ALÉM DAS BIBLIOTECAS


SIENA: A CIDADE DAS IGREJAS - SIENA: A CIDADE DA NÃO RELIGIOSIDADE

Siena e encantamento

Com frequência, as pessoas tendem a perguntar aos viageiros que país ou cidade mais lhe encantou. Em nosso caso, respondemos sem vacilar: nenhum(a) em particular; todos(as) no geral... Isto porque países e recantos são sempre as pessoas com quem convivemos, os traços culturais que conservam ao longo do tempo, as particularidades que lhes fazem únicos, e, sobretudo, as circunstâncias que enfrentamos em seu território.

Visitamos Siena, região da Toscana (Itália), ano 2011, em companhia de religiosas residentes em Roma e vinculadas à Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Siena, fundada pela senesa (gentílico bastante controverso) Savina Petrilli (1851-1923) e hoje, em diferentes continentes e nações. Além da Itália, está na Argentina, nos Estados Unidos, nas Filipinas, no Paraguai e no Brasil, incluindo a capital do Piauí, Teresina, onde as irmãs se dedicam ao ensino fundamental e médio. Um dia de esplendor. Além dos pontos turísticos mais tradicionais da cidade medieval situada literalmente entre muralhas e cujo centro histórico, por seu valor artístico e harmonia estilística inesquecíveis, constitui Patrimônio da Humanidade, nos moldes da UNESCO, visitamos – um grande amigo e eu – a herança histórica mais preciosa da Congregação. Aí estão incluídos a casa onde nasceu a menina Catarina; a Casa Madre, onde as monjas residem; o Museu Afetivo de Savina, que conserva relíquias de sua vida de criança, adolescente e mulher; e o majestoso Santuário de Santa Catarina.

Siena e templos em enxurrada

A partir desse dia de encantamento, começamos a idealizar uma estada prolongada em Siena com o fim de vivenciar o dia a dia dessa cidade mágica e aprender o idioma italiano. E assim fizemos. Noventa dias e um grande susto: repleta de catedrais, basílicas, igrejas e capelas por toda parte, a religiosidade não se faz presente. Há construções simples. Há outras majestosas, a exemplo da Catedral Duomo, uma das maiores do país. Símbolo da arquitetura românico-gótica, guarda em seu interior obras valiosíssimas do mais talentoso matemático ocidental da Idade Média, Leonardo Pisano; e de Donatello [Donato di Niccoló di Betto Bardi], escultor italiano da fase do Renascimento Cultural. Além de trabalhar em sua cidade natal, a vizinha Florença, deixou um rastro de luz nas circunvizinhanças, incluindo a comuna de Prato, Pádua e, decerto, Siena, com esculturas em baixo-relevo de materiais os mais diversos, a exemplo de mármore, bronze e madeira. A Catedral também conserva obras de Michelangelo, pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, venerado como um dos ícones da arte ocidental. Há, ainda, o Museo dell’Opera del Duomo, que abriga esculturas retiradas do lado externo da Catedral. Uma tarde ou uma manhã inteira é pouco. Deixa-nos a dolorosa impressão de que algo ficou para trás! Não vimos tudo! 

Mas, se há templos em profusão, incluindo as esplendorosas Igrejas de San Domenico, San Agostinho, estão elas sempre fechadas, com poucas e raras exceções, aqui e ali, com ênfase para o domingo ou para as festividades do palio ou para concertos destinados ao público. A religiosidade das pessoas parece adormecida. São meras impressões, sensações e certo estranhamento. Afinal, não somos (nem pretendemos ser) expertise na história dessa charmosa cidade medieval, com mais de 800 anos de história. Porém, é inevitável alimentar a vontade de desvendar algumas singularidades. É uma cidade com muitas contradições.

Siena, Vaticano e Papa Francisco

O Vaticano ou a Cidade do Vaticano [Estado da Cidade do Vaticano] é a sede da Igreja Católica, instituída em 1929. Corresponde a um território murado dentro da própria capital Roma, Itália. Com cerca de tão somente 44 hectares (0,44 km²), mantém uma população fixa de, aproximadamente, mil habitantes, o que lhe dá o posto de menor entidade territorial do mundo sob encargo de um Estado soberano. A religião predominante é a católica, segundo dados oficiais, fornecidos pela “Prefeitura.” Mas foi aqui, nas vizinhanças do Vaticano, residência oficial do Papa Francisco, S.J., o antigo cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio, nascido no bairro de Flores, Buenos Aires, Argentina, 82 anos, que vislumbramos a maior resistência em relação à sua atuação. 

Em conversas sistemáticas com 22 pessoas de níveis de instrução, sexo, faixa etária e procedências distintas, buscamos identificar a imagem de Francisco junto ao povo de Siena. As reações aparentemente diversas convergem para o mesmo ponto: a insignificância do Vaticano e de seu ocupante. Não obstante o desgaste das expressões – extrema-direita e extrema-esquerda –, para os primeiros, Francisco é alguém que tem aberto mão de tradições familiares e seculares em apoio a segmentos “truculentos” (segundo um dos depoentes), como homossexuais, divorciados e ateus. Para a extrema-esquerda, é ele, em sua essência, um político e não um religioso. Alguém inescrupuloso, desinformado e indiferente à realidade da Itália e do mundo. Demagogo no sentido mais cruel do termo – alguém que, com habilidade, lança mão de artifícios para conquistar o amor e a paixão dos populares.

Susto real. Afinal, desde sua ascensão em 2013 para suceder ao Papa Bento XVI, em muitos de nossos textos, está evidente que Francisco nos encantou desde o primeiro momento (e continua nos encantando). Não apenas por suas vestes simples, seu crucifixo de ferro, suas acomodações sem luxo e seu trono sem ostentação. Seu despojamento, comprovado desde o decorrer de sua vida religiosa na vizinha Argentina, se fortalece em atos genuínos de humildade. Há nele a decisão férrea de estar sempre ao lado das pessoas humildes. Temos um Papa que abraça as pessoas, pede orações, acaricia crianças longe das câmaras de tevê, dá boa noite às multidões, e, sobretudo, temos um Papa que sorri. Sua aparência dócil e afável remete à possibilidade da renovação efetiva da Igreja: combate à corrupção, à pedofilia, ao luxo desvairado, à perseguição aos homossexuais, à aproximação aos marginalizados ou aos mais arredios.

É possível contestar: sob a ótica estatística, 22 falas nada representam. Mero engano. Isto porque ao lado dos depoimentos, estão as igrejas fechadas ou, se abertas, sempre com poucos fiéis. O número de religiosos é mínimo nos recantos da cidade. Foi algo que desde nossa primeira semana em Siena chamou atenção. Buscamos respostas por toda parte. Não tivemos sequer acesso às freiras da Congregação de Santa Catarina, apesar de três insistentes visitas. Estavam sempre em oração. Há muitos fatos (e não hipóteses) que reduzem o caminho em busca da religiosidade autêntica, não obstante os caminhos nos levarem, com frequência, por comunidades vizinhas (San Gimignano, por exemplo) ou por ruas da cidade, com nomes de santos, a exemplo das vias San Salvadero, Santa Caterina, San Pietro, Via San Martino e assim sucessivamente. 

Siena: sacro e profano de mãos dadas

Siena é a única cidade que sobrevive em meio às contradas. O que são elas? Fiel às tradições de luta entre os povos no longínquo século XVII, a cidade medieval promove verdadeira “batalha” entre as contradas, que correspondem aos bairros das grandes cidades. Diferenciam-se por nomes, emblemas e, em especial, por rígida delimitação de território, reforçado pela promulgação de documento oficial, ano 1729, emitido pela princesa Iolant Beatrice da Baviera, Princesa da Toscana. Esposa de Ferdinando de Medici, príncipe herdeiro do trono da Toscana, ao se tornar viúva, ano 1713, lhe coube a função de governar Siena, entre 1717 e 1731, ano de sua morte. Sob seu comando, nova divisão das fronteiras das contradas consolidou-se, determinando a subdivisão do centro histórico da cidade, por incrível que pareça, ainda vigente. 

Para qualquer efeito de ordem jurídica, as contradas caracterizam-se como instituição democrática, independente, soberana e com estatutos próprios. Ao todo, são 17. Sua administração fica a cargo de uma diretoria (Seggio), com mandato de dois anos  a ser renovado, se for o caso . Seu chefe-mor é intitulado de Priore. As sedes das contradas são verdadeiros museus, que cuidam do patrimônio, incluindo tudo que trata da trajetória da instituição: estandartes de eventuais vitórias nos palios (corrida de cavalos sem sela e que é um marco entre as contradas desde 1283) e que ocorrem duas vezes ao ano, nos meses de julho e agosto, na Piazza del Campo; trajes típicos das cerimônias; bandeiras; objetos raros e preciosos, como autógrafos de famosos em visita à sede; livros; atas, etc. 

Se, antes, era proibida união formal entre membros de contradas distintas, hoje, isto já ocorre e, então, cabe aos pais esperarem o filho crescer para decidir a qual instituição vai se filiar. E onde entra a religiosidade ou a falta dela diante da divisão da cidade? Surpreendentemente, cada contrada possui seu padroeiro e “sua” Igreja, sempre vizinha à sede central. Além da imersão batismal na Igreja Católica, as crianças são batizadas, formalmente, nas contradas, que mantêm sua própria pia batismal. É algo tão fora de propósito, algo com cheiro tão forte de mofo, que, decerto, a Igreja Católica (ou qualquer outra) deveria ficar fora dessa disputa e, em contraposição, lutar em prol de interesses sociais com vistas a um mundo melhor. Não acreditei até ver com os próprios olhos! Não só no exterior, mas no interior dos templos, incluindo a majestosa Catedral Duomo, ao lado da imagem de Cristo e dos santos, estão as bandeiras das contradas. Padres (e, como dito, parecem tão poucos na pequena cidade) desfilam pelas ruas com os membros da organização nos dias que antecipam o palio! Torcem! Gritam! Portam-se distantes da irmandade e da paz. É um retrato exótico ou cruel da conjunção entre o sacro e o profano!

Siena: religiosidade e história

Depois de tanta surpresa e após consulta a documentos impressos e eletrônicos, professores, cidadãos comuns, anciãos ou não, acreditamos que o número tão elevado de templos não possui explicação única. Resulta de uma série de fatores. Dentre eles, a própria história senesa nos tempos medievais. A mitologia romana atribui à criação de Siena a Sénio, filho de Remo, irmão gêmeo de Rômulo, fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. “Reza a lenda” que os irmãos eram filhos do deus grego Ares (ou Marte, nome latino) e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Segundo detalhes que não comportam no texto, os meninos foram lançados ao rio Tibre e arremessados às suas margens até serem encontrados por uma loba, que os amamentou e deles cuidou até que um pastor os achou e os criou como filhos, junto com a mulher. 

Depois deste adendo, que explica a quantidade de esculturas nas ruas senesas (como se dá também na capital Roma), expondo os irmãos sendo amamentados pela loba, retomamos a história de Siena para entender a proliferação de igrejas sem devotos. De início, foi ela um povoamento etrusco; depois, uma colônia romana até se tornar, ainda no século V, sede de uma siena (na acepção de comunidade) cristã. Há ainda a presença do Vaticano. Por exemplo, há registro de quatro Papas nascidos em Siena: Alexandre III, Pio II, Pio III e Alexandre VII. Apesar de, oficialmente, o Padroeiro da cidade ser Sant'Ansano, são seneses os dois santos mais conhecidos dentre a população. Além de Santa Catarina (1347-1380), o franciscano São Bernardino (1380-1444) celebrizou-se por invocar, sistematicamente, em seus sermões, na gigantesca Piazza del Campo, em seu exótico formato de meia-lua, o nome de Jesus, provocando tal devoção, que o Conselho Municipal, à época, assentou o monograma IHS (Jesus, salvador dos homens) na fachada do prédio do Governo, seguido por cidadãos que o pintaram no exterior das casas, como se vê, aqui e acolá, até hoje.

Siena: lutas internas e externas

Acrescemos que as fontes consultadas fazem alusão, também, a lutas internas entre nobres seneses e a lutas externas, sobretudo com Florença (Firenze), desde o século XII, quando Siena começou a expandir seu domínio e a rivalizar com a cidade vizinha, uma vez que ambas buscavam dominar a Toscana. Por exemplo, data do remoto século XIII a ruptura entre os Guibelinos de Siena e os Guelfos de Florença, segundo historiadores, fonte de inspiração para a “Divina Comédia”, célebre poema épico da literatura mundial, escrito pelo italiano Dante Alighieri, possivelmente, no século XIV. 

O fato é que, em 1260, os Guibelinos, com apoio de Manfredo, Rei da Sicília (região autônoma da Itália meridional, cuja capital Palermo é a quinta maior cidade do país), derrotaram os Guelfos, na comuna de Castelnuovo Berardenga, em Montaperti / Monteaperti, apesar destes últimos possuírem exército superior tanto em armamento quanto em soldados. O fato de Siena ter sido consagrada à Virgem Maria antes da batalha e, além do mais, se manter livre da ameaça dos aliados da Segunda Guerra Mundial de bombardearem a cidade, ano 1944, para muitos seneses, fortaleceu a devoção da época, justificando, assim, a construção “em série” de tantos templos. 

Adiante, em meio às batalhas entre Siena e Florença, em 1348, o território senese foi atingido pela peste negra, que dizimou, à época, quase 70% de sua população, caindo sob o domínio de Florença, sua eterna rival. Incorpora-se, então, ao “Granducato di Toscana” até a unificação da Itália, ano 1861. Hoje, com sua beleza quase infinita, Siena abriga tão somente 52.775 habitantes que se distribuem em 118 km², aos quais, na atualidade, salvo engano nosso, falta uma pitada de religiosidade! As religiões vigentes e o número de católicos não constam de dados oficiais, mediante a escusa de que o Estado é laico. Não há dados.

Siena: peregrinações em busca da religiosidade

E como dissemos antes: os paradoxos existem. Desde a Idade Média, sua fase áurea, pleno século X, Siena passou a integrar importantes rotas de peregrinação, em especial, graças à construção da importante Via Francigena. À época, ligava Canterbury (principal centro religioso do Reino Unido por abrigar o arcebispo da região) à capital italiana, Roma, prosseguindo até a Terra Santa, expressão adotada pelos cristãos para designar a região onde Jesus nasceu e viveu, com ênfase para Jerusalém, onde morreu e ressuscitou. Posteriormente, século XVII, passou a ser procurada por jovens e ricos europeus à busca de conhecimento. Na atualidade, ano 2019, século XXI, os peregrinos partem de Lucca, comuna vizinha à cidade de Siena, a caminho da capital italiana para alcançar Jerusalém. A retomada das peregrinações – publicidade e propaganda estão por todas as partes – em ritmo acelerado pode representar a busca da religiosidade perdida e da magia das igrejas senesas que parece se esvair!





   131 Leituras


author image
MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”