa foi a sementinha que ela, gentilmente, plantou em mim.

 

Como presente desse rito de passagem, meus pais me deram um outro livro e este sim eu guardei o título: A lhama Gracinha, que adorei porque nunca tinha visto esse animal e não sabia nada sobre ele. Era bastante colorido e mostrava como e onde a lhama vive. O interessante era que eu lia, relia, tornava a ler até quase decorar e saia contando para os colegas. Era uma viagem e tanto. Depois, aos poucos, em aniversários e Natal, fui ganhando mais livros: Alice no país das maravilhas; O príncipe e o mendigo, este ganhei de um vizinho, que se impressionou por eu gostar de ler; João e Maria e algumas outras fábulas; Reinações de Narizinho e ai comecei a ter contato com os livros de Lobato.

 

Quando meus filhos nasceram, eu costumava ler para eles e comprar-lhes livros de pano ou ainda de plástico para brincarem no banho. Sempre procurei estimular-lhes o gosto pela leitura.  

 

Outro exemplo muito gostoso de ler que lhes trago, encontrei na Revista Carta na Escola, n.80, de outubro de 2013. É da escritora carioca Sandra Pina, presidente da Aeilij - Associação de Escritores e ilustradores de Literatura infantojuvenil. O título do artigo é Encontro marcado e está na pág.66. Convido a lerem o texto integral, mas citarei alguns trechos mais relevantes pra mim: “Foi amor à primeira leitura! ...Quando vi o livro pela primeira vez, fiquei um pouco assustada. Eu e meus colegas de turma, é claro. Era um livro pequeno, é verdade, numa edição de bolso, com pouco mais de cem páginas, mas sem nenhuma ilustração. E a figura da tia Zezé, minha professora na época, foi fundamental. A tia Zezé era uma apaixonada por livro e cultivava um canto de leitura dentro da sala de aula. Quem quisesse podia trazer um livro para emprestar para os colegas. Ninguém era obrigado a pegar o livro, mas quem lia uma história e gostava, fazia tanta propaganda na turma, que acabava criando uma verdadeira “lista de espera”. Por outro lado, se qualquer um de nós devolvesse o livro dizendo que não havia gostado, ele ficava num canto esquecido até desaparecer do pequeno cesto.” “O resultado dessas doses homeopáticas de leitura foi uma turma completamente envolvida. Se hoje sou escritora, devo esse encantamento à minha professora Tia Zezé.”

 

Vejam que não é muito difícil seguir o exemplo da Tia Zezé, até mesmo em turmas de Ensino Médio. Por que não ler para os grandes também?????? Na Escola Estadual onde trabalho, tem uma professora de Língua Portuguesa que conseguiu conquistar e “segurar” seus alunos dessa forma. Ela até “interpreta” a leitura para eles, que a ouvem com bastante atenção. Após a aula, alguns tomam a iniciativa de pedir o livro emprestado. Pronto, o pavio foi aceso...

 

No final de Outubro terminei de ler o livro: As memórias do livro: romance sobre o manuscrito de Sarajevo, de Geraldine Brooks, da Editora Ediouro. Livro fantástico que mistura ficção com a realidade, além de nos trazer um pouco da história de anos de guerra civil na Bósnia. Os protagonistas são uma conservadora e restauradora de livros australiana e um bibliotecário muçulmano, e o objeto principal, o miolo da história é simplesmente um livro, a Hagadá de Saravejo. É uma história emocionante, repleta de ricos detalhes, trazendo casos de intolerância, preconceito, morte, e por amor ao livro, tudo isso foi combatido. Lendo-o percebia quanto o livro e a biblioteca eram importantes nesse contexto. E hoje, qual a importância que damos a esses componentes da educação, crescimento e desenvolvimento do ser humano?

 

Seguindo essa linha do poder de transformação das pessoas, por meio da leitura, tive o prazer de conhecer as histórias dos escritores Ricardo Ramos Filho e Luiz Ruffato, que participaram do Projeto Viagem Literária, aqui em São Bento do Sapucaí, onde moro, promovido pela Secretária de Cultura do Estado de São Paulo, em parceria com a Prefeitura.

 

Os encontros se deram na Biblioteca Pública nos dias 6 e 7 de novembro último. Ricardo Ramos Filho, que é neto de Graciliano Ramos, se encontrou com alunos do 4°e 5° anos do E.F.I e como sempre ocorre, na hora das perguntas ao escritor, queriam saber como ele começou a ler. O que ele contou deixou os alunos bastante intrigados. Disse-nos que ele e seu irmão mais novo tinham que ir para cama as 20h, porém se quisessem ficar acordados por mais uma hora, poderiam ficar lendo. Pois bem, após esse período seus pais passavam para desejar boa noite e apagar as luzes. Eles aguardavam um tempinho, acendiam o abajur e retornavam a leitura, pois como nos contou, leitura não faz barulho e assim, tinha noite que viravam lendo até o amanhecer. Dessa forma foi gostando cada vez mais de ler sem contar, é claro, com a influência de seu avô, grande romancista e de seu pai, também escritor. A meninada gostou muito dessa historia.

 

No dia seguinte foi a vez de Luiz Ruffato se encontrar com alunos do Ensino Médio do período noturno e uma pequena plateia de adultos. O encontro foi bastante agradável, descontraído, com diversas e variadas perguntas por parte dos alunos e claro que veio à tona, pelos adultos, questionamentos sobre o seu discurso de abertura da Feira de Livro em Frankfurt, Alemanha, no dia 08 de outubro p.p. Sem entrar no mérito do discurso, cujo texto integral, caso queiram, é facilmente recuperado pela internet, saliento o que considero o mais importante e que ele havia citado e explicado aos alunos: que ele acredita no papel transformador da literatura, daí continuar a escrever. Destacou que gostaria muito de saber que seus livros tivessem ou tenham sido motivo de mudança para alguém, que sua escrita possa ajudar ao outro a se transformar. No texto ele coloca que quer afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. “Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora”. O curioso na trajetória deste escritor é que a leitura modificou, de fato, sua vida, pois sendo filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, hoje tem suas obras publicadas em cinco países.

 

Ainda que encontremos muitas dificuldades para a realização dos trabalhos numa biblioteca, até mesmo em sala da aula, pudemos observar que ainda há ações simples para serem colocadas em prática. Não podemos e nem devemos perder de vista o foco dos objetivos e do papel da Biblioteca Escolar.

 

Finalizando, encontrei um texto que é mais um exemplo de como a Biblioteca Escolar pode ser, realmente, uma ponte para a transformação do indivíduo, uma vez que detém as maiores possibilidades de contato com o mundo da leitura.

 

O texto foi extraído da Revista Pedagógica, v.19, n.113, set./out.2013, págs.34-35, sobre leitura, de Angelina Carvalho - Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE)- Fac. de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal.

 

“Alguns até já sabiam ler um pouco; outros reconheciam palavras, ou liam outdoors na rua. Mas o que eles queriam mesmo, era saber ler como qualquer adulto.

- Professora, vais ensinar-nos a ler de verdade, como os crescidos? Perguntavam, de olhos expectantes, no primeiro dia de aula do 1° ciclo.

No fim do ano, já sabiam “ler de verdade”, já podiam aceder sozinhos a pequenas histórias, decifrar aventuras, reconhecer frases e letras de canções. Mas no anos seguintes queriam mais, queriam embrenhar-se na leitura de pequenos livros, ir embalados na descrição de mundos desconhecidos, mas reconhecíveis. Acediam a um universo que até ali lhes parecia reservado aos adultos.

Alguns, porque se tratava de um contexto rural, muitas vezes pobre na oferta de oportunidades e situações de leitura, até se enchiam de importância a ajudar adultos a decodificar alguma informação escrita. Decidi avançar um pouco mais, até porque era um grupo coeso e solidário, com dificuldades, mas em que ninguém ficava para trás, e falei-lhes de outro tipo de histórias.

Falei-lhes dos diários, e de como também eles podiam ter o seu diário. Já tínhamos um Diário de Turma, mas um diário individual era diferente. Li-lhes um pouco do “Diário” de Sebastião da Gama e gostaram. Falei-lhes também do “Diário” de Anne Frank. Aí ficaram em suspense, queriam saber mais coisas. Contei-lhes sobre o que se passava na Alemanha naquele período, fizeram perguntas, muitas perguntas. Incrédulos, estarrecidos, queriam saber mais pormenores daquela menina, o que lhe teria acontecido, como se entretinha enquanto estava escondida, se tinha amigos, como brincava...

Li-lhes alguns pequenos excertos. Depois, apesar de algumas solicitações para que lessem mais, avançamos para outras tarefas. Alguns dias depois, estava eu a trabalhar na biblioteca da escola, vi o Bruno, franzino, de olhos curiosos, um dos meus alunos mais intervenientes, na fila para requisitar livros. A seguir ouvi-o argumentar com a minha colega, responsável pela biblioteca: Posso requisitar este livro? E mostrava um papel onde estava escrito, por ele, “diário de Anne Frank”. A minha colega disse-lhe que não era boa ideia, porque era um livro muito grande.

- Mas eu não me importo que seja grande, eu gostava mesmo era de ler esse...

- Mas é um livro difícil para um menino que só anda na terceira classe. Acho que não vais gostar, vais cansar-te a meio. Podias levar outro.

- Mas eu queria era o diário de Anne Frank, porque queria saber mais coisas sobre ela...

- Não, não podes levar esse. Só os meninos mais crescidos. Mas tenho aqui outro, que é mesmo para tua idade, que é a história de um gato da Anne Frank. Leva-o, que eu acho que vais gostar.

Vi o Bruno encolher os ombros, contrafeito, e aceitar, resignado, o livro que lhe apresentavam. Não disse nada, mas, três dias depois, no fim da aula, entregou-me o livro do gato Mouschi: “pega professora, já li. Mas o que eu queria mesmo era ler o diário de Anne Frank .Tu disseste que tinhas um. Não mo podes emprestar?”

E foi assim que,no dia seguinte, eu levei o livro e o emprestei ao Bruno. Alguns dias depois, a Fátima, perguntava-me com ar tímido: ”Eu também posso levar este livro?”

E depois foi a Marília, o Antônio, o Eduardo, a Carla, a Joana e todos os outros.

Nunca percebi se todos tinham lido o livro todo, nem lhes perguntei. Por vezes, alguns faziam alusões a um acontecimento da história, um episódio que os tinha tocado, mas não sei exatamente se o tinham lido ou ouvido comentar a algum dos colegas. O que sei, de facto, é que a curiosidade pelo livro, o interesse por um acontecimento, a partilha de uma mesma história, uma eventual entreajuda, podem ter dominado as dificuldades de leitura de alguns. Mas a magia da leitura aconteceu, cresceu e galgou as barreiras do que está estipulado, ou previsto, nas classificações etárias ou num qualquer plano nacional de leitura.”

 

E assim, aos poucos, com muita calma, carinho e atenção, poderemos ajudar na formação de uma identidade leitora em cada um de nossos alunos, crianças ou jovens.


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?