BIBLIOCONTOS


A BIBLIOTECÁRIA DO CHIFRE QUEBRADO

Enfim férias. Benditas férias! Nada como poder usufrui-las, tendo a oportunidade de viajar para algum lugar diferente, fora dos roteiros comuns e da “muvuca” turística tradicional.

 

Pois assim pensou a bibliotecária. Iria ela e o marido para a região norte do país. Antecipadamente, liberava a imaginação e os planos futuros do passeio. Banho de mar, banho de rio, caminhada pela floresta amazônica. Tudo ao mesmo tempo agora.

 

Bibliotecário é assim, sistêmico até mesmo nas expectativas. Malas prontas, passagens compradas, hospedagem reservada. Tudo, tudo organizado e, principalmente, pago. Agora era acesso livre ao descanso, relax e alegria. Vocabulário do destino: Amapá, a última fronteira do litoral brasileiro.

 

Em Cumbica, o avião decola; horas e horas depois pousa. Calor! Mas calor pouco importava. Malas na pousada, tênis nos pés. Pés na mata, caminhada por algumas horas até a beira do rio, água doce e morna, sob o calor amazônico.

 

Relaxamento, sem falação, sem pedidos de informação, sem entra e sai, sem listas disto ou daquilo. Mais uma hora de caminhada na floresta e o oceano Atlântico azul, margeado por quilômetros de praia deserta de vendedores de amendoins torrados, queijo coalho, camarão no espeto, restos de coco.

 

Conforme combinado com o Guia, após as horas de caminhada naquele paraíso, o retorno à pousada seria montado em búfalos. A bibliotecária olhou para os três animais, todos encilhados aguardando indiferentes seus condutores.

 

Bichos estranhos, pessoalmente enormes, diferentes dos que conhecia pelas obras de referência. Observou que um dos animais tinha chifres pequenos e retorcidos como uma mola. O outro parecia ter duas enormes lanças na cabeça o que lhe dava uma aparência mais agressiva. Algo que lhe despertou certo temor. Já, o último lhe atraiu a simpatia. Além de menor porte em relação aos outros dois companheiros, tinha apenas um chifre na cabeça.

 

- Coitado! Um animal frágil como este só pode ser mansinho. Fico com este.

 

Definiu assim sua escolha, sem consultar outras fontes de informação. O seu marido montou no de chifre grandes e o guia no animal de chifres retorcidos.

 

O caminhar dos búfalos seguia em um ritmo lento. Lombo duro, diferente do lombo do cavalo. Seguia tão lento que permitia travar uma conversa amena. Por curiosidade (algo natural da profissão), a bibliotecária pergunta ao guia se os búfalos eram animais bravos.

 

O guia informou que alguns são muito bravos. Disputam seu território ao visualizarem outros búfalos.

 

Então ela formulou a segunda pergunta, se aquela sua montaria tinha um chifre só. Fora defeito de nascença?

 

Ao que o guia negou. O animal nascera com os dois chifres, mas por ser muito nervoso e briguento perdera um em disputa pela atenção da namorada. – Por que perguntara? – Naquele instante o pavor tomara-lhe conta. Um frio percorreu a espinha da bibliotecária, principalmente ao avistarem uma manada solta em um descampado, pelo qual a caravana de três, cruzava.

 

Vai que o bicho resolva tirar satisfação de algum desafeto. Temores que a bibliotecária indexava na mente. Enquanto seguiam pela trilha, a bibliotecária orava a São Francisco. Rezava para que o animal caminhasse com o espírito calmo. Ela até prometia uma peruca de chifre se o animal se comportasse. Cantava cantigas do boi da cara preta, na tentativa de acalantá-lo.

 

A certas situações na vida de uma bibliotecária em que é melhor nunca pedir informações ou levantar questões de ordem. Pode gerar angustia. O humor dos usuários, o bibliotecário até tem como contornar, mas o humor animal vá saber como mediar. Nestes casos, grita, chama por Tarzan ou entrega a Deus. Naquelas horas as férias ficam amargas tudo pela falta ou excesso de informação.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.