BIBLIOCONTOS


O BIBLIOTECÁRIO CORINTIANO

Almeida era um bibliotecário que gostava e muito de futebol. Na realidade era um torcedor fanático pelo Corinthians. Tão fanático que na disputa da copa FIFA, no Japão, ele queria ir trabalhar na biblioteca pública com a camisa do seu Timão.

Marlene o dissimulou da intenção. Imagine se a Berenice, bibliotecária-chefe o visse trajando uma camisa de time de futebol no ambiente da biblioteca. Imagine o constrangimento com usuários torcedores de outros times, como reagiriam sendo atendidos por um corintiano fanático. Ademais, diziam as más línguas que a Bibliotecária-chefe era palmeirense.

Almeida pensou, pensou e realmente, Marlene sua colega de trabalho tinha razão. Não ficaria bem para ele, um supervisor da seção de referência, ficar desfilando com sua camisa número 9, do Ronaldo. Mas todos sabem que “mano é mano”, e naqueles dias à véspera do principal jogo do seu time, ele não podia ficar alheio. Apesar do calor de 30 graus na cidade, lá ia ele com o uniforme do time debaixo da camisa social.

O problema para o Almeida era como assistir ao jogo de futebol realizado no período noturno no Japão, mas pelo fuso horário seria transmitido pela manhã, no Brasil, em dia da semana. O pior era ele ser o responsável por abrir a seção. Tentou trocar o plantão, mas parecia proposital ninguém queria trocar. Até subornar o funcionário da limpeza para se disfarçar dele e ir abrir a seção ele tentou. Nada feito. Pensou, pensou, e o jeito foi trazer uma televisão portátil, made china. Colocou o aparelho sob a mesa de referência, conectado a um discreto fone de ouvido, tipo rádio de celular. Um fone plugou num dos ouvidos, ficando outro livre para escutar o caminhar da bibliotecária-chefe, ou as solicitações dos consulentes ou, ainda, o telefone.

A biblioteca pública era muito consultada, já na abertura da biblioteca havia sempre um aglomerado de pessoas aguardando para ler os jornais do dia, revistas, devolver materiais emprestados, ou simplesmente ficar por ali conversando. A maioria era composta de pessoal aposentado. No dia do jogo a frequência estava ainda maior.

O Almeida ali sentado na mesa de referência. Um olho no ambiente, e outro na tela. A cada jogada, tinha os dois olhos na tela, um lance perdido e saltava da cadeira, e disfarçava o pulo como se algo houvesse no móvel. O problema era o plugue curto no ouvido que torcia a cabeça do Almeida para baixo.

Quem olhasse tinha a impressão que o bibliotecário estava passando mal ou entrando em transe. Os braços lançados ao alto e o corpo curvado para baixo da mesa. Se fosse contorcionista seria ridículo.

Seu Ramiro, um senhor idoso de 90 anos presumíveis, um tanto surdo, era frequentador assíduo da biblioteca, olhando aquela situação resolve sentar-se diante do Almeida e lhe indaga:

-- Está passando bem meu filho?

Justamente no instante em que o Corinthians marca seu gol. O Almeida solta o grito:

-- É nóis! É nóis!

O grito dos guerreiros e iletrados torcedores do alvinegro mosqueteiro. Seu Ramiro assustado expressa um – hã! – Levando as mãos aos ouvidos para melhor escutar as palavras. No momento que a Berenice, bibliotecária-chefe passa. O Almeida de imediato se apluma, aproxima a boca do ouvido do senhor Ramiro, e diz:

-- É nóis não! O título é nosso, entendeu seu Ramiro. O título é nosso, pode olhar no catálogo.

-- Que catálogo? Que título meu filho? Responde seu Ramiro sem entender patavinas da conversa.

A chefia passa sem perceber nada de estranho. O seu Ramiro sentado repetindo a pergunta. O Corinthians faz o segundo gol. O Almeida dá um pulo, o plugue do fone de ouvido traz apensada a pequena televisão que se soltam no ar. O aparelho de TV sai rolando pelo chão da biblioteca, entre os saltos do bibliotecário torcedor. Atrás segue seu Ramiro perguntando o que acontece.

Para Almeida a profissão de bibliotecário é segundo plano, tira a camisa social e mostra o emblema de torcedor sob vaia de usuários torcedores e aplausos de alguns poucos leitores surpresos na sala de leitura. Almeida ganha as ruas gritando – É nóis!

Dizem que o Almeida só retornou à biblioteca um mês depois. Não por que tenha passado festejando o título, mas pela suspensão tomada. Não fora demitido a bem do serviço público e dos usuários torcedores de outros times de futebol porque o filho de seu Ramiro, que também era corintiano fanático, fora eleito prefeito municipal. E ai “mano é mano”. É “nóis na fita”. E nóis é o Almeida, o corintiano bibliotecário da galera.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.