ARQUIVOS E ARQUIVISTAS


NOVAS PERSPECTIVAS PARA OS PROFISSIONAIS DE ARQUIVO - OS CENTROS DE MEMÓRIA

Ao longo dos últimos anos, os profissionais de arquivo têm acompanhado o surgimento de uma série de novos espaços de trabalho, bem diferentes dos arquivos públicos tradicionais, sempre priorizados na teoria arquivística. E mesmo os espaços tradicionais têm se modificado consideravelmente, frente às novas demandas de uma sociedade cada vez mais ágil e com mais recursos tecnológicos para o tratamento e disseminação da informação.

 

Por isso, é importante que tenhamos um espaço para discutir quais são essas demandas, quais os novos espaços e os novos usos para os acervos arquivísticos que a sociedade tem criado. Essa coluna tem esse objetivo: discutir como e onde os profissionais de arquivo vêm trabalhando e quais os conhecimentos necessários para essa nova atuação, mais dinâmica, mais qualificada e mais importante para a sociedade.

 

O primeiro tópico que vamos tratar é um assunto que venho trabalhando há alguns anos e que, por entender ser bastante desconhecido dos profissionais da área, vou apresentar mais detalhadamente: os centros de memória.

 

Desde o final da década de 1980, os centros de memória institucional, um tipo de entidade de preservação, misto de acervo arquivístico, museológico e bibliográfico, têm a missão de salvaguardar os documentos ligados à memória de suas organizações e divulgá-los.  Apesar da importância de seu acervo para a pesquisa em diversas áreas do conhecimento, essa missão parece difícil de ser concretizada.

 

Problemas estruturais dentro das organizações, uma certa desconfiança da sociedade em relação aos objetivos que cumprem individualmente e a ausência de uma política clara de preservação e divulgação dos acervos, parecem contribuir para as dificuldades que muitos gestores de centros de memória relatam.

 

Mas para compreendermos as várias dimensões desta questão, vamos tentar organizar a discussão em partes. Nesta coluna, falaremos sobre o conceito de centro de memória e questões técnicas relacionadas ao seu funcionamento. Depois, nosso tema é a preservação da memória das organizações. Conceitos como memória e cultura organizacional precisam ser mais discutidos. Uma outra questão está relacionada ao uso do acervo dos centros de memória do ponto de vista da estratégia organizacional. Qual o papel do centro de memória nesse processo?

 

Por fim, a preservação de arquivos privados de caráter histórico. Como a sociedade pode atuar para que mais acervos históricos sejam preservados e divulgados para pesquisa?

 

Para começar: o que é um centro de memória?

 

O conceito de centro de memória é derivado de dois conceitos definidos pela biblioteconomia: documentação e centro de documentação. A definição clássica de Documentação é a de organização de informações relacionadas a um assunto, sem restrições de acervo (1).

 

Um centro de documentação seria, portanto, uma entidade que reúne qualquer tipo de documento em torno de uma especialidade bem determinada (2).

 

Por associação, poderíamos dizer que os centros de memória são centros de documentação destinados a um tema específico, neste caso a memória de uma organização ou de uma área de conhecimento.

 

Numa rápida pesquisa na internet, podemos encontrar centros de memória empresariais (Klabin, Bunge, Unilever, Bosch, Votorantim, Itaú, Gol etc.), de clubes esportivos (Paulistano, Esporte Clube Pinheiros, Santos Futebol Clube, Clube Atlético Mineiro, entre outros), temáticos (Centro de Memória do Carnaval, Centro de Memória do Circo), políticos (Centro de Memória Mário Covas), entre tantas outras possibilidades.

 

A equipe do Memória Itaú (3) define assim um Centro de Memória (CM): é uma área de uma instituição cujo objetivo é reunir, organizar, identificar, conservar, produzir conteúdo e disseminar a documentação histórica para os públicos interno e externo. Ecoando os valores das instituições, os CMs geram produtos e serviços, dialogando com o campo da gestão do conhecimento, da comunicação e da cultura organizacional.

 

O primeiro problema é a composição do acervo. Normalmente, o centro de memória possui documentos arquivísticos, museológicos e bibliográficos, e o tratamento de cada conjunto precisa seguir referências técnicas das respectivas áreas. Na maior parte das vezes, os documentos de arquivo predominam. Mas não podemos falar em arquivos históricos no sentido estrito, porque normalmente os documentos que chegam ao CM são partes do arquivo da organização e arquivos pessoais selecionados para preservação muito mais por questões temáticas do que por uma avaliação sistematizada pela gestão documental. Ao lado dos arquivos, há objetos representativos da cultura organizacional ou produtos, preservados por questões técnicas ou memorialísticas. E também livros, de acordo com a característica técnica da área de atuação ou como apoio ao funcionamento do centro de memória.

 

O que importa é que, em sendo um centro de documentação especializado, a possibilidade de haver diferentes tipos de acervos é sempre grande, mesmo que um ou outro predomine.

 

Por isso encontramos historiadores, arquivistas, museólogos, bibliotecários, comunicadores trabalhando nesses centros. Profissionais de diferentes formações, acostumados a diferentes metodologias e, o principal, com diferentes concepções teóricas a respeito da informação contida no acervo.

 

Em São Paulo, historiadores e bibliotecários parecem predominar, especialmente pela ausência do profissional arquivista graduado, devido aos poucos cursos existentes (na verdade um único no Estado), que não suprem a demanda. Mas também pela tradição de historiadores e bibliotecários trabalharem em acervos ditos “especiais”.

 

É nessa ideia de “especial”, que reside o problema do acervo. A grande necessidade de interlocução entre as áreas, a necessidade de compreender que o tratamento dado ao acervo é diferente em cada caso e que para isso também é necessário competências diversas, raramente contempladas por um único profissional, tudo isso dificulta o processo de organização e disseminação da informação.

 

O trabalho com a memória de uma organização ou de uma área do conhecimento requer a interlocução entre diferentes profissionais, o que deve contribuir para ampliar as possibilidades do acervo e não fechá-lo numa redoma. Mas isso é assunto para a próxima coluna. Não percam na próxima coluna: afinal o que é a memória institucional? E a memória organizacional?

 

Espero vocês! Até lá!

 

Notas

(1) SMIT, Joahnna. O que é documentação. São Paulo. Brasiliense, 1987 p.10

 

(2) BELLOTTO, Heloísa L. Arquivos Permanentes: tratamento documental. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 274.

 

(3) Instituto Itaú Cultural. Centros de Memória: manual básico para implantação. São Paulo: Itaú Cultural, 2013, p. 12. Disponível em:  <http://www.itaucultural.org.br/explore/blogs/centros-de-memoria-2/centros-de-memoria-manual-basico-para-implantacao-2/> Acesso em 10/10/2015.

 


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MARCIA PAZIN

Doutora e mestre em História Social (FFLCH/USP), Especialista em Organização de Arquivos (IEB/USP). Professora do Curso de Arquivologia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP - Campus Marília.