BIBLIOCONTOS


VIDA DE BIBLIOTECÁRIO

Agenor estava frustrado, encontrava-se desempregado exato um ano. Mas, em intensa busca de nova oportunidade na área de biblioteconomia. Até o momento havia colecionado um acervo de insucessos ou ampliados uma coleção de “em breve entraremos em contato”. Ele é um bibliotecário convicto e queria continuar sendo. Da mesma forma que a propaganda motivacional petista, “é um bibliotecário brasileiro e não desiste nunca” na busca de sua recuperação total.

 

De tanto divulgar seu currículo aos alertas de vagas, ele acabou por acumular: milhas de entrevistas, litros de cafezinhos e sorrisos de atenciosas atendentes. Além disso, ampliou seu conhecimento sobre diversos tipos de ambientes corporativos que não se corporizaram em um contrato de trabalho.

 

Esta é a vida de Agenor, igual à de muitos outros profissionais a espera de uma luz no fim do túnel ou deste corredor chamado biblioteconomia. Ainda, outro dia, encontro Agenor na mesa de um bar, bebendo da boa fonte de informação cevada.

 

O velho bibliotecário fazia ali sua reflexão profunda sobre a essência da vida profissional. Dizia ele, “o bibliotecário é como um espermatozóide”. Indago-lhe por que um esperma? Ele me responde, após uma talagada de cerveja: “Na biblioteca, o trabalho é, por vezes, um saco; fica cheio de usuário pentelho e quando a organização entra na dureza financeira, o primeiro a ser expelido pra fora é você”.

 

Realmente, foi impossível discordar de Agenor, todos nós bibliotecários somos em resumo um simples esperma, que apesar de atuarmos para fecundação de conhecimento no ser humano, somos excluídos desta missão, expelidos para saciar outras necessidades organizacionais. O perigo da vida de bibliotecário é acabar ficando na mão. “Garçom! Outra bem gelada”.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.