ALÉM DAS BIBLIOTECAS


A “BLANCA” DE CADA UM E O ENCANTAMENTO DOS CÍRCULOS DE LEITURA

Lugar-comum iniciar um texto falando da multiplicidade possível de leituras, constatada por tantos estudiosos ao longo dos anos. Isto vem se evidenciando, uma vez mais, em minha vida, com a participação efetiva em círculo de leitura da conhecida Casa de Las Conchas, edifício histórico, que abriga a principal Biblioteca Pública de Salamanca, Espanha.

 

A cada semana, um grupo constituído de pessoas as mais distintas possíveis, incluindo donas-de-casa, escritores, estudantes, professores, funcionários públicos, aposentados, etc., discute um livro distinto. Os autores são, quase sempre, espanhóis, mas há lugar para outras nacionalidades, a exemplo do britânico Kazuo Ishiguro, autor da publicação Los restos del día, que originou o filme The remains of the day (em português, Vestígios do dia) do diretor norte-americano James Ivory, ano 1993.

 

Trata-se de iniciativa simples, praticamente sem custo para a instituição. Portanto, apesar de exemplos, aqui e ali, de algumas bibliotecas brasileiras, poderia ser adotada maciçamente e sistematicamente em quaisquer instituições públicas, municipais ou estaduais, e quiçá, no âmbito das bibliotecas universitárias, no caso do Brasil. No entanto, além da intenção de mostrar a viabilidade de ações dinâmicas para nossas entidades, minha intenção central é discutir a multiplicidade de leituras diante de um mesmo livro.

Tomo como exemplo a obra do jornalista, escritor e ensaísta contemporâneo, Antonio Muñoz Molina, intitulada En ausencia de Blanca, editada pelo Círculo de Lecturas, Barcelona, ano 2001, e logo depois, ano 2002, no Brasil, com o título Na ausência de Blanca. Nascido em Úbeda, província de Jaén (Andalucía), em 1956, Molina lança seu primeiro livro de crônicas jornalísticas, El Robinson urbano, em 1984. Segundo gosta de declarar em suas palestras e conferências Europa afora, o reconhecimento atual em torno de seu nome, não lhe faz esquecer dos esforços empreendidos para lançar seu Robinson...: pagamento de 500 exemplares com suas parcas economias e “sofrida” distribuição entre amigos e familiares. Hoje, é dono de uma bibliografia extensa e bem aceita, com tradução em mais de uma dezena de idiomas. Destaque para seus livros mais recentes: La vida por delante (crônicas, 2002); Ventanas de Manhattan (diário de viagem, 2004); El viento de la luna (romance, 2006); e La noche de los tiempos (romances 2010).

 

No caso de En ausencia de Blanca, sua análise é a prova evidente de que a literatura permite romper o previsto, a reprodução, a repetição, a mesmice, e assim por diante. A grandiosidade da literatura está em permitir aos autores ousar, inaugurar o inusitado, trazer à tona o surpreendente e / ou o extraordinário. Nada mais literário / poético / artístico do que a probabilidade de transgredir e assegurar seu próprio espaço na imaginação e na fantasia para si e para os demais.

 

Assim, quando do momento recente de discussão em torno de ...Blanca, em diferentes momentos, me perguntava: será que estamos tratando do mesmo livro? Num contexto provinciano, em Jaén, dois destinos se cruzam. Cruzam-se, mas não se tocam. Apenas se roçam. Atritam-se. Afinal, há feroz distanciamento entre eles por suas profundas diferenças. Diferenças que os fazem distantes. Aliás, irremediavelmente distantes. São distinções que incluem aspectos cotidianos, a exemplo de comida, experiência sexual, ambições, gostos culturais, e, sobretudo, visão de mundo, como a fala de Mário reforça:

 

Quantas vezes em sua vida, se torturara diante de um quadro, de um filme, de um quarteto de música de câmara, perguntando para si mesmo, se, de verdade, gostava de tudo aquilo? Se não seria um pouco ridículo mover ritmicamente a cabeça ou acompanhar a música com os pés? Se a interrupção que se avizinhava seria indício do final e, então, exigiria imediatos aplausos ou seria tão-somente um breve intervalo? […] (p. 49). 

 

Desde o princípio, a estratificação social e, sobretudo, a forma de ver a própria vida marcam presença. Ela, Blanca, mulher de 29 anos, rica, frívola e liberal, vagueia pela vida. Parece perdida e não consegue encontrar rumo... Está sempre pendente de algum grande amor. Mostra-se incapaz de enfrentar suas próprias dores. Do outro lado, ele, Mário, pobre, burocrata, monótono e passivo diante da vida. Escravo de seu profundo complexo de inferioridade parte para outra forma de servidão: torna-se cativo de uma paixão avassaladora, que lhe toma por completo.

 

É uma relação fadada ao fracasso ou, se preferirem, é uma outra leitura do amor. Amor que não resiste à rotina, e, sobretudo, amor que não resiste ao desamor. E, por fim, quando Blanca se vai, compete ao leitor dar asas à imaginação. Em suas primeiras linhas, Muñoz Molina diz: “A mulher que não era Blanca veio, do fundo do corredor, em direção a Mário [...]” Em suas últimas linhas, o autor arremata:

 

[...] Aquela mulher que o abraçava não era Blanca. Blanca nunca haveria respirado nem gemido assim. Blanca, a outra, a verdadeira, a quase idêntica, aquela que já não lhe importava haver perdido [...] (p. 119).

 

E a partir daí, as interpretações jorram aos borbotões dentro do grupo de leitura diante do desafio de responder à pergunta – quem é a Blanca que surge ao final do romance de Muñoz Molina?  Há quem opine que há uma só Blanca: uma Blanca que parte em busca de um novo amor e volta, agora, mais banal e mais vulgar: “[...] a outra [...] nunca se haveria posto a rir em seus braços nem tampouco murmurado em seu ouvido palavras desavergonhadas e de doçura como a desconhecida lhe sussurrava”. Há quem opine que, a partir de Blanca, a dor da perda faz com o que o homem apaixonado a busque em todas as outras mulheres, quase em tom de desespero. Há quem, como eu, acredite que, com o abandono de Blanca, Mário recorra a mulheres a quem possa pagar para que representem a “sua” Blanca, em suas roupas e em seus sapatos, embora resvalem na hora do amor e se mostrem mais ardentes ou despudoradas...

 

Há mil interpretações e há, principalmente, a certeza de que nisto reside o encantamento da leitura e da escrita – cada um projeta suas próprias aspirações, dores e expectativas nos textos que lê. Por isto, de uma forma ou de outra, os círculos de leitura são mágicos em diferentes aspectos – o reconhecimento / a descoberta de diferentes autores, o convívio com novos companheiros, mas, sobretudo, a oportunidade ímpar de comprovar a oportunidade de constatar o lema tão propalado – a leitura é per se uma ação solitária. E não nos referimos tão-somente à leitura textual, mas, sim, à leitura mais ampla, quando nos posicionamos diante da amplitude da vida. E, por conseguinte, quando julgamos os outros em seus acertos e em seus erros, banais ou violentos, a depender do olhar de cada um, quando exercemos a função de juiz implacável e cruel...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”