ALÉM DAS BIBLIOTECAS


ÁFRICA E MASSAIS: TRADIÇÃO, MISÉRIA E COMERCIALIZAÇÃO

Massai ou maasai ou masai. Povo guerreiro que vagueia, sobretudo, por sobre o território de Quênia, e se estende, também, ao largo da Tanzânia, países perdidos ao leste do continente africano. Homens que se impõem com um cassetete nas mãos a pastorear cabras e vacas, enquanto mascam ervas que lhes fazem permanecer horas a fio acordados para “jogar conversa fora” com os companheiros. Aliás, o cassetete tem toda uma simbologia: o poder de guerreiro. Embora não haja guerra a enfrentar e apenas a luta constante por terra e por gado com as tribos vizinhas, ao tempo em que os homens exibem suas armas de guerra, asseguram que elas somente são utilizadas para a defesa. Nunca para o ataque.

 

Quando nos referimos aos massais, estamos falando da gente mais colorida e mais exótica de toda a África, com lugar garantido em qualquer programa televisivo que fale sobre o continente, a exemplo do Globo Repórter, TV Globo, dia 3 de fevereiro passado. Eles se alimentam da carne bovina e bebem sangue diretamente do animal em transe de morte. Os homens podem ter quantas mulheres possam pagar por elas – o dote destinado às famílias das jovens, corresponde a cabeças de gado, moeda corrente, cujo total varia segundo a idade e a beleza das quase meninas. Ninguém faz alusão à AIDS. Esta não conquista sequer a condição de fantasma. Simplesmente inexiste.

 

As cabanas em que vivem ou sobrevivem devem ser nomeadas pelo termo original “maniata”, uma vez que não há nada em português que consiga traduzir sua singularidade. Extremamente baixa e construída à base de estrume de boi, sem janelas, uma única porta e uma angustiante sujeira, a maniata reflete primitivismo ímpar. Até hoje, apesar dos esforços formais do governo queniano, os massais, com raras exceções, se recusam a enviar os filhos à escola. A entrada do jovem à idade adulta inclui circuncisão que se dá de forma inarrável. É a condição exigida para chegar à condição de guerreiro. Antes, só aquele que conseguisse matar um leão alcançava tal status. Com os cuidados crescentes da população mundial em torno da preservação das espécies felinas, proibidos de caçar animais selvagens, na atualidade, os massais têm autorização oficial para viver em parques nacionais e limitam suas atividades à criação de gado bovino e caprino. Dentre os parques, destacam-se o Masai Mara, que integra o ecossistema Serengeti-Mara, área de cerca de 25.000 km² destinados à preservação da vida selvagem, além do Parque Nacional de Amboseli. Apesar de menor, mantém significativa diversidade de mamíferos por conta da água abundante advinda do Monte Kilimanjaro.

 

Enquanto o menino anseia se tornar guerreiro, a menina, ao casar, é submetida, também de forma cruel, à retirada do clitóris. A extirpação se dá nas próprias cabanas. É a garantia de que trará ao mundo crianças saudáveis... Além da poligamia, a supremacia do homem em relação à mulher é incompreensível. Fora o pastoreio e a apresentação de danças em que os homens pulam a alturas astronômicas – a dança se resume a estes saltos – cabe às mulheres as demais tarefas de casa. Buscam lenha para o fogo e, a distâncias incríveis, água para toda família e para todas as funções. A falta de água é uma realidade tão cruel que a guia africana (mulher branca da África do Sul, com residência e marido brasileiros) explica que a descarga sem dó e sem piedade que costumamos usar no vaso sanitário em nosso cotidiano corresponde à porção diária de água possível de ser gasta por uma família massai. E é a escassez de água que ainda hoje faz com que as tribos migrem com seus animais de um lugar a outro.

 

Também são as mulheres hábeis artesãs. Fabricam brincos, pulseiras e colares de mil cores. Além de adornarem seus homens e seus próprios corpos, da cabeça aos pés, vendem as bijuterias em busca de algum dinheiro para o sustento das famílias. Aliás, por conta dos piolhos, elas são invariavelmente carecas e ambos (homens e mulheres), se não estão descalços, trazem sempre aos pés sandálias feitas de pneus imprestáveis, mas que se tornam muito graciosas pelas contas coloridas que aí são colocadas.

 

As doenças de qualquer tipo, incluindo a malária, são tratadas nas próprias maniatas com ervas e misturas caseiras. Não há médicos. Não há religiosos. Os missionários pertencentes a ONGs, que se vêem aqui e acolá, parecem perdidos diante de cenários desoladores: crianças cercadas de moscas, que pousam nos cantos dos olhos e da boca e aí pairam como imóveis ou petrificadas. As mulheres, precocemente envelhecidas, falam com os olhos e nada mais...

 

No entanto, a surpresa maior fica por conta de ver que os massais, em nome de suas tradições, apesar de conservarem um primitivismo bestial, se adaptaram rapidamente à mercantilização da sociedade moderna e, portanto, à comercialização de sua própria miséria. Cada turista paga 40 dólares para visitar a aldeia. Os lugares de visitação são ostensivamente demarcados. Fotos de “personagens” fora do script são proibidas. Gritos são dirigidos aos infratores, como eu...

 


Visão das maniatas

 

 

 


Mulheres massais para visita aos turistas

 

Mãe massai e tristeza de olhar (“fora do script”)

  


Crianças massais

 

 

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE OS MASSAIS:

 

LIVRO:

 

HOFMANN, Corinne. A massai branca: meu caso de amor com um guerreiro africano. 2. ed. São Paulo: Geração Ed., 2011. 360 p.

 

FILME:

 

Título original: Die Weisse Massai

Título em português: A massai branca

Lançamento: 2005, Alemanha

Direção: Hermine Huntgeburth

Atores: Nina Hoss, Jacky Ido, Katja Flint, Antonio Prester.

Duração: 131 min

Gênero: Drama

 

OBSERVAÇÕES:

 

Livro e filme são baseados na história real vivida por Carola Lehmann (Nina Hoss). Em férias no Quênia, ao conhecer Samburu (Jacky Ido), guerreiro massai, se apaixona loucamente e vive momentos de fascínios e de dor...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca. Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, Amante da literatura, tem publicado crônicas reunidas em livros “Palavra de honra: palavra de graça”, 2008; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”, 2015. Destaque para o Jornalismo cidadão..., lançado pela Unesco. Colunista semanal do diário O Dia, Teresina – PI.