VOU MORRER SEM REALIZAR MEU GRANDE SONHO: NÃO MORRER NUNCA
Dia 30 de agosto último. O Brasil se despediu de um dos maiores literatos brasileiros: Luís Fernando Veríssimo. Partiu aos 88 anos em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, após internação na UTI do Hospital Moinhos de Vento, desde o dia 11 de agosto, devido a complicações decorrentes de uma pneumonia, embora já viesse apresentando problemas, como Doença de Parkinson, dificuldades cardíacas e um acidente vascular cerebral, que afetou sua mobilidade e fala. Era ele filho do escritor Érico Veríssimo, que povoou a infância e a adolescência de várias gerações, com a trilogia “O tempo e o vento”, série de romances históricos: “O continente” (1949), “O retrato” (1951) e “O arquipélago” (1961). A série conta a história do Rio Grande do Sul, indo da ocupação do Continente de São Pedro até o fim do Estado Novo, através da saga das famílias Terra e Cambará.
A velhinha de Taubaté
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| Fonte: Capa do livro “A Velhinha de Taubaté”, de Luís Fernando Veríssimo, anos 80 (século 20) |
No caso de Luís Fernando, ao longo de mais de seis décadas, publicou mais de 70 obras. Sua versatilidade sempre encantou. Cartunista. Humorista. Tradutor. Roteirista. Dramaturgo. Romancista. Contista. Publicitário. Amante de jazz e ele mesmo um expert em saxofone. Dentre todo este universo, sobretudo, crônicas, fazendo jus aos que fazem crônica por opção e por vocação – o olhar direcionado à própria tessitura social, atento às filigranas que compõem a vida dos indivíduos e dos grupos sociais. São marcas quase invisíveis em meio-tom que dizem sobre o muito que somos no cotidiano. São fios. São teias. E é preciso ser cronista como ele o foi para adivinhar o que está por trás das aparências. Suas crônicas ocuparam colunas de muitos jornais de circulação nacional, a exemplo de “O Estado de S. Paulo” e “O Globo”. Sua trajetória na imprensa começou no jornal diário gaúcho “Zero Hora”, fundado em 1964, onde atuou, também, como revisor, anos antes de lançar seu primeiro livro, “O popular: crônicas ou coisa parecida”, ano 1973.
Luís Fernando foi um mestre na crônica, na acepção genuína do termo em latim chronica (narrativa cronológica) e/ou do termo grego khronikón ou khronikós, derivado de khronos (tempo). Essa origem reflete a ideia de um registro de eventos em ordem temporal, tanto em relatos históricos quanto em textos jornalísticos e literários. Hoje, o gênero “crônicas” comporta uma série de significados que se entrelaçam e se complementam, mas não se contrapõem. São pequenos contos de enredo indeterminado. São textos redigidos de forma livre e pessoal, que contemplam fatos ou ideias da atualidade de teor artístico, esportivo, político, ou, simplesmente, relativos à vida como ela é no cotidiano.
E para quem pergunta quais as obras de maior sucesso de Luís Fernando, eis pergunta de resposta não unívoca. Sem qualquer ordem e dentre crônicas, tirinhas, contos e romances, lá vão: “A grande mulher nua”; “Ed Mort”; “Outras histórias”; “As mentiras que os homens contam”; “As mentiras que as mulheres contam”; “Comédias para se ler na escola”; “Diálogos impossíveis”; “Os espiões”; “Todas as histórias do analista de Bagé”; “O clube dos anjos”; “Aventuras da família Brasil”, “As cobras” (tirinha publicada na “Folha da Manhã”, anos 70, quando um dupla irônica filosofava sobre política e comportamento); “O opositor”; “O jardim do diabo”. Com “O melhor das comédias da vida privada” alcançou os palcos do teatro sob o título “Vida Privada”, dissecando temas, como casamento, fidelidade, amizade e intrigas e dando origem à série homônima da Rede Globo durante três anos. Ainda na tevê, marcou presença como roteirista do programa “TV Pirata”.
Dentre este manancial de publicações, três personagens estouraram no cenário brasileiro: Ed Mort, de 1979, detetive particular atrapalhado e cínico; família Brasil, sátira bastante inteligente sobre a classe média; analista de Bagé, de 1981, na figura de um psicanalista gaúcho com humor para lá de ácido; e a inesquecível Velhinha de Taubaté. Gerada em crônica de 1983, quase ao finalzinho da Ditadura Militar no Brasil, a Velhinha era “a última pessoa que ainda acreditava no Governo brasileiro”.
Para quem tanto escreveu, tanto encantou, tanto conquistou leitores e seguidores, não existe morte, não, Senhor! Verdade que a morte lhe parecia aterradora. Ele que era tímido e econômico nas palavras faladas, costumava afirmar que via, na crônica, a vantagem enorme de poder ser o que quiser. E, então, dizia, com relativa frequência: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca” / “Meu medo é que tenha outra vida após a morte, mas que seja só para debater esta” / “Não há nada que um homem possa fazer no espaço que uma máquina não possa fazer melhor, a não ser morrer.” Mas, fique em paz, Luís Fernando Veríssimo! Você continua entre nós, atravessando gerações e gerações através de seus livros, de suas tiradas geniais, de sua sensibilidade e de seu alcance social...
