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"ESQUECIDO", AUTOR BRASILEIRO DE MAIS DE 1,5 MIL LIVROS RENASCE NO FACEBOOK
[06/11/2014]

“Eu não vivo no mundo real. Habito um universo povoado por múmias, vampiros, vampiresas, lobisomens, monstros, seres vindos de regiões abissais ou do além, damas fatais, detetives particulares, mulheres misteriosas. Tenho por companhia quatro gatos e um corvo, com quem converso longamente. Em meu mundo, sempre é noite e as ruas são becos escuros e encobertos por um eterno nevoeiro. Em meu mundo, cada esquina esconde um mistério”.

 

Assim se define Rubens Francisco Lucchetti, 84 anos, escritor brasileiro de tradição pulp com extensa obra de horror e mistério, como “O Fantasma de Tio William”, lançado em 1992 pela Coleção Vagalume. São mais de 1,5 mil livros publicados, 300 HQs, 25 roteiros cinematográficos, incontáveis colaborações para revistas e jornais. Uma parte de sua obra está representada no Prêmio Jabuti 2014: “Fantasmagoria”, antologia de contos fantásticos de sua autoria, organizado pelo filho dele, Marco Aurélio Lucchetti, foi indicado na categoria de ilustração pelos desenhos de Emir Ribeiro.

 

Lucchetti passou os últimos 20 anos batendo nas teclas de sua máquina de escrever, tarde da noite, e guardando textos na gaveta porque não conseguia publicá-los. Pensou que estivesse “esquecido”, mas notou que continuava na memória das pessoas quando percebeu o carinho de fãs ao “descobrir”, meses atrás, as redes sociais. “Há uns dias eu nem sabia falar ‘Facebook'”, contou ao UOL. “Agora recebo [pedidos de] quase cem amigos por dia, desde fãs a velhos conhecidos que eu reencontro. Muita gente esperando com ansiedade pelos lançamentos, demonstrando carinho. Estou ainda assustado, agradecido e maravilhado. Me sinto um jovem”.

 

O caso de Lucchetti se repete com outros grandes nomes que acabam esquecidos pelo mercado de arte e entretenimento, obcecado por novidades. “Isso acontece com tudo mundo, não é só no Brasil. Você vê nas biografias de atores, músicos, desenhistas. Quanta gente grande já passou pela TV. É melancólico o final”, lamenta ele, em entrevista ao UOL.

 

Adepto da máquina de escrever, Lucchetti diz que nunca se interessou por computadores e acabou vencendo o bloqueio “por força de contrato”, devido ao relançamento de romances curtos de sua autoria através do selo Corvo (criado exclusivamente para suas obras), do ACP Grupo Editorial. De início, serão 15 obras, começando por “Máscaras do Pavor”, sobre uma série de misteriosos assassinatos que desafia a polícia de Los Angeles dos anos 1970. O livro chega às livrarias no começo de outubro e será seguido por “Museu dos Horrores”. “Fora da coleção ainda terão outros, o primeiro é sobre uma cantora lírica assassinada, chamado ‘Rosas Vermelhas Para Uma Dama Triste'”, antecipa Lucchetti.

 

“Nome brasileiro não vende”

 

A reclusão de duas décadas de Lucchetti não foi autoimposta. Mesmo com a extensa bibliografia, ele encontrou dificuldades para ser publicado em um mercado editorial cada vez mais preocupado em ter um nome forte na capa, uma desvantagem para quem escreveu com diversos pseudônimos. “As editoras preferem um [nome] importado enlatado, que já vem com a propaganda feita, do que o romance de um autor brasileiro. Você não encontra um editor que acredita no seu trabalho”, falou. “Há uns oito, nove anos enviei um texto para uma editora, que me falou: ‘É uma maravilha o seu romance’. Disse que, por ela, editaria, mas vetou por marketing. Disse que não teria como vender”.

 

O preconceito com autores brasileiros para literatura de horror e mistério é algo que Lucchetti já enfrenta de longa data. Dono de diversos pseudônimos e heterônimos, assinou, ao longo de sua carreira de 72 anos, muitos de seus livros com nomes espanhóis ou norte-americanos por imposição das editoras. “Diziam que um nome brasileiro não venderia”, lembra o autor. “Às vezes o autor era um pseudônimo americanizado meu e o tradutor era outro pseudônimo também meu”, conta ele, que já foi Brian Stockler, William Sharpe e Peter L. Brady.

 

“Já cheguei a encontrar 15 títulos meus em uma banca, assinados por diversos autores. Escrevia de três a quatro livros por mês”, lembra. Por vezes, o uso de pseudônimos era uma escolha, já que o próprio autor se tornava um personagem. “Enquanto escrevia, eu era aquela pessoa 24 horas por dia, pensava e almoçava como ele, vivia como aquele personagem todo dia. Com heterônomos femininos tentava pensar como uma mulher pensaria. Uma fantasia dentro de você mesmo. Tem horas que você não sabe nem mais quem é”, diverte-se ele, que também já assinou como Christine Gray e Isadora Highsmith.

 

Horror do horror

 

Além da nacionalidade, Lucchetti diz que enfrenta preconceito também com o gênero do horror, visto como mórbido e não tradicional do Brasil, apesar de haver grandes referências do gênero, como José Mojica, com quem Lucchetti colaborou na revista “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”. “O gênero de mistério, de detetives, é mais aceito, mas o terror e horror tem muito preconceito”, diz Lucchetti. “Acontece que você já nasce com o terror, com as histórias infantis como a Chapeuzinho Vermelho, Joãozinho e Maria, a Bela e a Fera. São histórias de horror. Dizem que o horror é para pessoas alienadas, principalmente no entretenimento, que é o que eu faço. Mas, para mim, quando uma história é bem contada, existe uma verdade ali. Nas entrelinhas, eu mostro a minha verdade”.

 

Após ter, em suas palavras, “remoçado em pelo menos 20 anos” ao recuperar o contato com os fãs, Lucchetti não quer só ficar no passado e faz planos para obras inéditas. “Tenho uma série de HQs já roteirizadas e pronta para ser desenhada. A maioria das histórias se passa no Brasil”, conta. “Eu tenho muita coisa nova, mas muitos dos bons desenhistas foram para os Estados Unidos. Não sou contra eles porque sei que precisam pagar contas. Nós, autores, não temos sequer esse espaço, já que americanos não compram roteiros brasileiros e os próprios brasileiros não mais consomem os roteiros nacionais”.

 

Enquanto segue trabalhando na publicação de suas obras anteriores e trabalhos inéditos, Lucchetti não deixa de pensar em como se divertir com seus novos “amigos” da internet. “O Facebook é bom porque você conversa. Nem sempre tenho tempo, mas leio tudo o que vem. Têm vindo muitas mensagens do exterior, eu não fazia ideia. Penso em publicar enigmas como numa revista eletrônica. Colocar uma historinha sobre um crime e deixo os leitores tentarem descobrir quem é, revelando na próxima semana, além de curiosidades, frases filosóficas e conversas com esse corvo que sempre anda comigo. E eu que pensei que minha missão estava quase concluída, agora me vejo fazendo novamente em uma velocidade fantástica tudo o que sempre gostei de fazer”.



(Divulgado por Rosalvio Sartortt – Enviado para “Bibliotecários” em 27/09/2014)


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