BIBLIOCONTOS


O CUSTO DE VIDA BIBLIOTECÁRIO

A crise econômica que, atualmente, assola o Brasil, é tamanha, difícil dimensionar. Inflação alta, dólar alto, impostos altos, doenças em alta, e o salário baixo (se o emprego estiver mantido).

 

Exercer a profissão de bibliotecário ou manter-se atualizado nela, está caríssimo. Tem bibliotecário namorando bibliotecária e que, no último natal, além das juras de amor, limitaram a troca de presentes ao intercâmbio de registros bibliográficos e, mesmo assim, de obras recebidas como doação, pela biblioteca.

 

Para não ir muito longe, outra situação que mostra como a crise é feia, e que me causou forte impacto emocional e financeiro, ocorreu recentemente quando um casal de bibliotecários me convidaram para padrinho de seu casamento.

 

Honroso pelo convite, perguntei o que gostariam de ganhar como presente, e se havia uma lista de opções para os padrinhos.

 

Por que perguntar? Como eu era da área, poderia escolher entre: dar uma assinatura da RDA toolkit, pagar duas inscrições + hospedagem no SNBU ou do CBBD, ou ainda, pagar duas anuidades do CRB.

 

Pensei, pelo valor do dólar e do IOF incluso, o custo das hospedagens e inscrições dos eventos, melhor optar pelas anuidades que podem, ao menos, ser parceladas. Embora, neste presente pago, eu tenha tido que atrasar a minha anuidade.

 

Mas se casamento de bibliotecário é caro, separar não fica menos pior. Diante da crise, não é bom negócio.

 

Também recentemente, um outro casal de amigos, ambos bibliotecários, resolveram se separar. Uma separação, após 25 anos de trabalho cooperativo, foi motivada por incompatibilidade ideológica de sistemas. Ele era CDD e ela CDU. Com a crise econômica, sentiram o grau de dificuldade em manter e preservar acervos separadamente. Os custos mais que dobraram.

 

Por fim, resolveram unir novamente a coleção, e para amenizar as diferenças optaram por uma classificação única, agora por cor. Se a situação não é cor-de-rosa, a convivência tem que ser no mínimo recuperável.

 

Isto, também, para dizer que tem bibliotecário que diante do preço do acesso à informação, está tendo acesso de raiva. Imagina então comprar material técnico da área, que é cotado em dólar ou em euros, tudo está pela hora da morte profissional.

 

Neste cenário de dinheiro curto e orçamento zero, tem bibliotecário perguntando se dá para parcelar as compras da biblioteca, em uma entrada principal e as demais secundárias a perder de vista ou não se falar mais no assunto.

 

Voltando ao caso da assinatura da RDA toolkit, por exemplo, tenho escutado que os "gringos", sabedores da situação financeira do Brasil, querem o pagamento na "ficha". Neste caso, a comunidade bibliotecária brasileira vai protelando, mais um ano, a adesão à RDA. Afinal, se tiver que pagar o alto valor da assinatura, melhor seguir com a "ficha lascada", ao menos neste modelo, qualquer dano "vai que cola".

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.