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ILANA... MENINA GORDINHA, LINDA, SIMPÁTICA, ALEGRE, EXTROVERTIDA E ATREVIDA

Ilana... Menina gordinha, linda, simpática, alegre, extrovertida e atrevida. Fala o que lhe “dá na telha”... Ilana, o centro das atenções da família... Aos 10 anos, a primeira e irreparável perda. O pai sobe aos céus. Com ele, seu referencial de força, apoio e proteção. O mundo desaba. A menina gordinha, linda, simpática, alegre, extrovertida e atrevida desperta para as dores da vida, de forma rápida e inacreditável. Amadurece “no carbureto” e vai além do que julga ser capaz de suportar.

 

A menina gordinha se faz adolescente, mulher, esposa e amante, mãe, profissional... A compulsão alimentar a persegue como uma sombra que a espreita em ocasiões de fragilidade. Impossível esquecer seu passado de menina gordinha, linda, simpática, alegre, extrovertida e atrevida. Impossível esquecer seu passado de adolescente “cheinha”. Impossível esquecer o intenso sentimento de rejeição corporal que carrega consigo. Experimenta a sensação de não ser merecedora de atenção. Nutre sentimentos de malogro e de derrota. Vê-se fracassada por não conseguir vencer a “inimiga” obesidade. Sente-se fascinada e atraída diante do odor, do sabor, da textura, do colorido e da visão cheia de feitiço da comida.

 

A situação se agrava. Diagnosticada com hipertensão, decorrente de excesso de peso, sedentarismo, estresse e histórico familiar, depois de muita hesitação e investigação sobre o tema, a cirurgia de redução de estômago aparece como a medida ideal. Mas há sérios questionamentos. Se vão cortar seu estômago, o que fará com sua compulsão e ansiedade? Há questões e dúvidas, muitas dúvidas.

 

Por fim, lá vai Ilana à mesa de cirurgia. Nada de passe de mágica. A cirurgia de redução de estômago (cirurgia bariátrica) é um longo processo [que] lhe conduz a um longo caminho de mudança de vida. Transformações de hábitos alimentares. Transmutações de posturas em relação à saúde. Início de atividades físicas regulares. Aprendizagem rumo ao exercício de paciência, tolerância e aceitação. O resultado aparece, pouco a pouco. Nova imagem corporal surge. Novo corpo, nova carne, nova pessoa. Tudo é um tanto assustador, mas, ao mesmo tempo, prazeroso. Ilana dá adeus à menina gordinha, linda, simpática, alegre, extrovertida e atrevida e desponta mais afetuosa e amorosa diante da vida. É a redescoberta de sua corporeidade feminina.

 

Transcorridos alguns anos, hoje, aos 40 anos [...] como profissional da área de psicologia, Ilana dedica-se especificamente à psicoterapia de base humanista-fenomenológica. Busca, com garra, encontrar o prumo de sua própria vida. Simultaneamente, tenta ajudar aos demais que sofrem de compulsão alimentar (ALMEIDA, 2012, p. 15-18).

 

São com essas palavras que Ilana Arêa Leão de Almeida inicia o livro FOME DE VIDA, recém-lançado em Teresina – Piauí pela Editora da Universidade Federal do Piauí, com apoio da Faculdade Santo Agostinho. Trata-se de uma edição que contempla, com linguagem acessível ao grande público, sua vivência pessoal e profissional em torno de um dos grandes problemas da humanidade nos dias de hoje. Estamos nos referindo à obesidade. Numa sociedade em que o império da beleza e o culto ao corpo ameaçam valores e crenças, há muito tempo deixou de ser considerada tão somente uma doença crônica causada por múltiplos fatores e ela mesma responsável por uma série de consequências. É fator de risco para patologias graves, a exemplo de diabetes, hipertensão, derrames cerebrais, reumatismo, enfermidades cardiovasculares, distúrbios reprodutivos em mulheres, problemas respiratórios e apneia do sono.  E mais do que isso, face à saúde corporal como condição essencial para a saúde da alma e do espírito, a obesidade condena ao isolamento quantidade crescente de pessoas que sentem excluídas ou execradas.

 

“Gordinhas” ou “gordinhos”, quase sempre, se sentem segregados. Enfrentam diuturnamente dificuldades de sobreviver com dignidade frente a situações corriqueiras. No avião, os sorrisos zombeteiros dos companheiros de viagem na expectativa de ver como o indivíduo vai arrumar o “corpão” na poltrona diminuta, que lhe nega conforto. Num simples translado de ônibus local, o mesmo ocorre, quando é obrigado a transpor as estreitas roletas sob o olhar dos demais. E o que dizer do incômodo nas fileiras do teatro, do cinema ou do circo? O lazer se esvai e o mal-estar parece gritar em seu corpo e em seus sentimentos. Dançar é motivo de galhofa, piadas e gracejos. As cobranças vêm de todas as partes, incluindo as escolas, em qualquer nível, onde são o alvo predileto dos praticantes do denominado bullying, tão em voga.

 

Na percepção de Ilana, os portadores de obesidade mórbida competem em desigualdade de condições em seleção de emprego. Por conta de seu estado físico, à primeira vista, são considerados como indivíduos com restrições para exercer certas atividades profissionais. Também levam desvantagem em tentativas de atuar no teatro, salvo peças que precisem de figuras cômicas ou que se atrapalhem facilmente ou, pior, que atrapalhem tudo. Além do mais, desde o primeiro momento, perdem pontos em disputa por cargos concorridos, além de estarem, algumas vezes, sujeitos a receberem soldos menores. E o que é mais grave: ao que parece, possuem menos chances de envolvimentos afetivos duradouros e estáveis.

 

Ao tempo em que Ilana discorre sobre os mitos, ritos e ditos da obesidade, explora, simultaneamente, aspectos científicos da cirurgia bariátrica (redução de estômago) para obesos mórbidos, e, ainda, itens fundamentais para a compreensão da corporalidade feminina na contemporaneidade, mediante pesquisa científica de natureza qualitativa via método fenomenológico. Finaliza com o relato de experiências vivenciadas por algumas pacientes a quem acompanhou por longo período de tempo, lançando mão de registros de arquivos e seus depoimentos.

 

Isto porque, exatamente pela complexidade envolta na obesidade, pacientes – homens e mulheres – antes, durante e após a cirurgia, devem ter assistência de equipe multidisciplinar. Esta envolve cirurgião, assistente cirúrgico, cardiologista, pneumologista, clínico geral e anestesista. A depender da fase, a esses especialistas se juntam outros profissionais, tais como enfermeiro, nutricionista, psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e educador físico. É então que Ilana Arêa Leão de Almeida, na condição de psicóloga e psicoterapeuta traz à tona a os cuidados que os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica precisam ter no campo emocional, uma vez que há flagrante indissociabilidade entre corpo e psique.

 

Para a literatura médica, não existe ex-obeso. A compulsão alimentar persegue como sombra que espreita para atacar os desavisados em momentos de extrema fragilidade. Como doença crônica, a obesidade mórbida requer atenção constante, segundo palavras plenas de emoção de uma das entrevistadas, cuja identidade é eticamente salvaguardada ao longo da obra. Ela diz: “Foi um renascimento [...] Não é que eu não tenha mais problemas. É que eu passei a conviver com eles de uma forma diferente. Hoje, me sinto mais forte [...] Não tenho mais pena de mim, como [...] antes. Ao contrário. Vivo buscando novos desafios [...]”.

 

Por tudo isso, FOME DE VIDA, em linguagem simples para tratar de tema tão angustiante e universal, se transforma em livro acessível aos portadores de transtorno alimentar, em especial, às mulheres, mas, também, a quaisquer outros interessados. Diz respeito a médicos, psicólogos, terapeutas, nutricionistas. Vale para obesos e magros; políticos e eleitores; bonitos e feios; desempregados e empresários; grandes artistas e aspirantes; jovens e adultos, donas de casa e executivas; professores do ensino fundamental ou universitário.

 



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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”