COTIDIANO INFORMACIONAL


UMA FORTALEZA QUE INFORMA: BREVE NOTA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE INFORMAÇÃO E CIDADE

Neste texto tenho como objetivo lançar luzes para se poder problematizar a cidade no âmbito da Ciência da Informação. Moradia do diverso, mas também do medo e da indiferença, do encontro e da aventura, a cidade foi analisada sob diferentes prismas nas Ciências Humanas. Em um livro intitulado “O direito à cidade”, Henri Lefbvre nos apresenta algumas de suas ideias acerca da cidade e do que ele próprio considera como necessidades fundamentais do homem urbano, que extrapolam a esfera do material e dizem respeito ao social. Nas palavras do autor, tratam-se de “necessidades antropológicas socialmente elaboradas”, que compreenderiam desde atividades lúdicas até de informação. E é justamente no território da informação que desejo assentar a discussão.

 

Embora a cidade tenha uma origem pré-industrial, como salienta Henri Lefbvre, não se pode desconsiderar o papel da industrialização na formação do tecido urbano. Hoje, entretanto, autores como Manuel Castells buscam abordar a reestruturação do capitalismo a partir de uma economia balisada pela informação. De modo análogo, podemos pensar numa cidade informacional, ou, pelo menos, diretamente afetada pelo “fenômeno informacional”? Creio que sim. No entanto, não é acerca dos bits e byte urbanos, sobre lugares de conexão e acesso à internet muito comuns nas metrópoles contemporâneas que pretendo chamar a atenção neste texto, mas, sim, sobre as imagens que invadem, sem pedir licença, nossas retinas no cotidiano, estampadas algumas das vezes em muros e postes de iluminação ou sinalização.

 

Estas informações fazem parte de uma cidade informacional mesmo sem estarem diretamente atreladas às máquinas telemáticas. De um certo ponto, as imagens a que me refiro, das quais selecionei duas para reproduzir aqui, refletem o atual modo de vida urbano, às vezes, apresentando-se como crítica a ele, logo, como alternativa ao que estamos a experienciar a partir de um forte contexto de reestruturação capitalista e informacional.

 

Durante o ano de 2013, Glória Diógenes se dispôs a realizar uma pesquisa de cunho etnográfico tomando como objeto as intervenções de artistas e graffiters em Lisboa. Como técnica, a antropóloga decidiu caminhar pela cidade deixando-se guiar pela paisagem e pela curiosidade. Não adotou mapas, rotas ou quaisquer outros tipos de representações gráficas e geométricas da cidade. Sua principal técnica foi a da deambulação, ou seja, andar sem destino. Um deslocamento geográfico, mas também cultural, próprio do trabalho de campo antropológico. Assim, pôde estabelecer encontros, interpretar os sentidos de algumas imagens e criar familiaridade com a realidade que decidiu investigar.

 

Esta liberdade lhe foi muito útil num primeiro momento, relacionado a necessidade de aproximação com o objeto, entretanto, passada essa fase, houve a necessidade de se realizar algum itinerário, privilegiando os corredores onde se observava a maior incidência dessas imagens em Lisboa. No tocante a isso, a autora destaca que não são todos os espaços da cidade que permitiam a realização de graffitis, por exemplo. Durante sua estadia, ela percebeu a existência de zonas em que tal prática era até desejada pelos moradores, porém existiam outras em que ela era marginalizada e estigmatizada, sendo frequentemente associada ao universo da pixação. Outro aspecto interessante notado por Glória Diógenes refere-se a efemeridade com que os desenhos e letras são apagados e reinscritos das paredes. Nesse contexto, não se ambiciona a fixação, a não ser em blogs e demais páginas da internet, as quais a pesquisadora teve acesso. Ao contrário, o fluxo importava mais.

 

Em Fortaleza-CE, cidade onde nasci e resido, é possível identificar várias paisagens marcadas por frases ou mesmo pelo graffitti apenas deslocando-se por suas ruas e avenidas. Certo dia, no trajeto de casa para o trabalho, decidi registrar duas imagens por terem chamado minha atenção. Uma delas estava estampada num poste de fiscalização instalado pela prefeitura com o objetivo de reduzir o número de infrações de trânsito, tais como avanço de sinal vermelho ou estacionamento sobre a faixa de pedestres. E, uma segunda, bem maior do que a primeira, cobria a fachada de um antigo prédio localizado numa das avenidas do centro da cidade. Esta chamou minha atenção não só pelo tamanho, mas principalmente pela diversidade de cores em meio a paisagem quase monocromática do local. Os prédios próximos, em sua maioria, deteriorados, contrastavam com aquele que sediava a intervenção artística reproduzida logo abaixo:

 



 

Na primeira imagem pude observar duas frases. A primeira dizia: “sinal fechou? lembra do perfume dela”; e uma segunda, na outra lateral, anunciava: “vai dá certo”. A mensagem estampada no sinal ironizava o ritmo acelerado com que se vive nas metrópoles contemporâneas. Uma forma de intervenção artística que tem como objetivo contrapor-se a ordem estabelecida de uma corrida pela sobrevivência, reivindicando, ainda, o afeto em confronto com o individualismo e a indiferença tão comum nas pessoas quando estão à espera do sinal verde para prosseguir com seus carros. Algumas vezes, são 30 segundos que duram uma eternidade. E que, de esquina em esquina, vão reforçando aquilo que Simmel nomeia como “atitude blasé”, comportamento que impossibilita os indivíduos de reagirem aos estímulos externos (sejam eles sociais, políticos e/ ou culturais) com a “energia” necessária. Nas palavras do próprio autor, “a base psicológica do tipo metropolitano de individualidade consiste na intensificação dos estímulos nervosos”, promovendo uma “subjetividade altamente pessoal”, onde “objeto algum merece preferência sobre o outro”.

 

A frase inscrita na outra lateral vaticina que a vida urbana dará certo. A cidade, mesmo sendo caracterizada cada vez mais como espaço por excelência do medo, nela, ainda se pode conviver com o diferente. Bauman, por exemplo, destaca esse fato contraditório: a evitação do Outro e a atração que ele incita. Contudo, a cidade também pode ser descrita por outros elementos, como faz Sennett, ao pontuar que uma “história da cidade” pode também ser contada por meio do corpo de seus habitantes, atentando para como mulheres e homens se deslocam, veem e ouvem o mundo a sua volta, sentem odores e desenvolvem hábitos alimentares e de vestuário, dentre várias outras coisas.

 

Apesar de não ter conseguido identificar com precisão suas formas e desenhos, até pela velocidade que o deslocar pela cidade impõe, a intervenção urbana realizada através do graffiti num dos prédios do centro de Fortaleza-CE contesta a “privação sensorial a que aparentemente estamos condenados […]; a passividade, a monotonia e o cerceamento táctil que aflige o ambiente urbano” (SENNETT). Assim, a identificação dos desenhos talvez não seja tão importante quanto a diversidade de cores utilizadas pelos artistas e “grafiteiros”. Mesmo num primeiro olhar, ainda desatento, buscando reconhecer pontos, formas e traços, o caos colorido deste edifício intenta alertar para a necessidade de rompermos com a segregação, estando atentos às diferenças do Outro, respeitando-as, sobretudo.

 

A cidade, portanto, pode ser entendida como um caleidoscópio de experiências, e essas “informações-monumento”, inscritas em muros, postes e demais espaços físicos, podem sempre nos lembrar que é possível abandonar o encarceramento e se lançar ao contato com o Outro. Tratam-se de espaços que não são construídos originalmente para essa finalidade, porém são simbolicamente apropriados por aqueles que se sentem incomodados e buscam provocar mudanças. É uma forma de expressão, assim como um texto. Por esse motivo, lembrando Geertz, trazem elementos da cultura e são passíveis de diferentes leituras e interpretações por quem se lança ao desafio de perceber a sua presença na cidade.


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JEFFERSON VERAS NUNES

Mestre em Sociologia pela UFC, doutor em Ciência da Informação pela UNESP e professor do Departamento de Ciência da Informação da UFC