ALÉM DAS BIBLIOTECAS


REFLEXÃO OU GRITO DE SOCORRO SOBRE A AVALIAÇÃO DE NOSSAS REVISTAS

Num momento em que o Brasil vive verdadeira convulsão política, econômica e social, a palavra – ÉTICA – é a mais repetida aqui e ali, em circunstâncias e instâncias as mais distintas. No entanto, diante da competitividade que grassa com insensatez em meio à academia levando à “raia da loucura” a valorização exacerbada em torno da quantificação da produção científica, relegando-se mais e mais o aspecto qualitativo a ponto de criar e alimentar correntes antagônicas, mais do que interessante, é deprimente atestar que revistas científicas em diferentes áreas, e, comprovadamente, em campos, como a ciência da informação, salvo exceções que devem subsistir, estão se deixando corromper por “igrejinhas” ou lobbies nefastos ao crescimento da ciência e da tecnologia. Aliás, antes de maléfico à C&T, trata-se de comportamento aético e corrosivo a tudo que se apregoa nas disciplinas de ética nos cursos de graduação e de pós-graduação.

 

Independentemente dos que se opõem aos males da produção desenfreada em confronto aos que defendem a produção acelerada e a seleção posterior a cargo do público (vide fontes publicadas quase simultaneamente ao final do texto), o fato é que as próprias agências brasileiras de fomento vêm vergonhosamente estimulando o “roubo” de autoria. É quando, por exemplo, privilegiam com conceitos mais elevados as revistas cujos autores ostentam títulos de doutores e / ou pós-doutores em artigos publicados a duras penas por seus orientandos que aparecem como segundos autores. E há casos mais e mais esdrúxulos, cujas análises não cabem aqui.

 

Afinal, a essência do que discutimos vai além da autoria aética. Refere-se, essencialmente, à avaliação dos artigos na esfera dos títulos técnico-científicos. Enquanto, teoricamente, os acadêmicos clamam por uma política limpa e límpida ou por um governo transparente e equânime, cometem arbitrariedades incríveis. Recentemente, por exemplo, tivemos conhecimento de um caso transcorrido num título da área considerado “de porte razoável”, quiçá, “respeitável”. Pois bem, como mostram documentos irrefutáveis, devidamente arquivados, um artigo enviado para avaliação, aguarda parecer desde o dia 16 de junho de 2015. Exatamente, 16 de junho de 2015. No sábado (atenção! Sábado), 29 de abril de 2016, os autores decidem solicitar resposta do comitê editorial. Na segunda-feira (atenção! Segunda-feira), 2 de maio, o editor envia, ao lado de um parecer coalhado de contestações passíveis de serem respondidas via argumentos sólidos, um segundo parecer que diz ironicamente: “Considero, pela falta de coerência e método, que o artigo não é publicável." Simples assim! Ponto final!

 

Óbvio está, para qualquer analfabeto, funcional ou não, que um paper disponibilizado a uma revista por 10 meses e 17 dias, do domingo para segunda-feira, não pode ter “ganho” um parecer tão “ricamente” construído! É evidente que se trata de uma farsa (sobre a qual há provas suficientes sem ser necessário apelar para o Supremo Tribunal Federal, ocupado com questões mais graves que assolam o país) armada nos bastidores de “nossas” revistas.

 

Fatos como este, ao tempo em que dão ideia dos desmandos da produção científica dos dias atuais que comprometem a comunicação científica, processo vital ao processo desenvolvimentista dos povos, nos conduzem à reflexão profunda e / ou a um grito desesperado de socorro sobre a avaliação de nossas publicações. É preciso que editores, referees e demais envolvidos na editoração, quando forem apontar a devassidão que se vê no país, pensem nos deslizes talvez cometidos no dia a dia em tarefas cotidianas, mas de grande responsabilidade social e intelectual!

 

Afinal, é uma sensação de desalento! Casos assim, decerto, justificam o momento histórico em que a revisão aberta (a open peer review) ganha adeptos mundo afora, exatamente para tornar o processo de editoração transparente, legítimo e verdadeiro!

 

FONTES:

 

HORGAN, J. The “slow science” movement must be crushed! July 29, 2011. Disponível em: <http://blogs.scientificamerican.com/cross-check/2011/07/29/the-slow-science-movement-must-be-crushed>. Acesso em: 11 maio 2016.


THE SLOW SCIENCE ACADEMY. The slow science manifesto.
2010. Disponível em: <http://slow-science.org>. Acesso em: 15 maio 2016.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”