ALÉM DAS BIBLIOTECAS


TRANSFORMANDO BIBLIOTECAS, TRANSFORMANDO SOCIEDADES: REFLEXÃO SOBRE O PAPEL DOS BIBLIOTECÁRIOS À LUZ DAS DEMANDAS SOCIAIS

No mês em que se comemora o Dia do Bibliotecário, exatamente, 12 de março, o lema disseminado em alguns Estados brasileiros, diz: transformando bibliotecas, transformando sociedades: reflexão sobre o papel dos bibliotecários à luz das demandas sociais. De imediato, recorri ao passado. Revivi nosso ingresso no Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Pernambuco, quando, em 1966, próximo aos 18 anos, escrevemos, ainda como recém-ingressa no Curso, o texto que segue, posteriormente adaptado como capítulo na coletânea com textos nossos avulsos, intitulado “Olhares e fragmentos: cotidiano da biblioteconomia e ciência da informação”, editado em 2006. À época, escrevemos:

Nós, futuros bibliotecários, sentimos e lamentamos ter de enfrentar no futuro novas batalhas para desempenhar a profissão, ainda tão pouco valorizada, quando não confundida com aquilo que na Idade Média se supunha ser um bibliotecário: simples guardião de obras raras. Mas, qual a razão ou as razões desta realidade? A biblioteconomia, ao contrário de tantas outras carreiras, não está ainda clara na mente das pessoas. E é quando, mesmo com certo pudor, mas com profunda consciência, que reconhecemos caber parcela da culpa, algumas vezes, aos próprios profissionais. Como em qualquer outra instância, há aqueles que são conduzidos à profissão, não por ideal, mas por simples conveniência pessoal. Seguem o curso e acomodam-se a uma função pública, sem buscar sequer despertar interesse pelo seu trabalho entre o meio em que “atuam”. 

A bem da verdade, ocorre, ainda, que, às vezes, o bibliotecário tem valor, está ciente da missão a realizar, mas os que têm poder de decisão na comunidade e / ou na instituição onde está locado, não oferecem condições materiais e humanas que lhe possibilitem concretizar seus objetivos. Ao lado de tudo isto, há, e ninguém pode negar, deficiência da própria estrutura social brasileira, quando a criança durante todo o período escolar, jamais até então, frequentou uma biblioteca. Isto porque, são raras as escolas e os colégios que possuem bibliotecas no sentido real do termo, e quando as têm, não são dirigidas por profissionais diplomados, mas por leigos, que, irremediavelmente, criam na mente dos alunos ideia errônea do que é biblioteca ou bibliotecário. 

Diante deste texto, repetimos, ano 1967, vemos, perplexos, que as mudanças em nossa área, ao longo das décadas, têm sido insignificantes do ponto de vista social. Digo, nossos queixumes são quase os mesmos, hoje, ano 2018, século XXI. Somos capazes, sim, de suprir as demandas sociais mediante a transformação das bibliotecas em instituições essencialmente sociais aptas a interferir nos rumos dos povos e dos países. Os recursos documentais constituem um dos mecanismos sociais de maior importância para a preservação da memória racial e a biblioteca é um aparelho social para transferi-la ao consciente dos indivíduos. Qualquer interpretação da sociedade deve incluir explicação deste elemento social e de sua função na vida comunitária. Mas num país como o nosso, bibliotecas não constituem prioridade. Nunca o foram. Salvo raríssimas exceções, os cortes de recursos financeiros recaem, irremediavelmente nos centros de documentação e/ou bibliotecas, em qualquer momento de contenção.

Como decorrência, a biblioteconomia continua sem ocupar o espaço que lhe cabe entre os fenômenos a serem discutidos em qualquer sistema de ciência social, não apenas como ramo do conhecimento que se dedica a reunir, organizar, disseminar e produzir o conhecimento registrado, mas, essencialmente, como serviço social de suma relevância para a evolução dos grupos humanos. Por outro lado, se a cultura, qualquer que seja ela, não pode ser entendida como fenômeno isolado, afirmamos que para sua preservação e comunicação, a biblioteca moderna constitui instituição-chave. Reforçamos que à biblioteca e ao bibliotecário (agente social) não interessa o conceito vulgar de cultura, qual seja, como sinônimo de erudição. Tal concepção, largamente aceita e difundida dentro da sociedade, peca sensivelmente em sua essência, desde que conduz à tendência de segregar a comunidade em duas categorias: os letrados e, consequentemente, os iletrados, “vítimas” do autoritarismo das elites. 

Em linha oposta, o bibliotecário precisa ter em mente as concepções teóricas fundamentadas nas proposições antropológicas ou sociológicas, em que cultura é, primordialmente, um todo extremamente complexo, que abrange conhecimentos, crenças, valores, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano, enquanto ente de grupos sociais. A cultura é privilégio do homem. É ela inerente ao ser humano, desde que somente ele a cria, a possui e a transmite, independentemente de sua condição social, do meio ambiente, da origem e dos traços raciais.

Relacionando cultura e biblioteca como instituição social, é objetivo primordial de toda e qualquer biblioteca a preservação e a disseminação dos valores da formação cultural nacional. Em qualquer nível que opere, é finalidade da biblioteca maximizar a utilidade social dos registros informacionais, não importa o suporte em que esteja, mantendo vivas a identidade e a memória da cultura local, o que favorece o impulso do nível cultural brasileiro. Compete à biblioteca liderar a luta para evitar a massificação das culturas locais aliando-se às inovações tecnológicas, mas sem se colocar a serviço das tecnologias. É preciso lembrar que, quando da expansão da internet, década de 90, século XX, a revolução digital passa a ser vista como prenúncio da morte do dogmatismo exacerbado e da possibilidade do decantado acesso universal. A expressão – democratização da informação – ganhou o mundo.

Hoje, no entanto, é evidente que a exclusão informacional persiste ao lado da exclusão social e, agora, exclusão digital. Ao lado dos iletrados, agora estão os analfabetos digitais. É também muito claro que a facilidade de informação se transformou em flagrante facilidade de desinformação. Isto porque, jamais foi tão simples editar livros compilados, plagiar, produzir inverdades, impor uma maquiagem a informações infundadas. Estamos vivendo a era das fake news e dos eruditos de araque! Estamos vivendo a era da produção maciça, não importa a qualidade. O quantitativo impera. São fraudes e embustes facilitados pelos artefatos tecnológicos, embora nunca seja demais lembrar que nem tecnologias nem internet são responsáveis pelo caráter dos indivíduos. Ou seja, quem comete plágio ou recorre a trapaças e astúcias para emergir como produtor de informações no espaço virtual, o faz por carência de valores éticos, e não porque as inovações tecnológicas estão a seu alcance. 

Assim sendo, ao contrário do que os mais desavisados pensam, nossa função como mediador para a seleção da informação é, agora, ainda mais gigantesca e poderosa. Ao contrário do que se imagina à primeira vista, as inovações tecnológicas são decisivas para nossa atuação, o que demanda ou exige cursos de graduação e de pós-graduação de qualidade; profissionais de informação capacitados; associações e conselhos mais atuantes. É hora de os sistemas de bibliotecas públicas, incluindo Estados e municípios, atuarem como instrumentos de ação cultural, o que significa contar em seu quadro com profissionais com formação no campo da biblioteconomia e dinamizá-las como verdadeiros centros de informação utilitária, trabalhando junto com as coletividades para lhes prestar as informações demandadas.

Se tudo não está em nossas mãos – e realmente não está: muitas vezes, nos falta poder de decisão – para definir a transformação das sociedades via transformação das bibliotecas, isto significa que a luta de classe ou pela classe deve prosseguir! Do bibliotecário e/ou do profissional da informação, espera-se que esteja apto a suprir as exigências emergentes do mercado, dinâmicas e incrivelmente instáveis. É preciso, pois, que governantes e representantes do povo, sobretudo, nos Poderes Executivo e Legislativo, e a própria sociedade se conscientizem da relevância da cultura não só como conquista, mas também como arma, pois se a emancipação dos homens leva ao desenvolvimento da cultura, o desenvolvimento da cultura acelera a hora desta emancipação. E mais que isto, é imprescindível profunda conscientização por nossa parte, como bibliotecário e, sobretudo, como ser humano!

Isto porque nenhum avanço no campo da biblioteconomia e da ciência da informação vale a pena se relegarmos a dignidade e o respeito ao outro. Por isto, reiteramos trecho de texto da autoria de Rubem Alves, que diz:

A vida é muito mais que a ciência.

Ciência é uma coisa entre outras, que empregamos na aventura de viver, que é a única coisa que importa.

É por isto que, além da ciência, é preciso a "sapiência", ciência saborosa, sabedoria, que tem a ver com a arte de viver. Porque toda a ciência seria inútil se, por detrás de tudo aquilo que faz os homens conhecer, eles não se tornassem mais sábios, mais tolerantes, mais mansos, mais felizes, mais bonitos...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”