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COMO A BIBLIOTECA DE BAGDÁ SE PREPARA CONTRA O ESTADO ISLÂMICO

  • Autor não informado
  • Outubro/2015

As prateleiras mal iluminadas e escurecidas pelo pó da Biblioteca Nacional de Bagdade escondem um tesouro de papéis enrugados que contêm crónicas verdadeiras de sultões e reis, imperialistas e socialistas, ocupação e libertação, guerra e paz.

 

São as crónicas originais da rica e tumultuosa história do Iraque – e agora há bibliotecários e académicos em Bagdade a trabalhar a um ritmo frenético para preservar o que delas resta após as perdas ocorridas durante o auge da invasão liderada pelos EUA.

 

Quando os militantes do Estado Islâmico desencadearam o ataque à história e à cultura do Iraque, incluindo a livros e manuscritos insubstituíveis na cidade capturada de Mosul, um enorme projecto de preservação e digitalização foi posto em curso na capital para salvaguardar um milénio de história.

 

Em câmaras escuras situadas nos bastidores da biblioteca, os empregados recorrem a uma iluminação especial para fotografar alguns dos manuscritos mais preciosos. Mazin Ibrahim Ismail, chefe do departamento de microfilmes, disse que estão a testar o processo com documentos do Ministério do Interior do último monarca do Iraque, Faisal II, que governou o país entre 1939 e 1958.

 

“Assim que o restauro de alguns dos documentos mais antigos da era otomana, de há 200-250 anos, tiver sido completado, começaremos a fotografá-los para microfilme”, disse Ismail. O responsável disse também que os arquivos digitais, que não irão ficar imediatamente acessíveis ao público, servem sobretudo para garantir que os seus conteúdos sobrevivem a ameaças futuras. 

 

O processo de restauro não fica aquém da microcirurgia, e o tipo de dano sofrido por cada documento conta uma história – e constitui um quebra-cabeças – em si mesmo. Alguns manuscritos estão rasgados pelo uso e pela idade, outros estão queimados ou manchados devido a ataques ou sabotagem. Há alguns que ficaram completamente fossilizados pelo tempo – o resultado combinado de humidade e temperaturas abrasadoras –, parecendo grandes pedras escavadas da terra.

 

“Estes livros são os mais difíceis de restaurar”, diz Fatma Khudair, a funcionária com mais experiência do departamento de restauro. “Aplicamos vapor com uma ferramenta especializada para tentar dar folga e separar as páginas.”

 

“Por vezes conseguimos salvar esses livros e depois aplicar outras técnicas de restauro, mas noutros casos os danos são irreversíveis”, acrescenta.

 

Os técnicos esterilizam os manuscritos e os documentos por 48 horas, limpando-os de poeiras e outras impurezas acumuladas ao longo do tempo. Aí vão página a página, usando papel japonês, especialmente indicado para conservação e restauro de livros, quer preencher lacunas nas extremidades, quer proteger os documentos mais delicados com uma camada que os torna mais resistentes e duradouros.

 

Fundada pelos britânicos em 1920 a partir de doação e de início ao cuidado de um padre católico, a Biblioteca Nacional de Bagdade já enfrentou momentos de forte turbulência. No princípio da ocupação liderada pelos americanos, em 2003, quando o caos tomou conta da capital, os incendiários pegaram fogo à biblioteca, destruindo 25% dos seus livros e cerca de 60% dos arquivos, incluindo registos otomanos de valor incalculável. Os arquivos de 1970 a 2003 ficaram em cinzas. Alguns arquivos anteriores, de que faziam parte documentos sensíveis do Ministério do Interior, tinham sido armazenados em sacos de arroz e sobreviveram ao incêndio.

 

Durante a invasão do Iraque “havia um local alternativo, no Departamento de Turismo, para os livros e os documentos mais importantes, diz Jamal Abdel-Majeed Abdulkareem, o actual director das bibliotecas e arquivos de Bagdade. “Nessa altura muitos livros e documentos importantes ficaram à mercê da água porque os carros de combate americanos destruíram as canalizações e a água escorreu para estes materiais.”

 

Cerca de 400 mil páginas de documentos – algumas recuando ao período otomano – e 4 mil livros raros ficaram danificados quando se romperam os canos. Incluíam os preciosos arquivos hebraicos, a maior parte dos quais foram depois transferidos para Washington, DC.

 

Uma equipa de especialistas da Biblioteca do Congresso visitou Bagdade para ajudar a avaliar os estragos e recomendou a construção de uma nova biblioteca nacional. Mais de uma década depois, a abertura de um edifício ultramoderno de 45 mil metros quadrados, da autoria do ateliê AMBS Architects, de Londres, está finalmente prevista, para 1916.

 

Até lá, a Biblioteca Nacional de Bagdade está a tentar ajudar aqueles que se encontram em zonas de conflito a desfrutar e apreciar a cultura iraquiana. Os responsáveis da biblioteca dizem que partilhar a arte e a literatura iraquiana é fulcral para combater o terrorismo. Nos últimos meses, a biblioteca doou cerca de 2500 livros a bibliotecas na província iraquiana de Diyala depois de o exército ter ali recuperado vária localidades ao Estado Islâmico.

 

Os militantes “querem que a história reflicta os seus pontos de vista, em vez daquilo que realmente aconteceu”, diz Abdulkareem. “Por isso, quando uma zona é libertada, mandamos-lhes livros para substituírem o quer que tenha sido roubado ou destruído, mas também para que os iraquianos da zona tenham acesso a estes materiais e possam sentir-se orgulhosos da sua rica história.”

 

(Associated Press)

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.