BIBLIOTECA PÚBLICA


  • Discussões tendo como tema a Biblioteca Pública: seus objetivos e suas ações.

UM DEPOIMENTO SOBRE OS AGENTES DE LEITURA SBC

Relógio

As coisas vão

As coisas vêm

As coisas vão

As coisas

Vão e vêm

Não em vão

As horas

Vão e vêm

Não em vão

Oswald de Andrade

 

 

Não acredito que a vida seja feita de escolhas simples. Escolhas se cruzam com escolhas de outras pessoas, daí seguem um enredamento de múltiplos caminhos, tornam-se complexas, ricas, e não raro perigosas.

 

No período de 2010 a 2012 tive a oportunidade de estar Chefe de Divisão de Biblioteca Pública da Secretaria de Cultura de SBC, função e nomenclatura pomposas (fiz questão de colocar por extenso), cheia de surpresas, decepções, e que na somatória me trouxeram alguma satisfação, muitas dúvidas e um tanto considerável de experiências e ensinamentos.

 

Cometer falhas e atinar acertos é contingências da ação, não me cabe descrever o inventário dessa trajetória, o julgamento é externo, implacável, muitas vezes conivente, outras cruel. O que fica marcado são as dores e os prazeres íntimos, inexplicáveis ao juízo alheio.

 

Dentre as experiências mais ricas, que carregam este misto dor e prazer, está o Projeto Agentes de Leitura. Em 2010 fui para Brasília (junto com o Chefe de Divisão de Difusão à época, João Pires) para fazer o primeiro contato com o intuito de estabelecer o convênio MINC/PMSBC, um pacote de projetos vinculados ao programa Cultura Viva.

 

Começava ali a ideia de colocar agentes de leitura nos subúrbios de São Bernardo do Campo.

 

A Constituição de 1988, avanço inequívoco na história do país, procurou colocar o município como protagonista na construção e aplicação de políticas públicas, nada mais claro e efetivo dentro de um estado federativo, onde as palavras pacto e descentralização são ingredientes fundamentais quando fogem à mera retórica.

 

Políticas (públicas) culturais que preencham de sentido as palavras descentralização e pacto é a expressão viva das intenções da Constituição 1988, o tal cumprimento da lei maior. Podemos considerar que o Agente de Leitura parte de um programa maior do MINC, denominado Cultura Viva, é parte dessa expressão viva.

 

Em meados de 2012 pedi exoneração do cargo de chefia, mas fiz questão de continuar organicamente ligado ao Projeto Agentes de Leitura, por acreditar no dinamismo e nas várias possibilidades de mediação e consequente formação de leitores que ele poderia alcançar.

 

Um programa ou projeto apenas na palavra, no papel, não está garantido, por mais óbvia que possa parecer essa frase, o fato é que a execução sempre nos surpreende, nos mostra caminhos novos, dissipa ilusões, fomenta outros sonhos, executar é discurso direto. Os Agentes de Leitura não fugiram dessa regra, ao contrário, de tão vivos, eles a tornaram mais fora do controle do que podíamos imaginar.

 

E crivo a palavra “podíamos”, crivo e subscrevo, pois quem viabilizou a implantação do Projeto Agente de Leitura em São Bernardo do Campo foi uma equipe, foi um plural de pessoas, de ideias, de posições, de interpretações, que dividem alegrias e angústias. De alguma forma todos chegaram juntos até aqui (nas mais diversas contradições), mesmo quem ficou pelo caminho.

 

Foram angelas, thiagos, reginas, alexandres, jozys, eraldos, elianas, marleys, dalvas, elaines, camilas… advogados, historiadores, professores, bibliotecários, sociólogos, de múltiplas origens e destinos.

 

Creio que eu vá esquecer nomes, não queria, mas acontece por isso os coloquei em letras minúsculas e no plural, pois os relatórios lidos e elaborados, os pagamentos checados, as reuniões e as formações exaustivas, etc., foram sempre de maneira plural, nunca no singular, portanto não cabe personalismo.

 

E então os agentes de leitura, e aqui reitero as letras minúsculas e o plural, pois apesar de muitas vezes estarem sozinhos nas ações de leitura que fizeram e fazem nos bairros de São Bernardo do Campo, nunca estão sozinhos na essência e nos fluxos do projeto, projeto que privilegiou desde o início o coletivo, a ação junto ao outro e com o outro.

 

São os agentes de leitura no seu papel de mediador que jogam as luzes e as trevas nos gozos e tragédias das políticas de leitura.

 

O mediador é a prova dos nove, como dizia o poeta Oswald, ele transforma o papel, a palavra do projeto, não em estatísticas, não em fotos e imagens bonitas para publicização, nas suas plenas carências e potências, ele transforma projeto em realidade, desvelando os territórios e olhando, sem intermediários, ilusionistas e atravessadores, para as pessoas.

 

Não vou citar nomes dos agentes de leitura, não que eles sejam anódinos ou que sejam massa homogênea, pois é na diversidade e complexidade que eles representam que está o sentido desse projeto, mas correria novamente o risco da omissão e de esquecimento.

 

Então, os agentes de leitura são todos os jovens que formaram e conformaram o Projeto Agentes de Leitura SBC de 2010 até o presente. Diferentes, contraditórios, complementares, críticos, agentes vivos.

 

O agente de leitura é o mediador, esse é o fundamento, o mediador desencadeia o processo sem controle, que não cabe em qualquer estatística de qualquer projeto ou programa, o “descontrole” apesar de supostamente tripudiar sobre números e resultados pré estipulados é a garantia mais efetiva da qualidade e dos fins de qualquer política cultural.

 

Os agentes de leitura fazem avançar o sinal entre o público e o privado, são ao mesmo tempo moradores e agentes culturais de seus locais, aprofundam o dialogo, recebem, trocam, medeiam e são mediados, a cultura opera sempre em duplo e dúbio sinal, o que é unívoco é a barbárie.

 

Em 2014 o Governo explicitou a intenção de municipalizar o Projeto Agentes de Leitura, São Bernardo do Campo dará um passo enorme no sentido de fazer cumprir as premissas estabelecidas pela Constituição de 1988.

 

Que os agentes de leitura (coletivo e plural), e suas experiências compartilhadas, sejam a base dessa consolidação, que a cidade abra mais um veio na busca das suas mais profundas necessidades, e não esqueçamos que a leitura é, antes de tudo, um direito.

 

Parece um fim de ciclo, mas é um eterno reinício, de minha parte agradeço plenamente às adversidades, às contradições e seus artífices, não há nada mais insuportável e improdutivo do que um ser humano que carrega as ideias e os olhares congelados, a dúvida seguida de ação e a nossa maior garantia de construir novas saídas e horizontes possíveis.

 

Estando perto ou distante dos próximos passos dos agentes de leitura, tenho certeza que navegarei na mesma sintonia, no mesmo rio, para o mesmo fim.


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RICARDO QUEIRÓZ PINHEIRO

Bibliotecário - Trabalho pela democratização da informação e do conhecimento. Formado em biblioteconomia, 1994 na FESPSP, atuo em biblioteca pública há 15 anos em São Bernardo do Campo.