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GUERREIRO DA PAZ: PLÁGIO JUSTIFICADO?

Todas as pessoas seguem a mesma trajetória: nascimento, vida e morte. Lugar comum. Todas deixam sempre pegadas em seus caminhos. No entanto, além dos rastros nas alamedas da vida, há quem delineie a história da humanidade. São responsáveis pelo destino de sua gente. São exemplos de vida. São indestrutíveis diante do tempo.

 

Assim foi Nelson Mandela. Negro. Guerreiro incansável. Consciência profunda (desde sempre) da indignidade contida nos princípios de apartheid, instituído a ferro e fogo em sua nação – África do Sul – por governantes do Partido Nacional, especificamente, em 1948. Foram muitos anos de humilhação para os negros: o final do sistema se deu somente em 1994, ironicamente, pelas mãos de membros do mesmo Partido. O advogado Mandela não assiste ao drama de sua raça passivamente. Rebela-se. Luta com unhas e dentes contra a segregação racial praticada no país, privilegiando, de forma descarada e inacreditável, a minoria branca, com o ínfimo percentual, à época, de 20% contra 68,3% (negros) e 11, 7% pertencentes a outras etnias.

 

Os casamentos mestiços são considerados crimes. Os negros não podem frequentar os mesmos lugares e / ou se beneficiar dos mesmos serviços que seus irmãos brancos. São isolados em guetos distantes. São relegados em sua dor. Diante da voz altiva que não se cala, os governantes condenam Nelson Mandela à pena perpétua, ano 1963. Mesmo na prisão, por longos 27 anos, o prisioneiro 46664 prossegue seu combate contra o regime. De volta à liberdade, 1990, Madiba (nome do clã Thembu a que Mandela pertence e carinhoso apelido com que sua gente o chama) nem se cala nem apregoa a vingança contra seus desafetos.

 

Continua sua batalha até o fim da violenta segregação racial e social, ajudado pelo fato de a nação atravessar séria crise econômica. Elege-se como o primeiro presidente negro, ano 1994. Permanece fiel aos seus ideais mais profundos – melhor qualidade de vida para o povo – em vez de se eternizar no poder. Deixa a presidência em 1999, como previsto. As mudanças prosseguem. Como “guerreiro da paz”, título de matéria da revista Veja (edição de 11 de dezembro), Mandela não para. Avança. Sua busca pela paz sem tréguas e sem temor o faz merecer o Prêmio Nobel da Paz, 1993.

 

Ao deixar a terra rumo aos céus, aos 95 anos (1918-2013), o líder sul-africano, mais do que pegadas – como nós, seres comuns – deixa um legado de serenidade. Luta d’alma. Ética. Honestidade. Simplicidade. Amor genuíno às coletividades. Mesmo assim, é preciso lembrar que a África como continente ainda guarda em si muita miséria. Sair de Quênia e Tanzânia – onde estivemos há pouco tempo – e desembarcar em Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul, é vivenciar “na pele” as disparidades que há entre os povos africanos. Por exemplo, visitar os parques de Quênia e Tanzânia é assistir ao teatro da vida. A existência humana se confunde com a dos animais, em qualquer espaço. Crianças esquálidas e maltratadas estão por toda parte e se misturam com elefantes-bebês sem mães, quase sempre exterminadas pela caça proibida, mas recorrente. Homens de aspecto corajoso ou doce. Mulheres de aspecto submisso ou bravo. É o universo dos animais que se acerca ao universo dos humanos ou vice-versa.

 

Tivemos a oportunidade de conhecer o bairro de Soheto, onde o herói iluminado viveu parte de sua vida. E mesmo em Joanesburgo, apesar de os negros não serem mais agredidos a pauladas, há, ainda, como resultado da falta de oportunidades por décadas e décadas, tal como ocorreu no Brasil, grave estratificação social. Os negros estão, ainda, prioritariamente, em profissões menos valorizadas no contexto social, salvo gratas exceções. O esplendor das belas lojas da capital com seu colorido exuberante contrasta com a beleza da cor negra de quem nos atende. O mesmo se dá em hotéis e restaurantes.

 

Mas nada disso reduz a magia que envolve, com justiça e reconhecimento, a lembrança de Nelson Rolihlahla Mandela, o que justifica homenagem anterior da Organização das Nações Unidas em instituir o dia de seu nascimento, 18 de julho, como o Dia Internacional Nelson Mandela visando chamar atenção para sua peleja em prol da igualdade e da justiça social. De fato, no continente africano e, sobretudo, na África do Sul, onde quer que se vá, a impressão que se tem é que o líder está por toda parte: cartazes, falas que se eternizam, nomes de lugares, etc. etc. Afinal, tudo é pouco para reconhecer a grandeza do imortal “guerreiro da paz”!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”