ALÉM DAS BIBLIOTECAS


CISNE NEGRO

Cisne Negro conta a história de Nina, extraordinária bailarina de importante companhia de balé de Nova Iorque, completamente absorvida e obsessiva em seu desejo de conquistar o papel central, o que lhe faz sentir deslocar-se frente à própria vida. Dito assim, de forma sucinta e sem rodeios, ninguém se dá conta do polêmico que resultou este filme dirigido por Darren Aronofsky (o mesmo de O lutador e Requiém para um sonho) e roteiro de Mark Heyman e Andres Heinz. No elenco, além de Natalie Portman (Nina), estão Mila Kunis (como Lily), Vincent Cassel (como o diretor artístico Thomas Leroy), Ksenia Solo (como Veronica), Winona Ryder (como Beth MacIntyre), entre outros.

 

Cisne Negro não deixa ninguém imune. É uma produção da qual gostamos muito ou que detestamos muito. Em qualquer das circunstâncias, saímos da sala de projeção carregando o peso do mundo em nossas costas, o que justifica sua classificação no gênero suspense ou, para alguns, drama. É um filme denso em quase a totalidade dos 103 minutos de projeção. Denso no sentido literal do termo: amores patológicos, desamores, desequilíbrios emocionais, competitividade exorbitante no lugar de trabalho, dores silenciadas no mundo das drogas, dores gritadas sob a forma de tentativas de suicídio, troca de favores no mundo das artes (aliás, como em qualquer outro), o amargo sentimento que inunda a alma de qualquer um quando o afeto desaparece.

 

Cisne Negro comporta uma quase infinita possibilidade de interpretações. Em rodas de discussão que se formam nos pátios das universidades ou nos terraços dos bares, em blogs ou em sites especializados em cinema, não há consenso em torno da qualidade do filme e / ou da essência dos personagens. Tampouco há unanimidade sobre a atuação de Natalie Portman, agraciada com o Oscar de Melhor Atriz 2011. Há quem assegure que sua atuação é demasiada, excessiva, exagerada. Há quem a perceba maravilhosamente realista, sobretudo, nas duras e cruéis cenas de automutilação e de tórrida masturbação.

 

Cisne Negro, até hoje, depois de meses e meses de lançamento – estreia antecipada em setembro de 2010, quando do 67º Festival de Cinema de Veneza; estreia oficial nos Estados Unidos (Black Swan), em dezembro do mesmo ano; no Brasil, fevereiro de 2011 – desperta opiniões contraditórias. Mas, há pontos unânimes: a entrevisão da beleza fantástica do balé como arte, mas, sobretudo, a beleza e a fealdade que cada ser humano carrega consigo. Temos dentro de nós um cisne branco e um cisne negro. Branco, na acepção de translúcido, cândido, sem mácula, ingênuo, imaculado ou isento das sujeiras da vida. Negro como triste, lúgubre, funesto, melancólico, maldito e sinistro.

 

Cisne Negro relembra, assim, o pensamento de um escritor e jornalista colombiano Héctor Abad Faciolince que sintetiza este sincretismo do homem, quando diz que somos, irremediavelmente, semelhante a um cubo posto sobre uma mesa. Há uma face que todos podem enxergar: a que está em cima. Há duas outras faces – em cada um dos lados – que alguns conseguem visualizar e outros, não, embora, mediante esforço, cada um possa também vislumbrar. Há uma face que somente nós mesmos enxergamos – a que está à frente de nossos olhos. Há outra face que só os demais vêem – a que está frente a eles. Há uma face oculta a todos, incluindo a nós mesmos – a face na qual o cubo se apoia.

 

Cisne Negro, por tudo isto, no mínimo, tem o grande mérito de nos fazer pensar sobre o que, de fato, somos. Por exemplo, quando um ente querido se vai, e nos resta arrumar ou revisar seus pertences, à medida que descobrimos sua intimidade, desnudamos facetas até então visíveis somente para ele. São aspectos particulares que protegemos, conscientemente ou não, contra o olhar dos demais. Refiro-me à doce ou à agre intimidade, ao nosso cisne branco e ao nosso cisne negro, nem sempre embalados pela excelente trilha sonora sob encargo de Clint Mansell...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”