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MARIDO DE BIBLIOTECÁRIA – III: O PASSAPORTE

Marcos Aurora é engenheiro civil, casado com Ana Aurora, bibliotecária, há vinte anos. Vinte anos de casamento dela com seu marido e, também, com sua profissão.

 

Apesar do nome em comum, a bibliotecária não adotou o sobrenome do marido e vice-versa. Também não são primos e nem possuem parentesco de algum grau, que saibam.

 

O nome Aurora é parte do prenome de cada um, decorrente de homenagens prestadas. No caso dele o nome Aurora foi homenagem prestada a um amigo de infância de seu pai, Sebastião do Pinho.

 

Já, a bibliotecária, recebeu o nome em homenagem a santa de devoção de sua mãe, Santa Ana. O nome Aurora advinha, também, de outra homenagem, desta feita dada a parteira, comadre de sua mãe.

 

Coisa de quem nasce em cidades do interior, e que servem para fortalecer laços de amizades ou de consideração. Algo pouco usual nos dias atuais, em especial nas capitais brasileiras.

 

A interessante coincidência do casal não terminava na nomenclatura. O engenheiro civil gostava de se envolver com obras, grandes obras. Sistemático e detalhista na aplicação das normas técnicas e regras. Ela, bibliotecária, trabalhava com catalogação, portanto, envolvida com obras, grandes obras, e normas técnicas e regras. Cada um no seu contexto.

 

Mas o fato significativo desta história ocorreu durante viagem ao exterior. Exatamente na passagem pelo controle de migração do país que acabavam de visitar e do qual seguiam com destino a outro, na Europa.

 

Marcos (como mencionado), pessoa sistêmica, levava os passaportes do casal em uma carteira pendurada ao peito como uma corrente com pingente. Na mesma carteira incluía os cartões de créditos e alguns euros, segundo ele emergenciais.

 

Se há “carteristas” na Europa, com ele os larápios não teriam vida fácil. Ademais, para quem sobrevivia em uma cidade brasileira, não seria em qualquer cidade europeia que marcaria bobeira.

 

A bibliotecária, por sua vez, era cuidadosa, mas não ao extremo do marido. Achava aquilo um exagero absurdo, ao menos com o passaporte e, em especial, o dela, sempre na posse do marido.

 

No processo de embarque do aeroporto europeu, ela seguia a frente na fila da migração, pelo domínio que tinha do inglês. Na entrega do passaporte já começa a confusão. Guardado sob as camadas de agasalhos a carteira enrosca, e lá vai ela ajudar o engenheiro a retirar os documentos. Ao entregar os passaportes o guarda da migração abre e uma nota reluzente de 50 euros cai sobre o balcão. A bibliotecária embranquece, pois o guarda arregala os olhos. Ele desespera-se justificando, numa mescla confusa de portunhol com inglês mexicano, que fora um acidente. O guarda chama o supervisor e conversam em si. A bibliotecária olha para o marido com reprovação. Ele suspira com um ar de “estamos fodido”.

 

Os guardas então riem e devolvem os documentos carimbados, e o dinheiro. A bibliotecária envergonhada pela trapalhada do marido pede desculpas. O guarda diz para tomarem cuidado, mas que estava tudo bem, ele entendera. Apenas chamara o supervisor para rirem de um caso inédito. Um tipo de propina única, ao menos para ele que em 15 anos de trabalho naquela função, nunca um turista havia tentado suborná-lo para sair do país.

 

Ainda sim, ela se desculpou. Seu marido era um turista acidental ou melhor acidentado das ideias. E boa viagem!

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.