QUANDO O DIMINUTIVO NÃO ME INCOMODOU
Em geral, o uso de palavra no diminutivo nos livros infantis, me incomoda.
Deixa o texto monótono e falso, desqualificando os personagens. Na literatura infantil há autores que usam, excessivamente, o diminutivo para dar uma sensação de delicadeza, doçura, afeto, intimidade, mais ou menos assim: “Clarinha é uma menininha que usa vestidinho de bolinhas branquinhas e lacinho na cabeça é a princesinha da mãezinha”.
Essa forma de narrativa apequenada era mais comum no período inicial da literatura infantil brasileira, isto é, mais ou menos no final do século XIX e início do XX. Como ainda há resquícios do uso do diminutivo nos livros para as crianças, ando sempre com os olhos e os ouvidos atentos.
Em geral, não gosto!
Óbvio que há exceções: sou fã O Menino maluquinho (Ziraldo), Chapeuzinho amarelo (Chico Buarque), Cebolinha (Mauricio de Sousa) entre outros.
Outro dia ganhei da Cassia Leslie da Editora Florear o livro: FILHOTINHO.
Meu primeiro olhar e primeiro sentimento foi: que capa linda, muito colorida, com um menino na companhia de um cachorro!
Pensei: um livro tão bonito com título no diminutivo! Me perdoe Yasmin Mundaca (autora e ilustradora). Me perdoe Leslie Cassia (coordenadora editorial). Me perdoe Marcia Paganini (responsável pela edição), mas esse foi o meu primeiro sentimento. Mas, de repente, um pensamento me surpreendeu – não é você que vive dizendo por aí: nunca julgue o livro pela capa ou pelo título.
Pois é, confesso: dessa vez foi uma avaliação apressada e amadora. Logo eu que acompanho, sistematicamente, a produção de livros infantis brasileira há mais de 40 anos! (uia, assustei!)
Quando abri o livro... O danado do Filhotinho me enredou, ora me fez sentir alegria, ora tristeza. O explícito abandono afetivo me provocou o desejo de aninhar os personagens (menino e cachorro) no colo. Me parecia que os cuidados da Dona Joana não eram suficientes para suprir a necessidade de afeto dos dois...
Não quero dar spoiler, mas eu acho que Yasmin, a autora e ilustradora, provocou um delay na minha cabeça. Demorei um pouco para compreender o final, pois foi surpreendente.
Gostei das emoções que o livro me provocou e quis saber a emoção de algumas amigas, então emprestei o meu exemplar. Querem saber? Então passo agora a palavra para elas:
Isabel Maria Aguiar, bibliotecária e curadora de folhetos de cordel
“O Filhotinho me deixou muito emocionada. Fiquei comovida com esse livro lindo! Quando peguei o livro, olhei rapidamente vi que era a história de um menino e um cachorrinho, dois amiguinhos. Tinha uma mulher que cuidava dele, Dona Joana, pensei que era a babá. Mas ele não falava da mãe dele, só falava da Dona Joana. Quando o cachorro chegou chorava muito, ficava assustado e triste e o menino também chorava, provavelmente estavam com saudade da mãe. Pensei: será que a mãe dele morreu? Mas aparece uma ilustração de cinco caminhas e o filhotinho deitado do lado, aí eu me toquei que era um orfanato. Era ele e alguns amigos morando em um orfanato a espera de ser adotado. O livro fala também da amizade, da parceria dele e do cachorrinho. Os dois com saudade da mãe na espera de ser adotado. Os dois muito parecidos. Um livro lindo! Emocionante. Eu chorei, eu chorei muito! E já fui atrás pra ver se autora escreveu outro livro!”
Juliana Boleti, profissional da Contabilidade e leitora de Literaturas
“O livro FILHOTINHO conta a história do menino que é o narrador e do filhote de cachorro Big. O menino narra as necessidades do cãozinho, como uma casa, brinquedos, comida e um cobertor quente. Fala também dos medos do Big no quais alguns ele também se identifica. Junto com a narrativa do menino, as ilustrações são de uma casa e o que me chamou muito a atenção foi uma colcha de crochê, trazendo lembranças da minha casa na infância. Tudo te faz imaginar que o menino está em casa com seus pais e que adotaram um cachorro, mas ao avançar da leitura você é surpreendido ao saber que na verdade o menino mora num abrigo, cuidado pela Dona Joana. Então isso te leva a entender que a narrativa não se trata do salsicha Big, mas sim dele mesmo, que também é uma criança que está crescendo e que não tem sua mãe. É uma história emocionante, pois além de expor os sentimentos e medos do menino em relação ao futuro, gera em nós um desejo de que ele seja adotado. Nos faz refletir também sobre a diferente realidade diante de outras crianças e uma preocupação com seu desenvolvimento individual.”
Ana Paula Pereira, pesquisadora e colecionadora de livros sem palavras
“Achei muito linda, maravilhosa a história. A princípio eu pensei que a Dona Joana era alguém que trabalhava na casa dele, depois a gente vai entendendo que o menino mora em um abrigo e essa relação estabelecida com o cachorro é muito importante, principalmente nas situações de abandono e maus-tratos a animais, o cachorro (filhotinho) está ali exercendo o papel de amigo, como apoio nos momentos difíceis da vida. Nos dias de hoje que a gente vê tanto animais sendo maltratados e torturados por crianças e adolescentes, eu acho que com histórias assim as crianças vão aprendendo a gostar dos animais, ou pelo menos respeitar. Embora a literatura não tenha a função de ensinar, acredito que ela nos humaniza e sensibiliza. Por exemplo, fala que o filhotinho faz travessuras (e isso é natural dessa fase), porém, muitas vezes é nesse momento que algumas pessoas decidem abandonar os animais, por considerar que fazem muita bagunça. Interessante este ponto da história por mostrar que é só uma fase né? Assim como nós seres humanos temos as nossas fases, é só uma fase. A literatura tem esse poder de exercitar a empatia, de se colocar no lugar dos personagens e se puder estabelecer uma relação afetiva com eles é muito bom e muito saudável, principalmente na cena final com os dois abraçadinhos. O final surpreende, porque não romantiza a situação: principalmente quando ele diz: um dia poderemos ir embora ou não. Não tem um final feliz é um final real. Nota dez para as ilustrações, que são belíssimas, coloridas e ajudam a contar a história.”
Leda Maria Araújo, bibliotecária e estudante de Psicologia
“O livro é lindo, a conexão entre o menino e o filhote é muito forte e profunda. Ambos encontraram amor, apoio e segurança no outro. Por ex.: a saudade da mãe, o medo de dormir sozinho. Livro muito lindo! Não me surpreendi porque eu também não tenho mãe e tenho um cachorrinho (Bidu), talvez eu tenha associado o conteúdo do livro com minha vida e conexão com o Bidu. Só quem tem um animalzinho sabe. É muito forte a conexão entre ambos. Quanto significado este livro tem! Eu li quatro vezes o texto e a imagem para compreender o todo... Livro muito lindo!”
Após ouvir as sensações das minhas amigas quero dizer: o livro tem uma aparência descomprometida com ilustrações coloridíssimas (gosto do superlativo absoluto sintético) e poderia ter visado apenas o objetivo recreativo, mas vai além, faz a gente pensar nas fragilidades da vida. No meu parecer não é um texto fechado e provoco: Afinal quem é o Filhotinho? O menino ou o cachorro?
Sugestão de leitura:
MUNDACA, Yasmin. Filhotinho. Londrina: Editora Florear Livros, 2021.