INFORMAÇÃO E SAÚDE


A CIÊNCIA DA IMPLEMENTAÇÃO

Introdução

Há algumas décadas sonhávamos com a vida na sociedade da informação, que, em tese, nos colocaria em um novo patamar humano. Assim, foram reiterados aos quatro ventos dizeres como “o acesso ao conhecimento e à informação permitirá a superação de desigualdades, a criação de emprego qualificado e a propagação do bem-estar” (SARDENBERG, 2000). E, se pararmos para pensar um pouco, continuamos, em diferentes contextos, repetindo ainda esse mesmo mantra que associa acesso à informação a melhor qualidade de vida e bem-estar da humanidade.

Por outro lado, enquanto reproduzimos o discurso de crença no acesso à informação como caminho para o empoderamento e superação das mazelas sociais e mesmo que tenhamos hoje informação disponível em quantidade e qualidade, os problemas da humanidade não parecem ter mudado substancialmente. Temas como desigualdade de poder, violações dos direitos humanos, degradação ambiental, alterações climáticas, pobreza, falta de acesso a serviços de saúde e educação, desigualdade social e econômica, instabilidade geopolítica, migração, repatriamento forçado, violência, discriminação e opressão de todos os tipos e dimensões, desrespeito a pessoas com deficiência, minorias étnicas e raciais estão vigentes (GALVAO, PLUYE, RICARTE, 2017) e redundantes nos noticiários internacionais, nos debates científicos, nas mesas de bar, nas redes sociais e nas redações do ensino fundamental e médio.

Partindo da problemática de que a informação disponível nem sempre é usada por indivíduos, instituições e sociedade, estudos começam a buscar compreender porque, apesar de tantos dados, informações e conhecimentos disponíveis, o comportamento humano em larga escala não se altera como esperávamos. Dessa forma, este texto tem por objetivo apresentar dois exemplos de temáticas em saúde nas quais as informações disponíveis não têm sido suficientes para superação dos problemas e, em seguida, introduzir o conceito da “ciência da implementação”.

Casos onde as informações disponíveis não têm sido suficientes para mudar o comportamento

A título de exemplo, fazendo uma busca rápida na base de dados Pubmed, localizamos no dia 31 de outubro de 2017, 271.260 artigos sobre “obesity” (obesidade), dos quais 18.937 publicados em 2017. Empregando o mesmo termo para busca na plataforma Youtube, localizamos cerca de 1.100.000 vídeos; e no buscador Google encontramos cerca de 86.300.000 ocorrências. Por meio desse simples exercício, pode-se concluir que qualquer pessoa, com acesso à internet, pode acessar, em alguns segundos, milhares de informações sobre obesidade, no idioma que preferir e no formato que quiser (texto, vídeo, áudio etc.).

Porém, os dados evidenciam que, entre 1980 e 2013, a prevalência de pessoas com sobrepeso e obesidade, em todo o mundo, cresceu 27,5% em adultos e 47,1% em crianças. Em 2013, os Estados Unidos apresentaram a maior proporção de pessoas obesas, 13% do total mundial. Em 2011 a 2012, 68,5% dos adultos americanos apresentavam sobrepeso ou obesidade. Destes, 34,9% dos adultos eram obesos e 6,4% tinham obesidade grau 3, com IMC maior ou igual a 40. Atualmente, 17% das crianças e adolescentes americanos de 2 a 19 anos são obesos (BARNES et al. 2016).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2016, mais de 1,9 bilhão de adultos maiores de 18 anos tinham excesso de peso. Destes, mais de 650 milhões de adultos eram obesos. A OMS também nos explica que a causa principal da obesidade e do excesso de peso é um desequilíbrio energético entre calorias consumidas e calorias gastas. Em outras palavras, tem havido um aumento da ingestão de alimentos com densidade energética rica em gordura e um aumento da inatividade física devido à natureza cada vez mais sedentária de muitas formas de trabalho, mudança de modos de transporte e crescente urbanização. As mudanças nos padrões de atividade física podem resultar de mudanças ambientais e sociais associadas ao desenvolvimento e à falta de políticas públicas em setores como saúde, agricultura, transporte, planejamento urbano, meio ambiente, processamento, distribuição e marketing de alimentos, e educação (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017).

A OMS também alerta que o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco para doenças não-transmissíveis, tais como doenças cardiovasculares, diabetes, distúrbios musculoesqueléticos e alguns tipos de câncer (incluindo câncer no endométrio, mama, ovário, próstata, fígado, vesícula biliar, rim e cólon). Já a obesidade infantil está associada a uma maior chance de morte prematura e incapacidade na idade adulta, incluindo problemas respiratórios, aumento do risco de fraturas, hipertensão, resistência à insulina e efeitos psicológicos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017).

O exemplo da obesidade demonstra que a disponibilidade de informação não é suficiente para alterar o comportamento da população em geral. Mas, alguém poderá dizer que o “povão” possui deficiências inúmeras de competência informacional e que, portanto, não sabe usar a informação em seu benefício. É por isso que citarei outro exemplo com foco em profissionais da saúde: a lavagem das mãos como forma de prevenção de infecção em unidades de terapia intensiva.

Desde o século 19, sabe-se que a higiene adequada das mãos é fundamental na prevenção de infecções. Dessa forma, após o contato com os pacientes, as mãos dos profissionais de saúde podem estar contaminadas com bactérias patogênicas resistentes a antibióticos, que poderão, então, ser transferidas e contaminar outros pacientes. Os sabões contendo agente antisséptico demonstraram reduzir efetivamente a quantidade de bactérias nas mãos, quando usados corretamente. Porém, apesar do conhecido benefício da higiene das mãos para a prevenção de infecções associadas à transmissão de bactérias durante o cuidado, a higiene adequada das mãos por profissionais de saúde em unidades de terapia intensiva permanece baixo em decorrência de aspectos estruturais, de questões organizacionais, e da falta de tempo na rotina diária dos profissionais (HONDA et al., 2016, STAHMEYER et al 2017).

Pelo exposto, pode-se observar que o simples acesso à informação não altera o comportamento humano. MARTEAU et al (2012) esclarecem que o comportamento humano possui influências da reflexão sobre a ação e da repetição da ação em si. Muitas intervenções voltadas para a mudança do comportamento relacionado à saúde almejam processos reflexivos. Na sua forma mais simples, essas intervenções fornecem informações na tentativa de persuadir as pessoas a mudar seu comportamento como, por exemplo, nas campanhas de meios de comunicação de massa destinadas a aumentar o consumo de frutas e vegetais ou a parar de fumar. Porém, a ação humana não se dá apenas por reflexão e sim por padrões de repetição adquiridos ao longo do tempo. Ou seja, na nossa experiência humana, os comportamentos altamente rotineiros, incluindo o que e quando comemos, são difíceis de mudar, semelhante ao que ocorre em experimentos animais, por exemplo, quando o rato altamente treinado continuará pressionando uma alavanca para ter acesso a uma bebida mesmo quando essa bebida tem um gosto ruim.

A emergência da ciência da implementação

Considerando que apenas a disponibilização de informação não é suficiente para alterar comportamentos humanos, no campo da saúde, tem ganhado eco nas últimas décadas a ciência da implementação, que é entendida como o estudo de métodos e estratégias para promover a integração efetiva dos resultados de pesquisa, ou seja, da informação científica sobre saúde, com as políticas e as práticas de saúde. Para tanto, a ciência da implementação entende que o comportamento dos atores envolvidos em uma problemática é uma variável chave na aceitação sustentável, adoção e implementação de intervenções baseadas em evidências (MELVIN; KATHLEEN, 2015).

As ferramentas da ciência da implementação incluem a formação de equipes interdisciplinares, incluindo profissionais e pesquisadores da saúde, das ciências sociais aplicadas e das ciências humanas, gestores e sociedade, métodos de pesquisa mistos, com destaque para os métodos qualitativos que possam identificar gargalos e determinantes subjacentes, medidas e métodos contínuos de melhoria da qualidade, monitoramento de desempenho e avaliações de satisfação dos atores envolvidos na intervenção (MELVIN; KATHLEEN, 2015).

Melvin e Kathleen (2015) esclarecem que a ciência da implementação considera os recursos existentes no sistema, as características da inovação que se quer implementar e as características do ser humano que adotará a inovação. Em relação aos recursos do sistema mencionam tempo disponível, monitoramento e feedback, e implicações das avaliações a serem recebidas. Em relação às características da inovação citam a baixa complexidade, vantagem em relação a outras inovações e a compatibilidade. Em relação às características do ser humano que adotará a inovação mencionam suas necessidades, motivações, valores e objetivos, competências e estilo de aprendizagem.

Melvin e Kathleen (2015) ressaltam que a pesquisa de implementação não se confunde com a difusão da informação, nem com a disseminação da informação e tampouco com a pesquisa sobre disseminação da informação. Para os autores, no contexto da saúde, a difusão da informação é um processo de caráter mais passivo pelo qual um programa ou produto é absorvido. Eles consideram que a disseminação consiste na distribuição ativa e direcionada de informações e intervenções para um público específico de saúde pública ou prática clínica através de canais determinados usando estratégias planejadas. Já a pesquisa de disseminação aborda como as informações sobre intervenções de promoção e cuidados de saúde são criadas, transmitidas e interpretadas por vários públicos. Por outro lado, a ciência da implementação busca compreender o comportamento da população, dos profissionais de saúde, dos pacientes e outras partes interessadas como uma variável chave.

Conclusão

Em que pese toda a importância de termos um mundo de informações disponíveis com qualidade e em quantidade, isto não tem sido suficiente. É preciso avançarmos no sentido de criarmos inovações que sejam passíveis de uso efetivo pela humanidade e que alterem o comportamento humano de forma mais expressiva. Nesse sentido, a literatura sobre a ciência da implementação tem crescido vertiginosamente. Para quem deseja iniciar seus estudos nesse campo, talvez, um bom caminho seja a leitura dos artigos publicados no periódico Implementation Science, cujo o fator de impacto é 3.354, e encontra-se disponível em: https://implementationscience.biomedcentral.com/.

Por fim, é preciso assinalar que no Brasil há um centro de pesquisa de implementação situado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, patrocinado pela Organização Mundial de Saúde. Esse centro é integrado por vários docentes com diferentes formações acadêmicas, nos quais me incluo. Maiores informações podem ser obtidas em: https://implementationbrazil.fmrp.usp.br/

Referência

BARNES, A. et al. Obesity as a clinical and social problem. In: KING, T.E., Medical management of vulnerable and underserved patients: principles, practice, and populations. 2ed. New York: McGraw-Hill, 2016.

GALVAO, M.C.B; PLUYE, P.; RICARTE, I.L.M. Métodos de pesquisa mistos e revisões de literatura mistas: conceitos, construção e critérios de avaliação. InCID, v. 8, n. 2, p. 4-24, 2017. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/incid/article/view/121879/133611. Acesso em: 31 out. 2017. 

HONDA, H. et al. Infection prevention and surveillance in the intensive care unit. In: HALL, J.B. et al. eds. Principles of critical care. 4ed. New York: McGraw-Hill, 2015.

MARTEAU, T. et al. Changing human behavior to prevent disease: the importance of targeting automatic processes. Science, p. 1492-1495, 2012.

MELVIN, C. L.; KATHLEEN T. B. Implementation science. In: GREENBERG, R. S. Medical epidemiology: population health and effective health care. 5ed. New York: McGraw-Hill, 2015.

SARDENBERG, R.M. Apresentação. In: TAKAHASHI, T. (org.). Livro verde da Sociedade da Informação no Brasil. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. Disponível em: https://www.governoeletronico.gov.br/documentos-e-arquivos/livroverde.pdf Acesso em: 31 out. 2017.

STAHMEYER, J.T. et al. Hand hygiene in intensive care units: a matter of time? Journal of Hospital Infection, v.95, n.4, 2017, p. 338-343, 2017.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Obesity and overweight. Genebra: WHO, 2017. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/ Acesso em: 31 out. 2017.

Como citar este texto

GALVAO, M.C.B. A ciência da implementação. 9 de novembro de 2017. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2017. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1092 


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.