BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

É DIFÍCIL MUDAR...

Tenho costume de guardar textos, anotações, artigos, pensamentos, que julgo interessantes e que valham a pena, pois posso utilizá-los oportunamente. Pois bem, esse é um dos casos que extraí da Revista Thot, n.62, de 1996, cujo texto transcrevo a seguir, pois é sobre o teor dele que gostaria de abordar no que tange ao nosso objeto – Biblioteca Escolar.

 

“Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula onde havia uma escada com um cacho de bananas no topo. Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, um jato de água fria era jogado nos que estavam no chão. Depois de alguns banhos frios, cada vez que um macaco subia a escada para pegar as bananas, os outros o pegavam e batiam nele. Em pouco tempo, nenhum macaco se atrevia mais a subir a escada, apesar da tentação das bananas.

 

Então os pesquisadores substituíram um dos macacos. A primeira coisa que o novato fez foi subir a escada. Mas foi pego pelos outros, que o surraram. Algumas surras depois, o novo integrante do grupo não subia mais a escada.

 

Um segundo substituto foi colocado na jaula e passou pela mesma dura experiência, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo da surra ao novato.

 

A mesma coisa aconteceu com o terceiro substituto. E também com o quarto, até que o último dos cinco integrantes iniciais foi substituído. Assim, ficaram na jaula cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.

 

Se fosse possível perguntar a eles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza, a resposta mais frequente seria:

 

NÃO SEI, MAS AS COISAS SEMPRE FORAM ASSIM POR AQUI.“

 

O que será que tem a ver esta experiência com biblioteca escolar????? Pois bem, quando me deparei com este texto, me acendeu o sinal de alerta, pois é exatamente o que estou vivenciando, ouvindo e lendo nos últimos três anos, ou seja, o botão do DEIXA COMO ESTÁ, PRA VER COMO FICA foi acionado.

 

Infelizmente esse é o mecanismo mais utilizado, pra não dizer o único, na esfera pública e em alguns outros locais também. É impressionante como é difícil sentir, perceber, notar alguma mudança, positiva, nas escolas, principalmente nas públicas. Nas bibliotecas então, o que há de se falar?

 

Mesmo estando um pouco afastada do burburinho paulista, onde ocorrem, ou pelo menos deveriam ocorrer as grandes movimentações na área de biblioteca, onde quase sempre nasce as ideias para as mudanças, onde a tecnologia chega mais rápido, etc., posso perceber que houve um stop nessa movimentação.

 

Recentemente, em conversa com uma fiscal do Conselho Regional ela me narrou sua frustração com seu trabalho de fiscalização de há cerca de 3 anos pra cá. A impressão que fica é que após a promulgação da Lei 12.244/10, que obriga a toda escola pública e privada ter biblioteca com um acervo de, no mínimo, 2 exemplares por aluno matriculado e também possuir um bibliotecário devidamente habilitado para responder pela mesma, as escolas retrocederam, isto é, criaram outros mecanismos para não cumprirem a lei. Nas escolas públicas proliferam as chamadas Salas de Leitura, até mesmo para abrigarem os professores readaptados, que são em números bastante expressivos. Não os tenho com base em estatísticas e sim dos que me escrevem pedindo ajuda e das escolas que conheço.

 

Nesse ano foram criadas, pelo Governo do Estado, mais escolas de período integral, equipadas com Sala de Leitura e não Biblioteca. Ainda nessa semana tive oportunidade de conhecer uma dessas escolas, que foi inaugurada em fevereiro. Perguntei a uma professora sobre a Sala de Leitura e ela me disse que receberam uma professora readaptada, da disciplina de línguas para ser responsável pelo espaço, mas que ainda não tem o acervo adequado e completo para poder receber os alunos.

 

Ora, então não seriam estas escolas de período integral, as mais indicadas para ter uma biblioteca estruturada adequadamente e funcionando a pleno vapor? Onde o aluno poderia desenvolver seus estudos de forma correta, completa e com os recursos informacionais que o possibilitasse resgatar os conteúdos recebidos na sala de aula? Essa escola está dotada de uma bela quadra esportiva, coberta; de um bonito e grande refeitório; de uma agradável sala de informática; de bons banheiros; rampas e todo o necessário para acessibilidade geral e de uma modesta sala de leitura, sem acervo.

 

Parece mentira, mas infelizmente é a mais pura e cruel verdade.

 

É impressão apenas minha ou a Lei 12.244/10 não está sendo devidamente levada a sério????  Não podemos nos esquecer de que a Lei prevê até 2020 para que seja implantada em sua totalidade. E como ficamos se estamos em meados de 2014 e faltam apenas 6 anos? Vide o exemplo da Copa do Mundo. Nesse país, o urgente e necessário é postergado, fica sempre pra depois ou em cima da hora, se houver dinheiro suficiente e nunca é o bastante!!! Teremos tempo suficiente para atender aos ditos da Lei? E o que acontecerá se isso não for cumprido pelas instituições? Alguém arrisca algum palpite?

 

De acordo com a fiscal com quem conversei, não há registro de escolas que tenham criado bibliotecas em função da nova legislação, no Estado de São Paulo. Eu acredito que, se em São Paulo a situação é essa, não deve ser diferente nos demais estados do país, principalmente porque, em muitas instituições de ensino, existem bibliotecas por uma exigência do MEC, principalmente no caso das Instituições de Ensino Superior. Raros são os gestores na área de educação, que acreditam na seriedade e necessidade dos trabalhos de uma biblioteca e direcionam investimentos para esse espaço de serviço.

 

Em dezembro último, participei do 6° Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, em São Paulo, que por sinal foi excelente. Tive oportunidade de conhecer vários profissionais atuantes e outros ainda em busca de espaço; conhecer outras realidades e outras experiências, principalmente na esfera pública; reencontrei amigos de faculdade que, como eu, continuam na lida pela profissão e por acreditar que somente assim conseguiremos ajudar para que mudanças positivas possam ocorrer.

 

Porém o que pude constatar também, infelizmente, é que muitas ações não acontecem devido à resistência de gente que não quer MUDAR, ALTERAR, ARRISCAR, OUSAR, etc. Certo é que qualquer mudança de atitude, de pensamento e ação, gera trabalho, desgaste e até perdas, em alguns casos. Mas em se tratando de livro, literatura, leitura, aprendizado, educação, mudanças são inevitáveis, primordiais, necessárias e urgentes e elas se iniciam com uma mudança de postura íntima, quero dizer, das pessoas que trabalham com esses elementos.

 

Quem forma bons leitores, bons escritores, bons cidadãos é o trinômio: família, escola e sociedade. A família com seu papel de educação básica dos valores essenciais para a formação da moral do indivíduo e oferecendo um ambiente favorável à leitura e escrita; a escola, alfabetizando, com continuidade em todos os níveis de ensino, devendo incluir a prática de leitura e escrita em todas as disciplinas, não somente na de Língua Portuguesa. Cabe a esta instituição também a criação e manutenção de bibliotecas aptas a oferecer todo suporte necessário ao ensino-aprendizagem de seu corpo docente e discente. E cabe à sociedade oferecer condições para que todo e qualquer cidadão possa ser incluído em suas atividades culturais, permitindo-os aprender, crescer, se desenvolver, tornando-se críticos e cônscios de seus deveres e direitos.

 

Poderíamos dizer que, atualmente, essa tarefa se encontra um pouco conturbada, discutida, confusa, mas ao mesmo tempo, alvo de muitas e importantes reflexões, em face das manifestações públicas em todo o país. Essas questões, como são de interesse geral, deveriam ser apresentadas e debatidas nas escolas e, por que não, no espaço da biblioteca? Afinal, é do caos que surgem as grandes ideias.

 

De acordo com os parâmetros para o Aprendiz do século 21 fornecido pela AASL - American Association of School Librarians, a leitura é uma janela para o mundo e uma das principais competências para a aprendizagem, o aprimoramento pessoal e o lazer. Competência essa que o indivíduo usará por toda a sua vida e não apenas na idade escolar. A leitura vai além da decodificação e da compreensão, abrangendo as interpretações e o desenvolvimento de novos entendimentos. E isso só poderá ser alcançado na escola, com o apoio de uma biblioteca.

 

De um outro texto que estava aguardando ocasião propicia, extraio um pequeno trecho pois o julgo bastante apropriado. O texto foi escrito por Naercio Menezes Filho para o Jornal Valor Econômico, em 15-06-2012, e tem como título COMO MELHORAR A EDUCAÇAO? Qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência:

 

"Esta ficando cada vez mais claro que um dos principais problemas que a sociedade brasileira enfrenta hoje em dia é a péssima qualidade da educação que é oferecida na grande maioria de nossas escolas públicas e privadas. Isso tem consequências muito importantes, passando pela produtividade de nossas empresas até a criminalidade que nos afeta todos os dias.

 

Apesar de grande parte da sociedade já ter compreendido que a educação é mais importante para a nossa competitividade do que a proteção de setores específicos da nossa economia, há uma dificuldade muito grande para melhorar a qualidade da educação. Nossos avanços, apesar de estarem acontecendo, são muito lentos

 

Neste ritmo, demoraremos décadas para alcançar o nível educacional de Shangai, na China, por exemplo. Será que devemos nos resignar e deixar a educação ir melhorando lentamente ao longo dos anos? Ou será que há mecanismos para aumentar a qualidade mais rapidamente? O que mostram as evidências?".

 

O que podemos perceber é que houve pouquíssimas alterações no quadro que havia há 2 anos, certo? E quando penso em mudanças, não são somente as provocadas pelo governo e sim as nossas mudanças internas e em nossos ambientes de trabalho, mesmo porque não devemos e nem podemos aguardar as ações, quase sempre atrasadas, diga-se de passagem, vindas do poder público. É necessário que tomemos ciência da situação e busquemos novas saídas, novas estratégias para as dificuldades encontradas.

 

É difícil mudar quando tantos nadam contra a maré... é difícil sair da zona de conforto, coçar a cabeça, olhar para novos ângulos, inventar, provocar revisões radicais de procedimentos... mas é preciso fazê-lo.

 

"Se você jamais se move, não espere um empurrão."

(Malcom S.Forbes)


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?