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MARIDO DE BIBLIOTECÁRIA – II: OS NAMORANDOS

Viajar ao exterior é algo sempre agradável, ao menos nos primeiro três ou cinco dias, depois começa incomodar. Normalmente, a cama, o travesseiro, o aquecimento (muito quente ao ponto de sauna). O ruim é quando você olha pela janela a neve que cai poética, feita flocos de algodão. Uma vontade de se refrescar, brincar com os flocos te invade. Um tipo de pensamento suicida que apodera sua mente transvestida de um lúdico e ingênuo desejo. A temperatura está a menos 10 graus, ao corpo a mente ilude sobre a sensação térmica.

 

Quanto a alimentação, dez dias depois da viagem, começa-se a refugar a comida local. O que começou como uma experiência alimentar e cultural se transforma em dolorosas garfadas. Bate saudade do arroz com feijão da mãe, e por incrível que pareça, até da sogra. A coisa se agrava com as autopromessas de, ao retornar, entrar em uma churrascaria ou se empanturrar com uma suculenta feijoada, ainda que você seja vegetariano.

 

Vinte dias então o limite é atingido. O frio, você anda pelas ruas e os pés doem, o corpo treme, sente-se armazenado em um frízer. Delírios acontecem quando as lanchonetes do MacDonalds parecem um oásis, diante das folias de pizzas a 1,90 euros, o aperitivo da tarde e do jantar, acompanhado de um calorzinho amigo que te assa por dentro e dá a falsa ilusão dos flocos de neves feitos de algodão caindo suave no lado de fora.

 

Novamente, renova-se as promessas alimentares para o Brasil, acrescidas de não comer mais pizzas por longos anos, e nem dar gorjetas para os entregadores. Estes não ficaram mais ricos com os trocados.

 

Rui (um típico marido de bibliotecária) encontrava-se absorto com estes seus pensamentos, quando sua mulher, Marli, o interrompe para apresentar um casal de conterrâneos que, por coincidência, realizavam a mesma viagem turística, só que em sentido contrário ao roteiro das cidades europeias.

 

Na conversa estabelecida entre os casais, e junto às trocas de impressões da viagem, eles vão indicando suas cidades de origem, no Brasil. Rui não quis perguntar, até por julgar não ter entendido bem, mas parecia que o homem era de uma cidade do interior de São Paulo, e a mulher moradora de uma cidade do interior de Minas Gerais. Devia ser o frio que gelava sua orelha e o cerébro. A mulher era mais falante, dizia que após os 50 e tantos resolvera cursar uma segunda faculdade, agora filosofia. Sentia-se uma jovem universitária. Já, o homem, aparentando uns 70 anos era jornalista aposentado.

 

Na mesa do restaurante do hotel, em um dia escuro (às 18 horas), com uma nevasca caindo sob temperatura de menos 12 graus, o melhor era ficar conversando amenidades, comparando as realidades vistas com as existentes, no Brasil.

 

Para Rui, a curiosidade martelava sua cabeça, necessitava esclarecer suas dúvidas, que se tornavam angustiantes a cada análise de possibilidades combinatórias sobre o relacionamento do casal recém conhecido. A informação era fundamental para esclarecer.

 

Afinal, ele é casado com uma bibliotecária, e competência informacional está na sua formação como usuário. Refaz os dados biográficos coletados, confirmando que o homem era residente do interior paulista. A mulher que o acompanhava era de Minas Gerais, onde estudava. Somando um com mais dois, o marido da bibliotecária calculou que podiam ser namorados. Mas, numa idade de maturidade é raro, ou não é? A Internet inverteu tanta coisa nos dias atuais – pensou.

 

Ademais, estavam juntos no mesmo quarto, são casados ou muito modernos! – supôs. Até por existirem casais que moram em casas separadas, porque não casais residindo cada um em uma cidade distante? – Ele até invejou.

 

Imagina verem-se uma vez ao mês ou menos, pois as viagens áreas são caras e as rodoviárias cansativas. Ele tampouco deve aguentar a sogra. Melhor ainda, não tem mulher diariamente dando ordens; podia ler seu jornal; assistir seu futebol e ir aos churrascos dos amigos; finais e finais de semana livre. – Desenhava delirante a situação.

 

Mas como marido de bibliotecária tem como qualidade de fábrica a curiosidade, no mesmo dia, pela madrugada, no quarto, indagava à sua esposa bibliotecária, as informações colhidas, ilações elaboradas, logicamente com as devidas exclusões dos benefícios de um relacionamento a distância.

 

A esposa rindo das observações de Rui esclarece que eles eram uma espécie de namorados. A mulher era viúva e o homem separado. Ambos curtiam uma viagem juntos pela Europa, apenas isto. Mas, a mulher já não via a hora de retornar para o Brasil, por não aguentar acordar pela manhã e olhar a cara de mau-humor do homem, que dormia de cueca samba canção e a camisa do time de futebol, Corinthians.

 

Ademais, estava sem dormir a dias, pois o ronco do companheiro que parecia, no inicio, uma sinfonia de Strauss, era agora uma erupção vulcânica acompanhada de gases letais. Inverno em grau negativo, quartos com janelas fechadas, calefação alta, torna a situação dramática. Depois de casada por muitos anos, certas experiências perdem o encanto e a vontade de repeti-las. Um livro que já não desperta interesse de reler.

 

Rui salienta que, no caso deles, ao menos não ronca. A mulher, bibliotecária, observa que se ele fosse usuário de biblioteca estaria proibido de frequentá-la. Ele dá de ombros, rebatendo que bibliotecas não podem ter preconceitos e vira de lado para dormir. Os últimos pensamentos ainda refletem na mente. Isto é a modernidade.

 

Agora, com a internet torna-se possível vivenciar novas formas de relacionamento que causam surpresas pelo inedetismo das possibilidades das relações humanas. Mas, diante dos novos tempos, é preciso estar adaptado para não tornar-se inadequado. – Roinc!....Roinc!...

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.