LEITURAS E LEITORES


BIBLIOTECA E PAIXÃO: MAIS UM CASO DE AMOR!

Ler faz parte da apropriação cultural do ser humano, de sua constituição como sujeito, por isso o valor social da leitura tornou-se inquestionável nas civilizações, mas nem todos tiveram ou têm acesso a ela. Nesse contexto, as bibliotecas são protagonistas que podem possibilitar o acesso das pessoas à leitura, à informação e ao lazer.

 

Quando criança, não existia biblioteca na minha escola primária, embora tivesse uma professora que sempre me emprestava o livro que eu quisesse, sem me fazer qualquer recomendação para: não “estragar”, “perder” ou algo assim. Simplesmente, D. Shirley me emprestava e pronto! Ela confiava em mim, ainda que morasse na zona rural e precisasse viajar todo dia uns 30 km de charrete e de caminhão, com chuva, barro vermelho, pegajoso e fértil que é próprio das terras do norte do Paraná.  

 

Poucos anos mais tarde, morando numa típica cidade do interior brasileiro, em frente à única e principal praça, encontrei um parquinho com balanços, gangorras, escorregador em formato de foguete, ia lá brincar, mas um dia olhei do outro lado da rua e vi que havia um prédio: era Biblioteca Pública Municipal! Depois fiquei sabendo pelos colegas de parquinho que a gente podia entrar e ler gibis, livros.

 

Ao chegar lá, foi amor à primeira vista. Passei os anos finais da minha infância, depois toda a adolescência e parte da graduação universitária frequentando-a. Cada etapa de minha vida pessoal e acadêmica ela me oferecia coisas novas, diferentes, livros, jornais, literatura, ciências, biografias e aventuras geográficas e históricas. Além dos livros, cultivei amizades que permanecem em minha vida até hoje.

 

Fui frequentador assíduo, pois era sempre bem recebido lá; também porque ficava sabendo de novidades que chegavam, outras descobria a cada dia. Gostava de ficar entre as estantes, como se fosse num mundo à parte. Meu mundo. Apenas eu e os livros. A biblioteca era pública, mas naquele momento éramos os livros e eu.

 

Hoje, a biblioteca é uma das minhas paixões e sei que aquela primeira e singela biblioteca pública contribuiu para fortalecer essa minha paixão existencial. Constituiu-me como leitor, como cidadão e, principalmente, como ser humano. Não tenho dúvida que a biblioteca pública acessível à criança, ao adolescente faz a diferença na formação, nos rumos que a vida de uma pessoa pode tomar. Por isso a necessidade que ela esteja fisicamente perto da criança, em seu bairro ou região, que haja facilidade para acessá-la, quando quiser, assim como minha professora fazia com os livros que me emprestava da escola, assim, como a minha primeira biblioteca pública. 

 

Somos acompanhados por nossas paixões, ou melhor, somos nossas paixões. Em qualquer lugar que estejamos, as levamos conosco. Comigo, essa paixão, em particular, não me deixa visitar uma cidade sequer sem, ao menos, procurar por uma biblioteca e, se for possível, entrar nela, fotografá-la. Tem sido assim em cada localidade do Brasil ou exterior que eu visite.

 

Em 2014, em férias no Rio, passeando pelo centro fui ao Saara, área de comércio popular e ao caminhar pela Rua da Alfândega, turbulenta de imagens, cores e sons, me deparei com duas portas com estilo que se diferenciavam da arquitetura tradicional das lojas dali: grandes, iluminadas, blindex, olhei de relance: parecia uma livraria. Depois ao ver a identificação constatei que era uma biblioteca e, ainda, para crianças! Eu estava na Biblioteca Parque Estadual.

 

Foto1 – biblioteca/seção infanto-juvenil

 




Entrei e sai de lá horas depois, pois conheci todas as instalações e os espaços das bibliotecas: sim eram duas! Uma para crianças e outra para os adultos. Ambas interligadas por uma área interna a céu aberto, uma “praça” com bancos e uma inquietante e bela escultura de Waltercio Caldas. Nessa área, há um portão de acesso à biblioteca para quem vem pela Praça da República. Posteriormente, ao entrar na biblioteca destinada aos adultos, constatei que há outra entrada pela Avenida Presidente Vargas, nº1261.

 

Foto 2 – entrada pela av. Presidente Vargas





Há alguns anos, visitava o Rio e via aquele prédio fechado, em reforma, parecia abandonado e, ali renascia, como a ave mitológica, um espaço para todos os públicos. Fundada em 1873, por D.Pedro II, foi reinaugurada em março de 2014.

 

 A biblioteca Parque Estadual, centro do Rio, é um prédio moderno, arejado, bem iluminado, a gente fica querendo ficar tempo lá dentro. Foi um investimento de mais de 70 milhões entre os governos federal e local, que aponta para um pouco do que devem apresentar as grandes bibliotecas, ou aquelas que são referências para a cidade, bem como para o país. 

 

Foto 3 – área interna/seção adulto





A área interna é sofisticada, bem cuidada como deve ser uma biblioteca, diferente do que quase sempre vemos no país, ou seja, lugares improvisados, com apenas o mínimo para o funcionamento: cada espaço, cada equipamento tem sua função e foi pensado por profissionais de diversas áreas para se levar à leitura, à informação, ao lazer, como apresenta o site da Biblioteca (2016):

 

A renovação da BPE segue projeto de Glauco Campello, o mesmo arquiteto que desenhou nos anos 1980 o prédio que a biblioteca ocupou até agora. O projeto de ambientação arquitetônica e mobiliário é de Bel Lobo. O projeto de paisagismo é do Escritório Burle Marx, e sinalização é da Tecnopop. O monumento “Espelho antes do nome”, do artista plástico Waltercio Caldas, criado especialmente para o local, dialoga com o espelho d’água no pátio da biblioteca. O auditório do prédio principal recebeu o nome do antropólogo Darcy Ribeiro, cuja forte ligação com esta biblioteca já dura três décadas. No foyer do teatro Alcione Araújo – mais uma homenagem a outro grande intelectual – há um painel do coletivo Muda. (http://www.bibliotecasparque.rj.gov.br)

 

Se ainda não são possíveis bibliotecas como a Parque do centro do Rio em todos os lugares do Brasil, pelo menos que haja uma biblioteca como a que tive em minha infância: singela em seu espaço físico, mas acolhedora, com acervo à disposição para que meninos e meninas que a visitem, possam se apaixonar por ela, por tudo que a biblioteca pode representar na vida de uma pessoa!

 

Referências

 

http://www.bibliotecasparque.rj.gov.br/


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.