CMAI – COMPETÊNCIA E MEDIAÇÃO EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


  • O objetivo do grupo CMAI se concentra em aprofundar percepções teóricas e práticas da Ciência da Informação, Biblioteconomia e áreas correlatas, que dialoguem com as temáticas oriundas da sociedade contemporânea. As repercussões do grupo estão focadas em um sistema aberto de retroalimentação constante, no qual reflexões se interrelacionam com as práticas, direcionadas para a consolidação da comunidade científica e profissionais mais atuantes, criativos, motivados, inovadores e protagonistas. O grupo reúne pesquisadores, alunos e profissionais interessados em investigar objetos de estudo que dialogam com as teorias basilares do CMAI, quais sejam: Competência em Informação e Midiática; Comunicação e Divulgação Científica; Mediação, visando propor diagnósticos, reflexões, ações e modelos que atendam as demandas sociais.

SHIYALI RAMAMRITA RANGANATHAN E AS FACETAS DA DOCUMENTAÇÃO AUDIOVISUAL NA PODOSFERA

Francisco Edvander Pires Santos

Quando recebi o convite para redigir à Infohome, enquanto membro do Grupo de Pesquisa Competência e Mediação em Ambientes de Informação (CMAI), logo pensei numa forma de homenagear um dos mais importantes nomes da Biblioteconomia: Shiyali Ramamrita Ranganathan, bibliotecário indiano que, em 2022, completaria 130 anos de vida. Outrossim, 2022 é o ano em alusão ao cinquentenário de seu falecimento; portanto, um duplo motivo para rememorar as suas contribuições à nossa área.

Uma experiência pessoal me faz voltar no tempo, pois foi a partir da leitura das Cinco Leis da Biblioteconomia que decidi ingressar nesse curso de graduação. Mas a presença de Ranganathan não se limita às Cinco Leis, tendo em vista que ele representa também a complexidade e teorização da organização do conhecimento por meio da Classificação Facetada, a Colon Classification. Esta, por sua vez, possibilitou-me ampliar os horizontes ao conseguir aplicá-la no ambiente de informação em que escolhi atuar profissionalmente: os centros de documentação audiovisual de emissoras de televisão.

Merecidamente, há estudos em língua portuguesa, nos níveis de graduação e pós-graduação, que compilam, reverenciam e lançam um novo olhar acerca da aplicabilidade das Cinco Leis da Biblioteconomia e da Classificação Facetada. No entanto, existe uma publicação que contribui teoricamente para a Documentação: trata-se da obra intitulada Documentation and its Facets, sobre a qual discorrerei a seguir inter-relacionando-a com a produção audiovisual na podosfera.

Publicada originalmente em 1963, em formato de coletânea, Documentation and its Facets apresenta 70 textos escritos por 32 autores e pode ser considerada, atualmente, uma obra rara, no sentido de que lança as bases conceituais e pragmáticas da Documentação a partir da realidade que Ranganathan e seus pares vivenciaram na época. Mas de que forma trazer essa publicação como alicerce para inserir a massa documental audiovisual produzida hoje na podosfera?

Em um dos trechos que mais me impressiona, na página 37, Ranganathan comenta a realidade da produção e salvaguarda de documentos em áudio nas bibliotecas da época, a exemplo de gravações que auxiliavam as pessoas com deficiência visual e as não letradas a terem acesso à informação contida nos livros, além do registro em áudio de palestras da área da Saúde que acompanhavam a versão impressa de periódicos científicos. Há um outro exemplo que também retrata o período histórico em que viveu: “Mahatma Gandhi’s historic speeches at prayer meetings are now preserved as audio documents in the National Archives of India. Copies of them can at any time be produced in any quantity. Audio documents are now regularly served by libraries.” (RANGANATHAN, 1963, p. 37). Nos dias de hoje, toda essa massa documental exemplificada por Ranganathan poderia compor episódios de podcast...

Ranganathan traz como característica própria as inter-relações entre os seus textos publicados. Neste, de 1963, essa prática não seria diferente, haja vista que lança as bases da Documentação como área de atuação no seio das bibliotecas, como uma extensão dos serviços oferecidos por essas instituições. Desta feita, as suas Cinco Leis são adaptadas sob uma nova perspectiva três décadas depois: “Documentation is a part of library activities. Therefore, the Five Laws of Library Science govern documentation. These laws were originally formulated in 1931 in terms of the conventional book. They should now be re-stated replacing ‘book’ by ‘document’. The five laws are then:

1 Documents are for use;

2 Every reader his document;

3 Every document its reader;

4 Save the time of the reader; and

5 A library is a growing organism.” (RANGANATHAN, 1963, p. 43).

Da mesma forma como Ranganathan adaptou a rotina de trabalho das bibliotecas ao macrouniverso da Documentação, parafraseando livremente a citação supramencionada, proponho-me a refletir da seguinte maneira: “O podcast tornou-se parte das atividades das bibliotecas. Desse modo, as Cinco Leis da Biblioteconomia regem a produção de conteúdo audiovisual nesses ambientes. Essas leis foram originalmente formuladas por Ranganathan em 1931, visando aos acervos compostos por livros; porém, adaptamo-las aqui para o universo da podosfera:

1. Os podcasts são para uso;

2. A cada ouvinte o seu podcast;

3. A cada podcast o seu ouvinte;

4. Poupe o tempo do ouvinte; e

5. A podosfera é um organismo em crescimento.”

A podosfera, do inglês, podosphere, é o ambiente virtual no qual os podcasts são criados, administrados e distribuídos, para que os seus episódios sejam pesquisados, acessados e ouvidos de três formas:

1. No desktop, ao abrir o navegador e acessar o site do podcast ou o serviço de streaming disponível na Internet ou mesmo instalado no próprio computador;

2. No dispositivo móvel, através de um serviço de streaming, via aplicativo, também conhecido como plataforma de áudio, player, tocador ou agregador de podcast; e

3. Após realizar o download do arquivo de áudio no dispositivo móvel, como o smartphone, normalmente no formato e extensão MP3.

Devidamente conceituados e contextualizados, entendo que os podcasts também merecem uma discussão enquanto documentos audiovisuais passíveis de serem citados e referenciados nos mais diversos tipos de publicação. Nesse sentido, ao retornar a Documentation and its Facets, mais especificamente ao capítulo em que Ranganathan menciona as iniciativas para a normalização de documentos: “The task of preparing standards in the field of library architecture was much beyond the scope of the Documentation Sectional Committee. […] At the international level, the Documentation Sectional Committee has been collaborating actively with its counterpart the Documentation Technical Committee (ISO/TC 46) of the International Organisation for Standardisation.” (RANGANATHAN, 1963, p. 500).

À luz da padronização almejada por Ranganathan, a possibilidade de referenciar episódios de podcast, quando e se consultados, é respaldada por normas vigentes de documentação e editoração, dentre elas: a 2ª edição da NBR 6023 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), publicada em 2018 e parcialmente retificada em 2020, e a 7ª edição das normas da American Psychological Association (APA), publicada em língua inglesa no ano de 2020. Mas por que referenciar os podcasts? Primeiramente, devido ao crescimento exponencial da podosfera; em segundo lugar, o fato de que os podcasts embasam, cada vez mais, a redação de trabalhos acadêmicos e artigos científicos; e como terceiro motivo, a possibilidade de cadastro no Currículo Lattes ou na rede social LinkedIn da participação em gravações na podosfera, utilizando o registro audiovisual como fonte de informação fidedigna e comprovação de atividades de cunho profissional.

Além das Cinco Leis da Biblioteconomia e da necessidade de normalização dos trabalhos de Documentação, Ranganathan (1963) evoca a teoria da Classificação Facetada, na qual ele estruturou a Colon Classification. Entre as páginas 230 e 268, a obra Documentation and its Facets ilustra os esquemas de catalogação, classificação e indexação pensados para subsidiar a produção de catálogos, índices e bibliografias voltadas à Documentação. De fato, é um verdadeiro convite ao mergulho em uma das principais teorias de organização do conhecimento. Entretanto, no decorrer da leitura, é possível notar alguns dos desafios que Ranganathan e o seu time de autores enfrentaram na intenção de adaptar uma classificação outrora esquematizada para acervos de livros e que, naquele cenário, teria de se adequar às normas de Documentação. O que estava posto era a cobertura descritiva e temática da massa documental produzida na Índia, mas que reverberaria em outros países, chegando a diversos tipos de instituições produtoras de documentos.

Datam da década de 1920 os primeiros esboços do que viria a ser a Colon Classification, também conhecida como Classificação Facetada ou Classificação de Dois Pontos. A sua estrutura foi inteiramente alicerçada no que Ranganathan denominou as Cinco Categorias Fundamentais, quais sejam: Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo, cujo acrônimo é PMEST, do inglês: Personality, Matter, Energy, Space, Time. E como seria a sua aplicação à podosfera?

Primeiramente, vislumbro a categorização na podosfera como documentos audiovisuais de natureza digital, onde as seguintes variáveis podem servir de norte para a organização de conteúdo em podcast, dentro das Categorias Fundamentais de Ranganathan:

1. Personalidade: nesta categoria, indexam-se os assuntos gerais e específicos dos episódios;

2. Matéria: nesta categoria, inserem-se os agregadores de podcast, a exemplo do Spotify, Deezer, Google Podcasts, Castbox, Amazon Music, dentre outros;

3. Energia: esta categoria contempla os profissionais envolvidos e as suas respectivas funções na produção de podcast;

4. Espaço: para esta categoria, destinam-se os ambientes onde ocorrem a roteirização, produção, gravação, edição e distribuição do podcast;

5. Tempo: nesta categoria, por fim, representam-se as datas que norteiam a produção de podcast, tais como data de gravação, de edição, de postagem, de divulgação, dentre outras.

Permita-me ser parcial e sugerir onde a aplicabilidade dessa teoria de Ranganathan pode ser visualizada. Além do seu agregador de podcast favorito, no qual você pesquisa por assunto ou pelo nome do podcast de seu interesse, a visibilidade da podosfera também pode ser contemplada por meio da catalogação e indexação em Catálogo de Acesso Público Online (OPAC). Lembremos que Ranganathan (1963) já trazia essa perspectiva do catálogo cooperante e da documentação incorporada à rotina das bibliotecas. Pensando nisso, convido você a acessar o catálogo online do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará, instituição da qual faço parte, e pesquisar na caixa de busca pelo termo ‘podcast’. Você logo visualizará uma proposta de catalogação e indexação de podcasts no todo e em parte, com cada episódio individualmente cadastrado no sistema, cuja encontrabilidade, referência no estilo bibliográfico ABNT e padrões de metadados adotados poderão estar interoperáveis, em um futuro não muito distante, ao agregador de podcast de sua preferência.

Finalizarei a análise de Documentation and its Facets mencionando o serviço de referência, cuja discussão para a Documentação localiza-se entre as páginas 303 e 374 do livro editado pelo nosso homenageado. Naqueles anos, Ranganathan já expunha, dentre outros fatores, o aumento gradual da demanda pelo serviço de referência, a importância da comutação bibliográfica, a disponibilização de cópias de documentos, o nível de exigência dos pesquisadores, a necessidade de entregar a informação no menor tempo possível e a tradução de documentos como demanda em potencial. Nesse cenário, consolidou-se uma rede cooperativa de bibliotecas, cujos espaços eram gerenciados no intuito de oferecer o melhor serviço de atendimento ao público, independentemente da região do país onde o pesquisador demandasse por informação documental. É possível replicar essa mesma realidade às bibliotecas contemporâneas que desejarem introduzir o podcast como mídia que possibilita o fortalecimento de vínculo junto à comunidade atendida, mediante os paradigmas do serviço de referência híbrido (ACCART, 2012), da cocriação de valor (LAS CASAS, 2014; RAMASWAMY; OZCAN, 2016) e da transformação digital (ROGERS, 2021) nos espaços das bibliotecas.

Por que não ousar e pensar a biblioteca como um ambiente de informação no qual um determinado segmento de público recorrerá na busca por um episódio de podcast que melhor atenda à sua necessidade informacional? Por que não gerenciar a documentação audiovisual na podosfera de olho no que a comunidade está produzindo em termos de publicação ou produção técnica? Por que não elaborar catálogos de treinamentos que incentivem o uso do podcast como ferramenta aliada à comunicação científica e tecnológica? E, finalmente, por que não adaptar espaços de cocriação audiovisual como uma extensão do serviço de referência das bibliotecas a fim de que a comunidade usufrua nas atividades de roteirização, produção, gravação, edição e distribuição de podcasts? Assim como Ranganathan repensou, reprojetou e readaptou o ambiente da biblioteca diante da chegada de demandas por documentos, afirmo, com toda a certeza, que hoje a nossa profissão consegue expandir, cada vez mais, a sua atuação para o universo da podosfera.

O homenageado deste texto conclui a obra Documentation and its Facets com uma visão otimista e, ao mesmo tempo, de incertezas quanto aos desdobramentos futuros da Documentação. Entre as páginas 585 e 620, Ranganathan reitera o que foi discutido no decorrer do livro, sugere ações às entidades que cooperam com a gestão documental e propõe a continuidade dos estudos acerca dos diferentes tipos de documentos e de necessidades informacionais que venham a surgir.

Habitando a podosfera, que é um organismo em crescimento, está disponível um documento audiovisual que apresenta a versão em áudio deste texto no PodArtigos, cujo episódio piloto pode ser acessado neste link (https://bit.ly/episodio-piloto-podartigos) e também nos principais agregadores de podcast.

 

REFERÊNCIAS

ACCART, Jean-Philippe. Serviço de referência: do presencial ao virtual. Tradução: Antonio Agenor Briquet de Lemos. Brasília, DF: Briquet de Lemos/Livros, 2012. xv, 312 p.

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Publication manual of the American Psychological Association: the official guide to APA style. 7th ed. Washington, DC: APA, 2020. xxii, 427 p.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. Versão corrigida: 24 set. 2020. vi, 68 p.

LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Cocriação de valor: conectando a empresa com os consumidores através das redes sociais e ferramentas colaborativas. São Paulo: Atlas, 2014. x, 196 p.

RAMASWAMY, Venkat; OZCAN, Kerimcan. O paradigma da cocriação. Tradução: Maria Lucia de Oliveira. São Paulo: Atlas, 2016. xxii, 301 p.

RANGANATHAN, Shiyali Ramamrita (ed.). Documentation and its facets. London: Asia Publishing House, 1963. 639 p.

ROGERS, David L. Transformação digital: repensando o seu negócio para a era digital. Tradução: Afonso Celso da Cunha Serra. São Paulo: Autêntica Business, 2021. 329 p.


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