CMAI – COMPETÊNCIA E MEDIAÇÃO EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


  • O objetivo do grupo CMAI se concentra em aprofundar percepções teóricas e práticas da Ciência da Informação, Biblioteconomia e áreas correlatas, que dialoguem com as temáticas oriundas da sociedade contemporânea. As repercussões do grupo estão focadas em um sistema aberto de retroalimentação constante, no qual reflexões se interrelacionam com as práticas, direcionadas para a consolidação da comunidade científica e profissionais mais atuantes, criativos, motivados, inovadores e protagonistas. O grupo reúne pesquisadores, alunos e profissionais interessados em investigar objetos de estudo que dialogam com as teorias basilares do CMAI, quais sejam: Competência em Informação e Midiática; Comunicação e Divulgação Científica; Mediação, visando propor diagnósticos, reflexões, ações e modelos que atendam as demandas sociais.

INFORMAÇÃO E DEMOCRACIA: O PERIGO DA DESINFORMAÇÃO

Luiz Tadeu Feitosa

Sempre que sou instado a falar sobre informação em tempos de desinformação, fico me questionando se não irei falar mais do mesmo ou fazer chover no molhado. Meu sentimento é de que as complexidades do mundo aparecem simplificadas e reduzidas às diferenças entre sinônimos e antônimos. O uso quase banalizado da palavra informação não apenas esconde a complexidade do seu conceito, como também banaliza a palavra desinformação como sendo apenas o antônimo daquela.

Assim, eu me volto a refletir sobre uma obviedade não tão clara assim, como é o fato de, no auge do acesso à informação, não sabemos lidar com ela. Vivemos para consumir informação e as habilidades desse consumo são poucas. Apesar da avalanche de ofertas e acessos, as informações parecem escorrer por entre nossos dedos.

Dentro do caleidoscópio midiático não sabemos escolher e nem entender o “segredo” das informações. E o que dizer das intempestivas navegações pelas ondas revoltas dos fluxos informacionais contemporâneos? Convivemos com a supremacia do acesso sem sabermos controlá-lo. Imagens, textos, sons e uma espécie de “sinestesia” informacional parece querer nos devorar, antes que as decifremos. É o fenômeno indelével da informação convivendo com processos cada vez mais complexos de desinformação.

Antes que me atribuam a pecha de “apocalíptico”, apresento logo a minha defesa. Não o sou. Muito menos “integrado”. Não me identifico com esses maniqueísmos históricos e modelizantes das famosas teorias da comunicação que, a despeito de suas importâncias, deixaram de entrever o papel das frestas, das porosidades e das brechas que existem entre os produtores de comunicação e informação e os que as recebem e delas se apropriam ou por elas são engolidas.

Quando falo disso, refiro-me aos entremeios, às semiosferas infocomunicacionais, que são aquelas zonas semióticas dentro e a partir das quais os sentidos se complexificam para além dos seus aspectos unilinear e unidirecional, como pensava o modelo matemático de processo de informação. É nessas zonas porosas onde estão as semioses – signos que, apreendidos em seus sentidos, viram novos signos e assim sucessivamente – que potencializam as mediações.

É nos entremeios dessas discussões entre informação e desinformação que trago para estas reflexões o perigo que corre a Democracia e o Estado Democrático de Direito se encararmos o fenômeno apenas como dois lados diferentes de modos de percepção. Falar de informação como fenômeno democrático implica problematizar suas relações com as possibilidades de, pelos mesmos mecanismos e estruturas infocomunicacionais, potencializar a produção de desinformação. Nesse sentido, parece-me inadiável as discussões já levantadas pelo Programa de Combate à Desinformação desde 2022 pelo Supremo Tribunal Federal, o PCD-STF.

Partindo dos pressupostos constitucionais de que não se faz e muito menos se fortalece uma democracia sem informação, o STF em seu PCD elucida os princípios democráticos, demarca e realça os aspectos gerais da Constituição Brasileira, os direitos inalienáveis à informação e à liberdade de expressão, com vistas a blindar o Estado Democrático de Direito das ameaças que vêm há algum tempo em curso e que explodiu no último dia 08 de janeiro de 2023.

Sobre a liberdade de expressão é bom realçar – ainda que numa expressão quase simplista – o que expressa a Carta Magna e o entendimento do PCD-STF sobre a relação da informação com a democracia e os princípios da cidadania. É preciso realçar as fronteiras entre se expressar e agredir os direitos constitucionais, entre ter liberdades e respeitar a dos outros, entre ter acesso democrático à informação e conhecer seus limites e controles legais.

Como dito acima, é também necessário auscultar o que está nas porosidades e entremeios dessa liberdade de expressão e suas incompreensões. A linha tênue entre expressar-se democraticamente e aviltar a própria liberdade de expressão constitucionalmente garantida é que precisa ser analisada e o PCD-STF precisa da sociedade e suas instituições democráticas para essa empreitada.

Constitucionalmente, o binômio Informação/comunicação está irremediavelmente atrelado à verdade, na sua acepção mais simples, ainda que absolutamente complexa, inclusive à luz dos princípios constitucionais: expressar-se não é mentir. Informar não é desinformar, ainda que exista um princípio informacional na desinformação.

Não por acaso, a informação na tecitura dos fios narrativos entre jornalismo e notícia vem sendo agredida e aviltada, o que abriu frestas incômodas às práticas jornalistas éticas. Isso porque uma espécie de “cultura informacional” contemporânea parece ter se assentado naquela banalização do conceito de informação, bem como no falso exercício de práticas de produção de informações falseadas, ainda que disfarçadas de linguagens e estruturas narrativas do próprio jornalismo. Como se percebe, uma cultura informacional também falseada por aprendizagem e seus vícios. No caso, vícios na apreensão e propagação de informações (ou desinformações) antidemocráticas.

O Grupo de Competência, Mediação e Apropriação da Universidade Federal do Ceará (CMAI-UFC) vem discutindo essas questões no âmbito do PCD, do STF e o combate à informação e notícia fraudulentas, quase sempre ensejadas por desinformação disfarçada.

São discussões feitas também noutros cenários de produção, circulação, difusão, recepção e apropriação da informação, auscultando os fenômenos infocomunicacionais contemporâneos, sorvendo estudos presentes na literatura especializada, debatendo com pesquisadores, professores e alunos, promovendo eventos e ações instrucionais e em permanente diálogo com o PCD-STF.

As primeiras impressões das pesquisas em curso mostram cenários e fenômenos ainda por decifrar, porquanto eles mudam com muita rapidez. No entanto, já se mostra inegável que os produtos e as consequências da desinformação em ambientes virtuais tomaram a Praça dos Três Poderes, em Brasília, aumentando a responsabilidade de todos para com a defesa da Democracia.

Ainda sem conclusões cabais sobre esse estado de coisas, realço como inalienável as relações intrínsecas entre informação e democracia; a desinformação como maior entrave ao Estado Democrático de Direito; as formas cada vez mais sofisticadas de apresentação da desinformação como verdade. A primazia de realçar a relação entre Informação e Democracia deve ser ensejada pelo diálogo recíproco do informar com base nos princípios constitucionais. Informar sob a égide da ética da informação e da comunicação e sob os auspícios constitucionais, além da necessidade de uma literacia midiática e infocomunicacional urgentes.

Luiz Tadeu Feitosa - Professor Titular da Universidade Federal do Ceará desde 1992, pertence ao quadro docente do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação e do Departamento de Ciências da Informação. Mestre em Comunicação e Semiótica; doutor em Sociologia e pós-doutor no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), unidade de investigação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, em Braga, Portugal. E-mail: tadeu.feitosa62@ufc.br 


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