GERAL


ENTRE PÃES E LIVROS

  • Autor não informado
  • Junho/2009

Giovani Miguez

 

Um olhar mais atento permite-nos entender que uma cesta de livros pode ter a mesma importância e urgência que o Bolsa Família.

 

“Cesta básica de livros”. Essa é a mais nova ideia do Senador Cristovam Buarque, do PDT-DF. Segundo o projeto (PLS 278/2008), o Ministério da Educação poderá oferecer às famílias com filhos entre seis e dezoito anos que estudem em escolas públicas livros de conteúdo “literário, artístico ou científico”. O projeto que teve como relator o Senador Marco Maciel, do DEM-PE, já foi aprovado na Comissão de Educação, Cultura e Esporte e agora vai ao plenário.

 

Ao saber sobre o referido projeto, comemorei. Como faço, aliás, com todas as iniciativas do senador pedetista em prol da educação. Sua bandeira de ontem, hoje e sempre. Buarque é uma rara flor em meio ao cipoal de desesperança que é a política brasileira. Demonstra preocupação genuína com um tema tão sensível.

 

Olhando, mesmo que superficialmente, não se pode deixar de perceber a importância do projeto. Muitos dirão, entretanto, que “há coisas mais urgentes a se tratar em um Brasil com tantas desigualdades e injustiças”. Sim, concordo. Há muitas outras coisas urgentes. Não obstante, o projeto do senador pode ter a mesma urgência que tantas “outras coisas”.

 

Explico. É imprescindível, porém, distinguir urgência de importância. Grosso modo, urgente é, segundo a língua portuguesa, aquilo que precisa ser feito em caráter emergencial. E importante, aquilo que é necessário, tem grande valor e mérito.

 

Pois bem. A miséria do povo brasileiro é uma mazela social que precisa ser corrigida urgentemente. Nisso concordo com os que alegam existir “coisas mais urgentes” que uma cesta de livros. Todavia, tal mazela não é consequência de uma desigualdade também histórica: o direito à educação e informação?

 

Alfabetizar só não basta! Vejo jovens brasileiros chegarem ao ensino superior sem nunca terem lido (e compreendido) um único livro sequer. Sabem “ler”(?), porém não conseguem compreender aquilo que está na entrelinhas. Ou seja, toda aquela sequência de signos diz, de fato, muito pouco ou nada. Tão secular quanto o Brasil é a privação de seu povo ao sagrado direito de informar-se e, consequentemente, ter capacidade de formar a própria opinião.

 

O projeto do senador é um degrau. Um pequeno degrau. É pouco, não há dúvidas. Mas é um degrau importante, pois tem um valor inestimável de médio e longo prazo. É, ainda, um projeto de relevante urgência. Não podemos mais negar ao povo o direito de conhecer o pensamento daqueles que formam a bibliografia nacional e, através de suas penas, registraram nossa história e combateram muitas desigualdades e abusos do passado.

 

Estou convicto de que um olhar mais atento permite-nos entender que uma cesta de livros tem a mesma importância e urgência que o Bolsa Família. Afinal, dar livros e, com isso, cultura e educação aos excluídos é garantir-lhes condições de compreender o mundo ao redor e, principalmente, todas as consequências de um dos seus direitos mais importantes: o voto.

 

Assim, entre pães e livros, mudaremos nossa triste realidade.

 

Giovani Miguez é publicitário, graduado em Gestão Pública e Editor Executivo da Revista Médio Paraíba. Blog: www.giovanimiguez.com – Site: www.medioparaiba.com.br.

Divulgado por Giovani Miguez – Enviado para “3.setor” em 24/04/2009

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.