OBRAS RARAS


NEM TODA JCB É JOCKEY CLUB BRASILEIRO OU JOURNAL OF CELL BIOLOGY

Com certeza meus colegas colunistas não estão tendo o mesmo problema que eu: como iniciar uma coluna mensal assim, do nada? Assunto não falta, mas começar pelo começo nunca foi mesmo a minha especialidade.

Resolvi então começar pelo fim (será?). Começarei pelo geral dessas bandas de cá, nesse nordeste que em nada se parece com o nosso em fevereiro, a não ser pela visão de alguns alunos queimadinhos correndo eventualmente pelo campus. Correndo do frio.

Providence, em Rhode Island, EUA, era tradicional e principalmente conhecida pela existência da Brown University e da Rhode Island School of Design (RISD). Depois vieram o seriado de TV a cabo com o nome da cidade, o trem rápido, e com eles aluguéis exorbitantes. Localizada entre Boston e Nova Iorque, Providence e suas praias nos arredores certamente ajudam a dar nome ao aqui conhecido "The Ocean State". É famosa também por outros motivos, mas deixa pra lá. Historicamente, apesar da nuvem puritana que prevalece nessa Nova (sic) Inglaterra, é até um lugar de bastante liberdade. O inglês Roger Williams (1604-1684?), fundador do estado, é o controversista responsável pela introdução na América de ideais religiosos menos rígidos. Sua vinda para a área de Boston em 1631 não passou despercebida pela classe dominante religiosa de então, pronta para deportá-lo poucos anos após sua chegada. Numa retirada estratégica, veio parar em território amigo e seguro dos índios Narragansett, com quem não apenas fez amizade mas também comprou terras e fundou um povoado de nome Providência, em agradecimento a Deus por ter sobrevivido. (Bons tempos esses em que eram os índios a vender terra; hoje lutam para existir). Williams se tornou governador da colônia em 1654, aceitando imigrantes de todas as religiões. Seus descendentes contribuíram para a independência da colônia e para o estabelecimento de um estado independente mais tarde. Credita-se à história o fato de todos sorrirem mais nesse pedaço de chão.

Afiliada à Brown University e dentro de seu campus existe uma pequena biblioteca de nome John Carter Brown. Sua fama, entretanto, ultrapassa os limites nacionais. Iniciada em 1846 com o nome Bibliotheca Americana, a coleção particular que se transformou na JCB inaugurou o atual prédio em 1904 com um acervo de 10 mil volumes. Seu objetivo desde sempre: colecionar documentos relacionados às Américas no período colonial, ou seja, tudo o que foi publicado até 1830 aproximadamente sobre ou em qualquer lugar das Américas. Estima-se a coleção hoje em 50 mil documentos raros e 16 mil fontes de referência. Expansão européia e viagens para o continente americano, Geografia e Antropologia das Américas, características sociais e políticas das colônias, aspectos religiosos, comportamento das nações indígenas à chegada dos europeus, todos esses assuntos se encontram muito bem representados, em várias línguas.

Nosso Rubens Borba de Moraes, o mais conhecido bibliógrafo brasileiro na área de livros raros, disse certa vez ter a JCB a melhor Brasiliana do período colonial dos Estados Unidos. É bem verdade que ele disse "talvez", como bom diplomata que era, mas para esse período da nossa história eu não conheço outras coleções tão representativas e em tão bom estado de conservação. Acredito, mesmo, que a coleção brasileira da John Carter Brown possa ser comparada apenas a duas ou três outras: a da Library of Congress, a da Biblioteca Nacional do Brasil e a da Biblioteca José Mindlin - fato que só enobrece a Brasiliana americana em questão. Vale lembrar de que falamos do que foi publicado no e sobre o Brasil de 1500 a 1822, e do que se conhece a partir dos catálogos impressos e eletrônicos. Como o material por catalogar (isso vai ser assunto para uma próxima) é extenso, aqui como aí, quiçá alhures, pode ser que ainda tenhamos uma revelação de início de século, uma Brasiliana exemplar completamente desconhecida, mas acho difícil.

A JCB é uma biblioteca diferente de algumas outras do gênero em estrutura, administração e acervo, mas talvez sua assinatura seja o programa de bolsas de estudo, desenvolvido há 19 anos atrás pela atual administração. A cada ano, 25 pesquisadores de vários países são contemplados com bolsas que variam de 2 a 10 meses, a maior parte composta por pesquisadores de História e Literatura. Mais de cinco brasileiros já foram contemplados com bolsas. Critérios de seleção? Importância do projeto de pesquisa, qualificações do candidato e comprovação da necessidade de uso da coleção. Até agora, que eu saiba, apenas uma bibliotecária obteve bolsa. Com formação em Literatura Latina Medieval, ela no momento traduz do latim para o inglês um importante livro de história do domínio holandês no Brasil.

 
Rio Beberibe e Palácio de Friburgo ao fundo, em Pernambuco (por Franz Post, No. 38)

O Rerum per octennium in Brasilia...Historia (1647), de Caspar van Baerle (1584-1648), foi originalmente escrito em latim e possui traduções em português, holandês e alemão, apenas. O autor, nascido na Antuérpia e considerado um grande humanista do século 17, poeta, filólogo e historiador, escreveu sobre o governo de Maurício de Nassau em Pernambuco, aliás patrocinado pelo próprio príncipe holandês. Em comum com Roger Williams, além da contemporaneidade, teve a mudança de casa de forma inesperada: devido a lutas religiosas, o pregador calvinista Barleus (como é conhecido por nós) teve de se exilar na França por volta de 1620. Alguns autores, como nosso muito conhecido bibliógrafo especialista em domínio holandês no Brasil José Honório Rodrigues, não apreciam o tom solene do texto, mas é opinião geral a importância do livro para o estudo desse período da nossa história.

Mais falaremos sobre peças raras como essa num futuro próximo.
So long!


   330 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
DE VOLTA À RHODE ISLAND
Março/2003

Sem Ítens Anteriores



author image
VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.